Em dois anos, Brasil duplica número de usuários de PrEP, mas adesão da população negra ainda enfrenta desafios

Recentemente, o Brasil atingiu um marco significativo no combate ao HIV: o número de usuários em adesão à Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) quase dobrou em dois anos, alcançando a marca de 104 mil pessoas em uso contínuo do medicamento. Em 2022, de acordo com dados do Ministério da Saúde, esse número era de pouco mais de 50,7 mil. O crescimento reflete avanços importantes nas políticas públicas de prevenção ao HIV/aids. No entanto, a expansão da PrEP não tem beneficiado todas as populações de maneira igualitária. Pessoas negras enfrentam barreiras que limitam o acesso às medidas de prevenção, evidenciando desigualdades nas políticas públicas de saúde no Brasil.
Na Semana da Consciência Negra, a Agência Aids colocou essa questão em pauta. Em entrevista, a Dra. Ana Elisa, médica infectologista, microbióloga e mulher negra, analisou o impacto da PrEP e as demandas específicas da população negra brasileira. “A notícia do aumento da adesão à PrEP é muito positiva. Isso mostra que as políticas públicas estão se consolidando e que a população está mais aberta e disposta a adotar medidas de prevenção contra o HIV. É um avanço importante no enfrentamento à epidemia”, destacou a especialista.

A Dra. Ana Elisa também ressaltou os resultados positivos da inclusão da PrEP no Sistema Único de Saúde (SUS), disponível gratuitamente há cerca de seis anos. Segundo ela, o SUS garante acesso universal ao medicamento, diferentemente de países como os Estados Unidos, onde o alto custo e a falta de acesso universal limitam a adesão. “Comparando com outros países, vemos que um dos grandes desafios para a adesão à PrEP é o custo. Aqui no Brasil, graças ao SUS, temos acesso gratuito a essa medida de prevenção extremamente eficaz, o que é motivo de celebração e valorização do nosso sistema público de saúde”, afirmou.
Apesar dos avanços, a médica enfatizou a necessidade de estratégias mais inclusivas para alcançar a população negra e outros grupos historicamente vulneráveis. “O acesso à PrEP é um direito de todos, mas precisamos garantir que ela chegue de forma igualitária, superando barreiras que ainda excluem parte da nossa população das políticas públicas de saúde. Devemos celebrar o SUS, mas também cobrar avanços que garantam equidade no acesso à saúde.”
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Estigma, preconceito racial e barreiras de acesso à PrEP
A Dra. Ana Elisa destaca que as dificuldades enfrentadas pela população negra no acesso à saúde são diversas e frequentemente agravadas pelo racismo estrutural. Esse racismo, muitas vezes velado, contribui para o adoecimento dessa população, atuando como barreira no acesso a políticas públicas, incluindo o uso da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP). “A falta de informação e o estigma são obstáculos claros na adesão à PrEP e à prevenção do HIV e outras ISTs. Muitas pessoas nem sabem que a PrEP está disponível gratuitamente no SUS. Quando a informação chega, a procura aumenta, mas precisamos fazer mais para alcançar quem ainda está excluído desse acesso”, afirmou.

A especialista reforça que a responsabilidade de disseminar informações é também dos profissionais de saúde. “Independentemente da especialidade, os médicos devem abordar o tema durante as consultas. Perguntar aos pacientes sobre sua vida sexual e apresentar a PrEP como uma possibilidade de prevenção é fundamental. Muitas pessoas não têm acesso a essa informação pelos meios tradicionais, então precisamos usar espaços como postos de saúde, rodas de conversa e até salas de recepção para educar sobre a PrEP.”
Desigualdades no acesso à PrEP

Dados do Ministério da Saúde mostram que a maioria dos usuários da PrEP no Brasil são homens que fazem sexo com homens (82%), em sua maioria brancos (55%) e com alta escolaridade (72%). Mulheres cis representam apenas 6% dos usuários, enquanto mulheres trans somam 3%. A maior parte desses usuários (58%) está concentrada no Sudeste do país. Mulheres negras e pessoas trans, especialmente em situação de vulnerabilidade, estão entre as que menos acessam a PrEP.
Para a Dra. Ana Elisa, essas disparidades são reflexo do racismo estrutural. “O racismo é um fator frequentemente negligenciado na saúde pública, mas que afeta diretamente o acesso e a qualidade do atendimento. Muitas pessoas negras têm menos acesso à educação formal, o que dificulta o entendimento sobre a PrEP e sua importância. Mesmo quando há materiais de divulgação nos postos de saúde, isso não garante que a população negra compreenda ou reconheça a relevância dessa medida de prevenção.”
Além disso, a vulnerabilidade social e econômica dificulta ainda mais o acesso. “A população negra, especialmente nas comunidades mais vulneráveis, enfrenta desafios adicionais, como a distância dos serviços de saúde e a falta de recursos. Precisamos de políticas que tornem o acesso mais equitativo e inclusivo”, reforçou.
População negra em situação de rua
A médica destacou a situação crítica da população em situação de rua, onde cerca de 70% são pessoas negras, majoritariamente homens negros entre 25 e 40 anos. Esse grupo está altamente vulnerável ao HIV e à aids. Para garantir o acesso e a adesão à PrEP, a Dra. Ana propõe abordagens adaptadas às realidades desses indivíduos.

“Hoje, a PrEP é disponibilizada em comprimidos, mas para pessoas em situação de rua, uma estratégia como o tratamento diretamente observado – semelhante ao utilizado no combate à tuberculose – pode ser eficaz. Nessa abordagem, agentes de saúde acompanham o paciente para garantir o uso correto do medicamento. Implementar políticas assim pode ser crucial para quem vive em condições extremas de vulnerabilidade.”
Ações urgentes e formação de profissionais
A especialista ressaltou a importância de sensibilizar gestores e profissionais de saúde para promover a inclusão da população negra nos serviços de saúde. Ela também defendeu que as universidades incluam a saúde da população negra nos currículos, especialmente em disciplinas de saúde coletiva. “Formar profissionais conscientes dessas desigualdades é essencial para oferecer cuidados mais equitativos e reduzir disparidades.”
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Dra. Ana concluiu destacando a responsabilidade do Estado em garantir que ninguém seja deixado para trás. “Para diminuir as desigualdades, é preciso levar informação e ferramentas de prevenção até as populações mais vulneráveis, nos lugares e momentos certos. Essa é a chave para garantir um futuro mais justo e inclusivo.”
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Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
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