6/2/2007 – 13h20
As entidades que compõem o Movimento Propaganda Sem Bebida criticam a campanha de prevenção à Aids do Ministério da Saúde, a ser veiculada em cartazes durante o verão e o carnaval, que traz a mensagem: “Proteção pra cerveja, proteção pra você. Beba com moderação, mas use sempre camisinha”. Na semana passada, o ativista José Araújo de Lima, presidente da AFXB Brasil (Association François-Xavier Bagnoud), ameaçou entrar com processo na justiça contra o Programa Nacional de DST/Aids (saiba mais).
O Movimento Propaganda Sem Bebida, liderado pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) e pela Unidade de Álcool e Drogas (Uniad) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), reúne mais de 300 entidades da sociedade civil, entre ONGs que trabalham com dependência química e saúde mental, igrejas, universidades, serviços de saúde, entidades de defesa do consumidor, entidades médicas, entre outros.
Segundo Desiré Callegari, presidente do Cremesp, “a mensagem, muito semelhante às propagandas de cerveja, incentiva a bebida, o que demonstra a falta de uma política pública de prevenção ao uso do álcool e a desorientação do governo federal nessa área. A indústria da bebida está sendo beneficiada com uma propaganda financiada com recursos públicos.”
Para o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, coordenador da Uniad, “é totalmente inadequado partir do governo federal uma campanha que banaliza o consumo do álcool justamente num período em que as pessoas abusam das bebidas alcoólicas. Não é verdade que o brasileiro consome cerveja e outras bebidas culturalmente com moderação. Metade das pessoas que bebem no país o fazem de forma abusiva.”
As entidades irão solicitar ao Ministério da Saúde e à Secretaria Nacional Antidrogas (Senad) que interrompam a veiculação da campanha.
Problema de saúde pública
As entidades advertem que assim como a epidemia do HIV/Aids, também o uso do álcool é um dos mais graves problemas de saúde pública do Brasil. Por isso é preciso mais sensibilidade ao combinar os dois temas. O álcool provoca a maioria dos acidentes de trânsito, sendo os jovens as principais vítimas; aparece na maior parte dos laudos cadavéricos de mortes violentas; transforma milhões de brasileiros em dependentes químicos; leva crianças e adolescentes à ingestão precoce, muitos a partir dos 10 anos de idade; está diretamente ligado ao abandono de crianças, aos homicídios, delinqüência, violência doméstica, abusos sexuais, acidentes, seqüelas irreversíveis, invalidez e mortes prematuras; causa ou contribui com intoxicações agudas, coma alcoólico, pancreatite, cirrose hepática, câncer em vários órgãos, hipertensão arterial, doenças do coração, acidente vascular cerebral, má formação do feto, doenças sexualmente transmissíveis, Aids e gravidez indesejada; impõe prejuízos incalculáveis, gastos com saúde, atendimentos em prontos-socorros, internações psiquiátricas, faltas no trabalho; além dos custos humanos, com a diminuição da qualidade de vida dos usuários e de seus familiares.
Entidades querem proibição da propaganda
O Movimento Propaganda Sem Bebida defende a proibição das propagandas de cerveja e das demais bebidas alcoólicas nos meios de comunicação e em eventos esportivos, culturais e sociais. A proposta do Movimento conta com Moção favorável do Conselho Nacional de Saúde. As entidades que participam da mobilização já recolheram cerca de 600 mil assinaturas em defesa da aprovação, pelo Congresso Nacional, de lei semelhante à que vigora atualmente e que proíbe as propagandas de cigarro nos meios de comunicação.
O Movimento lançou em 2006 a campanha que traz o mote: “Você confia seus filhos a ela e tudo que ela faz é falar de bebidas na frente deles. Pela proibição da propaganda de cervejas e outras bebidas alcoólicas. Proteja nossas crianças”. A campanha foi baseada em pesquisas recentes que apontam um padrão de consumo abusivo e cada vez mais precoce no Brasil.
O material da campanha está disponível no site www.propagandasembebida.org.br.
Fonte: Conselho Regional de Medicina de São Paulo



