Controle do HIV sofre retrocessos que precisam ser combatidos, alerta a ONU – Galileu

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Após décadas de avanços, escassez de financiamento para novas pesquisas e infraestrutura potencializa aumento no número de pessoas com diagnóstico positivo

Não há nada que seja tão capaz de unir dois ou mais lados com posicionamentos diferentes quanto ter um inimigo em comum. Não à toa, um dos últimos exemplos mundiais ocorreu há quase três décadas: o combate e o tratamento do HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana), maior caso de sucesso na saúde global.

Os estigmas em relação à doença são antigos, com os primeiros diagnósticos datados nos anos 1980. Com o passar do tempo, as mortes foram reduzidas graças à ações governamentais, saindo, por exemplo, de 1,3 milhão de vítimas em 2010 para 570 mil em 2025. O problema é que um novo estudo, publicado na última quinta-feira (11) no relatório United to end AIDs, tem reforçado como esse êxito está frágil.

A pesquisa contou com a participação de 79 organizações de 47 países dos continentes asiático, africano e latinoamericano. Os resultados mostram um progresso desigual em meio ao corte de financiamento, com maior prejuízo e suscetibilidade para as populações de países e comunidades mais pobres.

Essa falta de zelo já tem mostrado resultados: muitas pessoas não conseguem ter acesso ao tratamento e o vírus tem eventualmente se espalhado. Em comunicado, Winnie Byanyima, da UNAIDS, afirmou que “os cortes no financiamento, combinados com a redução do espaço cívico e a crescente criminalização das populações marginalizadas, criaram a maior tempestade que a resposta ao HIV já viu”.

(Sem) assistência global
O retorno de uma doença aparentemente controlada e preocupante atinge, sobretudo, as populações mais vulneráveis. Na África Subsaariana, por exemplo, três mil adolescentes e jovens mulheres contraem o vírus semanalmente, sendo esse um dos sinais mais claros de que o mundo e os órgãos de saúde não ajudam todas as pessoas de maneira eficaz.

Os cortes foram variados e em diferentes áreas, mas o que chamou mais a atenção foi a queda na adesão à PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) – medicamento diário para prevenir a contaminação por HIV –, com redução de 38% entre 2024 e 2025 em 62 países. Para muitos analistas, a queda é um dos resultados do corte de verbas da ajuda global.

Os principais cortes vieram para os programas de testagem em locais de alta incidência e para o financiamento de preservativos, com redução de mais de 90% para esse item. Além disso, há países que optaram por medidas mais extremistas: seja com a criminalização ou o aumento de penalidades para atividades sexuais entre pessoas do mesmo sexo.

Os investimentos em prevenção têm diminuído cada vez mais e não há indícios de que poderão ser recuperados, segundo o relatório. Enquanto o dinheiro continua a ser retirado, os diagnósticos de infecção vêm aumentando, em especial entre profissionais do sexo e homens que se relacionam sexualmente com outros homens,

Novos rumos
O relatório também revela um retrocesso perigoso na garantia dos direitos humanos. Isso porque foi a primeira vez que a UNAIDS percebeu um aumento da criminalização de populações marginalizadas.

Essa marginalização gera consequências tão graves quanto a falta de investimentos financeiros, já que, por vezes, essa parcela da população recebe menos instruções e cuidados referentes ao quadro médico. Não é de se impressionar, por exemplo, que entre as 40,9 milhões de pessoas soropositivas nove milhões não estão em tratamento contra o HIV.

Os especialistas acreditam que os países devem adotar novas deliberações políticas sobre o assunto. “Se seguirmos a Estratégia Global de Combate à AIDS e os Estados-Membros da ONU se comprometerem a adotar uma declaração política forte para orientar a resposta nos próximos cinco anos, ainda poderemos acabar com a AIDS até 2030”, acredita Byanyima.

Esse comprometimento envolve cumprir metas gerais, que incluem alcançar 40 milhões de pessoas com tratamento antirretroviral até 2030, garantir que 20 milhões de pessoas tenham acesso a medicamentos para prevenir o HIV e assegurar que todas as pessoas recebam serviços livres de estigma e discriminação.

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