
No dia 17 de maio, o mundo inteiro marca o Dia Internacional contra a LGBTfobia — data simbólica que celebra a retirada da homossexualidade da classificação de doenças da Organização Mundial da Saúde, em 1990. No Brasil, essa data também é um momento para refletir sobre avanços, retrocessos e as vidas que se mantêm em resistência. Para falar sobre o assunto, ninguém melhor que Toni Reis, um dos mais importantes ativistas pelos direitos da população LGBTQIA+ no país. Pai, professor, escritor, e presidente da Aliança Nacional LGBTI+, Toni carrega em sua trajetória as dores da violência, mas também as conquistas que ajudou a escrever na história brasileira.
“Eu sofri muito. Dos 11 aos 17 anos, fui vítima de bullying, assédio, agressões físicas e psicológicas. Tudo por ser quem eu sou”, relembra Toni. “Prometi a mim mesmo que, se sobrevivesse àquilo, transformaria minha dor em luta.”
E transformou. Desde os anos 1980, quando teve contato com o ativismo na Europa, Toni começou a estudar, articular e construir caminhos. Em 1992, já de volta ao Brasil, fundou o Grupo Dignidade, em Curitiba — um dos primeiros grupos formalmente reconhecido no país por lutar pelos direitos da população LGBTQIA+.
Conquistas e desafios no coração da política
Foram décadas de mobilização. A fundação da ABGLT, em 1995; a criação do programa Brasil Sem Homofobia, nos primeiros anos do governo Lula; a luta pelos direitos civis no Judiciário. “Eu vi a história acontecer de dentro. Quando o Supremo reconheceu a união estável homoafetiva, em 2011, e depois nos deu o direito de casar, foi um dos dias mais marcantes da minha vida.”
Outro momento inesquecível, segundo ele, foi quando o Supremo Tribunal Federal reconheceu o direito dele e do marido, o inglês David Harrad, de adotarem seus três filhos. “Hoje estão todos com carteira assinada, dois estudando, e nós, já nos preparando para a aposentadoria. Criar essa família foi um ato de resistência. Fomos o primeiro casal homoafetivo com decisão judicial a adotar no Brasil.”

Mas, como ele lembra, a caminhada foi cheia de pedras. “Nos primeiros anos, a própria comunidade LGBTQIA+ não acreditava que era possível falar em casamento, em adoção, em formar uma família. A rejeição vinha de fora… e de dentro.”
Além disso, as ameaças sempre estiveram presentes. “Fui ameaçado de morte muitas vezes. Nunca me agrediram fisicamente, mas vivi sob risco constante. Ainda assim, seguimos. Porque o amor também é uma forma de coragem.”
Educação e políticas públicas como chaves para o futuro

Para Toni, é impossível falar em enfrentamento à LGBTfobia sem falar em educação. “Nas escolas, a violência ainda é brutal. Pesquisas mostram que 85% dos jovens LGBTQIA+ já sofreram bullying. E o mais grave: 60% dos professores dizem não saber como lidar com essas situações. Isso é inadmissível.”
Ele defende uma educação que ensine o respeito às diferenças, desde cedo, sem silenciar identidades. “A escola precisa ser um espaço de acolhimento. Não dá para fingir que a LGBTfobia não existe. É ela que mata, exclui, adoece.”
As políticas públicas, para ele, precisam ser interseccionais e reais, com orçamento, continuidade e participação social. “A LGBTfobia não anda sozinha. Ela caminha ao lado do racismo, do machismo, da misoginia. Se quisermos políticas eficazes, elas precisam ouvir a sociedade civil, incluir todas as identidades, todos os corpos e todas as vivências.”
A extrema-direita e o perigo da desumanização
Toni alerta para os riscos de retrocesso. “O extremismo político, a extrema-direita e o fundamentalismo religioso representam hoje o maior risco para a nossa população. A desumanização dos corpos LGBTQIA+, sobretudo das pessoas trans, está sendo projetada e repetida em discursos legislativos. Isso lembra perigosamente o que aconteceu nos anos 1930 na Europa.”
Hoje, Toni estuda História e tem visitado antigos campos de concentração na Alemanha, Polônia e República Tcheca. “Lá, percebi o quanto o discurso de ódio se organiza a partir da escola, da mídia, da religião. O que estamos vivendo no Brasil precisa ser nomeado. É projeto de desumanização, e precisamos enfrentá-lo com coragem e estratégia.”
Como resistir? Com diálogo e afeto
Para avançar em um cenário adverso, Toni acredita em articulação ampla. “Não adianta falar só entre nós. Precisamos dialogar com todos os setores, inclusive com setores democráticos da direita. Não vamos ganhar essa luta apenas com militância nas redes. É preciso ir para o território, conversar com quem pensa diferente, construir pontes e não só lacrar.”
Ele defende uma militância que age com estratégia. “Quando houver crime, temos que denunciar, acionar a Justiça. Mas sem alimentar o ódio e o espetáculo que eles querem. A nossa resposta precisa ser firme, mas também racional.”
Família, amor e orgulho

Criar três filhos em um país LGBTfóbico foi, segundo Toni, um ato político. “Nos esforçamos muito. Trabalhamos com as escolas, lemos livros sobre adoção, buscamos formação. E hoje vemos nossos filhos adultos, conscientes, trabalhando, estudando.”
Mas nem tudo foi fácil. “Eles sofreram racismo. Isso nos marcou profundamente. A luta não é só contra a LGBTfobia. É contra todo o sistema de opressão. Por isso, temos que agir com solidariedade e interseccionalidade.”
O Brasil que ele sonha

Quando perguntado sobre o futuro, Toni sorri. “Quero ver meus netinhos crescendo em um mundo onde ninguém precise se apresentar dizendo ‘sou gay, sou lésbica, sou trans’. Onde as pessoas simplesmente sejam quem são, em paz. Quero um Brasil que cumpra a Declaração Universal dos Direitos Humanos: todos nascem livres e iguais em dignidade e direitos.”
E conclui: “A gente já venceu muita coisa. Quando começamos, em 1992, tínhamos 5% de apoio popular. Hoje, temos quase 60%. Ainda falta, mas estamos avançando. O amor venceu muita coisa — mas a luta continua.”
Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
Toni Reis
Instagram: @toni_reis


