Consultório na Rua leva atendimento Humanizado à população em situação de rua na cidade de São Paulo

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Em meio à rotina agitada da maior metrópole do Brasil,uma cena chama atenção: em um espaço aberto, sob a sombra de árvores e entre construções improvisadas, uma profissional de saúde mede a pressão arterial de uma mulher em situação de rua. Com jaleco branco e instrumentos médicos em mãos, a trabalhadora representa o esforço de uma política pública que rompe as barreiras do consultório tradicional para levar cuidado onde ele é mais urgente: nas ruas.

Essa é a missão do Consultório na Rua (CnR), um serviço da Secretaria Municipal da Saúde (SMS) criado em 2004 para garantir o acesso à saúde de pessoas em situação de rua. Atuando de forma itinerante em todas as regiões da capital, o programa conta com equipes compostas por profissionais de diversas áreas, como médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, agentes de saúde de rua e administrativos. Em algumas regiões, também há cirurgiões-dentistas e auxiliares de saúde bucal.

Além das 479 Unidades Básicas de Saúde (UBSs), que são a principal porta de entrada para o SUS na cidade, os CnRs ampliam o acesso aos serviços para uma população que, muitas vezes, enfrenta barreiras sociais, econômicas e institucionais para obter atendimento. Na região central, algumas equipes atuam em parceria com o Projeto Redenção, política pública municipal que integra ações de saúde, reinserção social e capacitação profissional para pessoas com dependência química.

O trabalho vai muito além do cuidado clínico. As equipes realizam escutas qualificadas, cadastro, acompanhamento em saúde e formação de vínculo com as pessoas em situação de rua, oferecendo atendimento integral à saúde da mulher, da gestante, da população LGBTIA+, de crianças, adolescentes e idosos. As atividades ocorrem onde essas pessoas vivem: na rua, nas calçadas, em unidades móveis, centros de acolhida e também nas UBSs do território.

A atuação do Consultório na Rua se articula com a rede de atenção básica, os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), os serviços de urgência e emergência e com instituições do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), além de parcerias com organizações da sociedade civil.

Dentro de uma concepção ampliada de saúde, que inclui cultura, lazer e bem-estar, as equipes também promovem atividades como sessões de cinema, visitas a museus, jogos de futebol e ações de cuidado com a autoestima, como os “dias de beleza”.

Atualmente, os profissionais do CnR atuam diariamente das 7h às 19h, com algumas equipes estendendo o atendimento até as 22h. A meta é clara: garantir que ninguém fique sem acesso ao direito fundamental à saúde, mesmo diante das situações mais extremas de vulnerabilidade.

“ A população em situação de rua é estigmatizada em diversos âmbitos e diante de tantas transversalidades que apresentam, é necessário o pensamento de ações estratégicas para o cuidado”, diz Marta Regina Marques Akiyama
Gestora de saúde dos consultórios na rua do Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto. A profissional respondeu a questões feitas por esta Agência. Conheça mais sobre o trabalho.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Como é a rotina de trabalho das equipes do Consultório na Rua?

O Consultório na Rua (CnR) é um programa federal com a proposta de levar a saúde em atenção primária para população em situação de rua, com atendimentos compartilhados em equipe multidisciplinar e com foco na integralidade e longitudinalidade do cuidado.

As Equipes CnR BOMPAR são compostas por médico, enfermeiro, assistente social, psicólogo, auxiliar de enfermagem, agentes de saúde, agentes sociais e auxiliar administrativo, que se organizam no território de acordo com as microáreas mapeadas e as necessidades de cada local. São vinculadas à Unidade Básica de Saúde (UBS) e os atendimentos acontecem dentro do equipamento de saúde ou in loco, no local de moradia e pertencimento do paciente, atuando de segunda a segunda, para que a equidade no atendimento seja garantida, como acesso à medicações em tratamento diretamente observado diário ou na necessidade de curativos. As equipes fazem o reconhecimento territorial e das movimentações ao qual o paciente se submete, levando em consideração a diversidade cultural e para a população residente daquele espaço.

