Copa 2026: Austrália se aproxima de zerar transmissões de HIV; Turquia registra alta de 50% nos novos casos

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Enquanto os australianos se aproximam do controle da epidemia, os turcos convivem com o aumento dos diagnósticos e desafios na ampliação da prevenção

A Copa do Mundo de 2026 é feita de contrastes. Dentro de campo, seleções chegam ao torneio carregando histórias, tradições e expectativas diferentes. Algumas sonham com o título. Outras buscam apenas surpreender. Há potências consolidadas e equipes que enxergam cada participação como uma conquista histórica.

Fora dos gramados, o cenário não é diferente. Quando Austrália e Turquia entrarem em campo na madrugada deste domingo (14), no BC Place Stadium, em Vancouver, no Canadá, pela primeira rodada do Grupo D, estarão representando dois países que também vivem momentos bastante distintos em outra disputa global: a luta contra o HIV.

De um lado, uma das respostas mais bem-sucedidas do planeta, frequentemente citada como referência internacional em prevenção, diagnóstico e tratamento. Do outro, um país onde os casos continuam crescendo ano após ano, contrariando a tendência observada em diversas regiões do mundo.

O duelo marca mais um capítulo da série especial da Agência Aids durante a Copa do Mundo de 2026, que acompanha cada partida sob a perspectiva da epidemia de HIV.

Quando o placar da prevenção faz diferença

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No futebol, alguns resultados são construídos ao longo de décadas. Na saúde pública acontece o mesmo. A Austrália é hoje considerada um dos maiores exemplos mundiais de resposta ao HIV justamente porque apostou cedo em estratégias que, décadas depois, continuam produzindo resultados.

Os números ajudam a explicar. Segundo dados do Unaids e do governo australiano, aproximadamente 31 mil pessoas vivem com HIV no país.

Em 2023 foram registrados 722 novos diagnósticos, uma redução de cerca de 33% em comparação com 2014, quando mais de mil novos casos haviam sido contabilizados. A prevalência estimada é de apenas 0,14%.

Trata-se de um dos índices mais baixos entre os países participantes da Copa do Mundo.

A caminho das metas globais

Mais importante do que a baixa prevalência é a qualidade da resposta construída pelo país. A Austrália está entre as nações mais próximas de atingir a meta 95-95-95 do Unaids, considerada um dos principais indicadores globais de controle da epidemia.

Atualmente, 91% das pessoas vivendo com HIV conhecem seu diagnóstico. Entre elas, 97% estão em tratamento. E, dessas, 98% alcançaram supressão viral.

Na prática, isso significa que milhares de pessoas conseguem viver com qualidade de vida, reduzindo drasticamente os riscos de adoecimento e impedindo a transmissão sexual do vírus.

As autoridades australianas trabalham com uma meta ainda mais ambiciosa: eliminar as transmissões do HIV em território nacional até 2030.

Um modelo construído em parceria com a comunidade

A trajetória australiana começou cedo. O primeiro caso de HIV foi registrado em 1982. Poucos anos depois, o país já implementava algumas das políticas que se tornariam referência mundial.

Em 1986, criou programas de troca de seringas para usuários de drogas injetáveis. Três anos mais tarde, lançou uma estratégia nacional que unificava governos, sistema de saúde, pesquisadores, organizações comunitárias e movimentos LGBTQIA+ em torno de uma resposta coordenada.

A aposta em evidências científicas e na participação das comunidades mais afetadas transformou a Austrália em um laboratório bem-sucedido de políticas públicas.

Hoje, cerca de 80% dos homens que fazem sexo com homens HIV negativos utilizam ao menos uma estratégia de prevenção. A PrEP, incorporada ao sistema público em 2018, tornou-se uma das ferramentas centrais dessa estratégia.

Até o final de 2024, mais de 85 mil pessoas haviam utilizado a profilaxia nas unidades públicas de saúde.

Nem mesmo os melhores desempenhos estão livres de desafios. Embora os homens que fazem sexo com homens continuem concentrando a maior parte dos diagnósticos — 56% dos casos — especialistas chamam atenção para uma questão menos visível.

O diagnóstico tardio entre mulheres. Pesquisas do Kirby Institute mostram que quase metade das mulheres diagnosticadas com HIV no país descobre a infecção em estágio avançado. Entre mulheres heterossexuais, o percentual chega a 46%.

O dado reforça a necessidade de ampliar estratégias de testagem e conscientização também fora dos grupos tradicionalmente considerados prioritários.

Turquia enfrenta crescimento dos casos

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Se a Austrália entra em campo defendendo um dos melhores retrospectos globais na luta contra o HIV, a Turquia vive um momento bem diferente.

Embora a prevalência permaneça relativamente baixa, estimada em cerca de 0,1%, os diagnósticos vêm crescendo de forma consistente nos últimos anos. Segundo dados analisados pelo National Institutes of Health (NIH), mais de seis mil novos casos foram registrados em 2023.

O número representa aumento próximo de 50% em comparação com 2018. A tendência chama atenção porque ocorre na direção oposta da observada em muitos países, onde os diagnósticos permanecem estáveis ou em queda.

O desafio do diagnóstico

Especialistas apontam um fator particularmente preocupante. Quase metade das pessoas que vivem com HIV na Turquia desconhece seu estado sorológico. Estima-se que 49% das infecções ainda não tenham sido diagnosticadas.

Sem diagnóstico, não há tratamento. Sem tratamento, aumentam os riscos de transmissão e de agravamento da doença.

Essa lacuna ajuda a explicar parte do crescimento observado nos últimos anos. O HIV continua concentrado principalmente entre homens. Eles representam 81% dos diagnósticos registrados no país.

Os homens que fazem sexo com homens respondem por cerca de 41% dos casos.

Prevenção ainda é um desafio

Os primeiros casos de HIV na Turquia foram registrados em 1985. Quatro décadas depois, especialistas avaliam que a resposta nacional ainda enfrenta limitações importantes.

O país não possui programas amplos de distribuição pública de preservativos ou de medicamentos preventivos em escala semelhante à observada em outras nações.

O acesso à PrEP e à PEP permanece concentrado principalmente em grandes centros urbanos e serviços privados especializados.

Ampliar o acesso à prevenção, fortalecer campanhas educativas e ampliar a testagem são medidas fundamentais para reverter a trajetória de crescimento observada atualmente.

Dois caminhos diferentes para uma mesma meta

Quando a bola rolar em Vancouver, Austrália e Turquia disputarão três pontos importantes na caminhada rumo à próxima fase da Copa. Mas, fora dos gramados, os dois países simbolizam trajetórias muito diferentes na resposta ao HIV.

A Austrália mostra como investimentos contínuos em prevenção, ciência e participação comunitária podem produzir resultados duradouros. A Turquia evidencia os desafios enfrentados quando o diagnóstico precoce e o acesso às estratégias preventivas não avançam na mesma velocidade da epidemia.

São histórias distintas, mas ambas reforçam uma mesma lição. Na luta contra o HIV, assim como no futebol, os resultados não aparecem por acaso. Eles são construídos jogo após jogo, política após política, investimento após investimento. E algumas das partidas mais importantes continuam acontecendo muito longe dos estádios.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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