Quais são os principais desafios enfrentados no atendimento à população em situação de rua?
A população em situação de rua é estigmatizada em diversos âmbitos e diante de tantas transversalidades que apresentam, é necessário o pensamento de ações estratégicas para o cuidado. A maioria das pessoas que estão em situação de rua não se adequam quanto às normativas e expectativa, gerando desafios como a organização pessoal do paciente para armazenamento e administração correta de medicações prescritas, alimentação adequada diante de necessidades especiais, higiene e autonomia no autocuidado que visem a preservação de boa saúde física, mental e social, os desafios também se apresentam nos recortes e perfis que a rua tem como crianças e adolescentes, idosos, mulheres, migrantes e imigrantes, população LGBTQIAP+, que convocam a equipe e a rede para discussões quanto as possibilidades de vinculo, cuidado e manejo para além dos protocolos.

Um desafio é também a que a população é flutuante/ itinerante entre territórios, sendo necessário o compartilhamento de informações e troca entre equipes para continuidade no cuidado e no Projeto Terapêutico Singular (PTS) de cada paciente, o que facilita na comunicação entre Equipes é de a atuação da mesma instituição BOMPAR, com mesmo manejo e forma de trabalho.

Como é feita a abordagem inicial das pessoas nas ruas?
As Equipes CnR BOMPAR realizam a territorialização constante visando a ciência da vivência e dos pacientes pertencentes a cada território, sendo esta equipe referência em saúde para o usuário e demais serviços que compõe a RAPS. Inicialmente o vínculo se estabelece com um profissional, que faz o atendimento abordando questões pertinente a um cuidado biopsicossocial do paciente, que de maneira humanizada inclui o usuário às ofertas de cuidado pertinentes e desde o primeiro momento garantindo o direito de acesso à saúde.

Quais estratégias vocês utilizam para construir vínculo e garantir a continuidade do cuidado?
O vinculo é construído a partir do primeiro contato com o paciente e diante da disponibilidade de acesso ao paciente, a prioridade de realizar vínculo com respeito ao usuário em sua singularidade garante a adesão e continuidade aos cuidados. A condução do tratamento e direcionamento do cuidado são sempre discutidos com o paciente e levado em consideração seus desejos e necessidades.

Para além dos protocolos, o BOMPAR realiza Projetos Extramuros, que potencializam o vínculo e são estratégias que proporcionam o cuidado, oportunizando o atendimento profissional, como o futebol, que tem majoritariamente a população masculina, sendo ofertado o espaço como redução de danos, aferição de sinais vitais, roda de conversa com orientações em saúde antes dos jogos e a possibilidade de ações como teste rápido, coleta de escarro, entre outros. Outro projeto é o da Gestante, onde a gestante em situação de rua é incentivada a realizar o pré-natal, realiza um dia de cuidados pessoais, de cabelo, unhas, maquiagem e após fazem fotos profissionais, após o nascimento de seu filho, recebe o material gráfico junto ao enxoval. Todos os projetos extramuros têm a intencionalidade de garantir o acesso a saúde e tem como vertente a garantia de direitos sociais e de saúde mental à população.

Há casos marcantes ou histórias que te emocionaram nesse trabalho?
Sim, diariamente encontramos casos que marcam a atuação do Consultório na Rua, pacientes que se organizam, saem da situação de rua, retomada de vínculos familiares, conquistas de direitos e a oportunidade de trabalho como Agente de Saúde de Rua, nas Equipes Consultório na Rua BOMPAR, que constroem e reconstroem suas histórias. Ao longo destes 20 anos de atuação, são inúmeras histórias e conquistas que podemos olhar e nos inspirar.

Como o Consultório na Rua se articula com outros serviços de saúde e assistência social?
O Consultório na Rua é parte presente e pertencente da RAPS e está integrada com os demais serviços que contribuem para a saúde integral da população. A dinâmica de articulação entre serviços acontece em matriciamento e discussões de casos que se apoiam e organizam diante das necessidades da população em situação de rua. As informações e trocas entre equipes são de tamanha relevância para o PTS do paciente e na construção conjunta deste cuidado, que os espaços para matriciamento são sempre priorizados, para além do fluxo diário de trabalho.

O que você gostaria que a população em geral soubesse sobre esse serviço?
Consultório na Rua BOMPAR é um serviço parceiro da Secretaria Municipal de Saúde, que está em todas as Coordenadorias Regionais de Saúde do Município de São Paulo e visam a integralidade do cuidado em saúde para população em situação de rua, mas que para além dos protocolos que norteiam o trabalho, a atuação do CnR prioriza a singularidade do paciente, gerando ações que oportunizam e dão garantia de direitos, com sensibilidade e respeito a cada atendimento.

Marta Regina Marques Akiyama
E-mail para contato: marta.saudenarua@gmail.com

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