Com aplicação a cada dois meses, medicamento dispensa o uso diário de comprimidos e apresentou resultados superiores à PrEP oral em estudos; comissão deu parecer inicial favorável à incorporação e sociedade pode participar até 31 de agosto
Uma injeção a cada dois meses pode se tornar uma nova opção de prevenção do HIV oferecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) abriu a Consulta Pública nº 76 para avaliar a incorporação do cabotegravir de longa ação como Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP).
A consulta ficará aberta até 31 de agosto e permite que pacientes, profissionais de saúde, pesquisadores, organizações da sociedade civil e qualquer pessoa interessada apresentem opiniões, experiências, críticas, sugestões e evidências sobre a chegada da nova tecnologia ao SUS.
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O momento é particularmente importante porque a Conitec já emitiu recomendação inicial favorável à incorporação. O parecer foi definido durante a 154ª Reunião Ordinária da comissão, realizada entre 5 e 7 de agosto. A consulta pública é uma das etapas que antecedem a recomendação final sobre a oferta da tecnologia pelo SUS.
Mais do que a avaliação de um novo medicamento, a discussão coloca em pauta uma mudança importante na prevenção do HIV: ampliar as possibilidades de escolha. Hoje, a principal modalidade de PrEP disponível no SUS utiliza tenofovir e emtricitabina em comprimidos. Com o cabotegravir, a proteção pode ser mantida com aplicações periódicas, reduzindo a dependência da tomada diária de medicamentos.
O que é o cabotegravir?
O cabotegravir é um medicamento antirretroviral de longa ação utilizado para prevenir a infecção pelo HIV em pessoas que não vivem com o vírus e apresentam risco aumentado de adquiri-lo.
Ele pertence à classe dos inibidores da integrase. Na prática, bloqueia uma enzima utilizada pelo HIV para integrar seu material genético ao DNA das células humanas. Ao impedir essa etapa fundamental do ciclo do vírus, o medicamento evita o estabelecimento da infecção.
A principal diferença em relação à PrEP oral está na forma e na frequência de utilização.
O cabotegravir é administrado por injeção intramuscular. São duas aplicações iniciais com intervalo de quatro semanas e, depois, uma dose de manutenção a cada oito semanas.
Isso significa que, depois das doses iniciais, a pessoa não precisa lembrar diariamente de tomar um comprimido para manter a estratégia de prevenção.
O medicamento, comercializado como Apretude®, tem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desde junho de 2023. A indicação aprovada no país contempla a prevenção do HIV adquirido sexualmente em adultos e adolescentes com mais de 12 anos, peso mínimo de 35 quilos e risco aumentado de infecção.
Por que uma PrEP injetável pode fazer diferença?
A PrEP oral já é uma estratégia altamente eficaz de prevenção. O desafio, entretanto, não está apenas na capacidade do medicamento de proteger contra o HIV, mas em conseguir utilizá-lo conforme recomendado.
Tomar um comprimido todos os dias pode ser simples para algumas pessoas e difícil para outras. Esquecimentos, rotina, viagens, dificuldade de acesso aos serviços e até o estigma relacionado ao HIV podem interferir na continuidade da prevenção.
É justamente aí que os medicamentos de longa duração podem abrir uma nova possibilidade.
Os estudos considerados na avaliação da Conitec apontaram superioridade do cabotegravir em relação à PrEP oral com tenofovir e emtricitabina. No conjunto das pesquisas analisadas, houve redução adicional do risco de infecção pelo HIV entre 66% e 91%, dependendo da população estudada. Segundo o relatório, parte importante desse resultado pode ser explicada pela menor dependência da adesão diária, já que a formulação injetável mantém concentrações do medicamento por períodos prolongados.
Isso não significa que a PrEP oral deixará de existir ou que uma estratégia seja adequada para todas as pessoas. Ao contrário: a discussão sobre novas tecnologias de prevenção passa justamente pela possibilidade de oferecer diferentes opções para diferentes necessidades.
A própria área técnica esclareceu durante a avaliação da Conitec que o cabotegravir não chegaria para substituir a PrEP oral, mas poderia ser direcionado inicialmente às populações mais vulneráveis e às pessoas com dificuldades de acesso ou adesão à modalidade atualmente disponível.
Da AIDS 2026 à consulta pública
A discussão acontece poucos dias depois de o cabotegravir ganhar destaque durante a 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026), realizada entre 26 e 31 de julho, no Rio de Janeiro.
A ampliação das tecnologias de longa duração esteve entre os temas centrais da conferência. A própria International Aids Society (IAS) destacou cabotegravir e lenacapavir entre as opções de prevenção de longa ação que estão mudando o cenário científico da resposta ao HIV.
Foi durante a AIDS 2026 que o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, anunciou que o governo havia chegado a um acordo para aquisição do cabotegravir e que a proposta seria submetida à Conitec. Na ocasião, o Ministério da Saúde sinalizou a intenção de disponibilizar a tecnologia no SUS ainda em 2026, caso o processo de incorporação seja concluído favoravelmente.
A discussão brasileira também acontece em um momento em que a ciência avança rapidamente em direção a estratégias que exijam cada vez menos doses ao longo do ano. Além do cabotegravir, aplicado a cada dois meses, o lenacapavir — outra PrEP injetável de longa duração — permite aplicações semestrais e foi um dos grandes temas científicos e políticos da AIDS 2026.
Nesse cenário, a chegada de novas tecnologias não representa apenas uma disputa sobre qual medicamento oferece maior duração, mas uma mudança de paradigma: a prevenção do HIV caminha para um modelo no qual as pessoas possam escolher a estratégia mais adequada à própria vida.
Quem está incluído na proposta analisada pela Conitec?
Há uma diferença importante entre o registro do medicamento na Anvisa e o pedido específico de incorporação que está sendo analisado para o SUS.
A solicitação apresentada à Conitec pela GlaxoSmithKline Brasil contempla o cabotegravir como PrEP para homens que fazem sexo com homens (HSH) e mulheres trans entre 15 e 30 anos, com peso igual ou superior a 35 quilos, considerados grupos com maior vulnerabilidade à infecção pelo HIV.
O próprio relatório chama atenção, entretanto, para o fato de que o protocolo brasileiro de PrEP contempla uma população elegível mais ampla. A restrição da análise apresentada pelo demandante à faixa dos 15 aos 30 anos foi apontada como uma das limitações da avaliação.
Essa diferença torna a participação da sociedade civil na consulta pública ainda mais relevante, inclusive para o debate sobre quais pessoas poderão efetivamente ter acesso à tecnologia caso ela seja incorporada.
O impacto no orçamento do SUS está no centro da discussão
Apesar dos resultados favoráveis, um dos principais pontos considerados pela Conitec é o impacto financeiro que a incorporação do cabotegravir poderá representar para o Sistema Único de Saúde.
Na análise econômica, o medicamento foi considerado uma alternativa custo-efetiva em comparação à PrEP oral. A avaliação apontou uma razão de custo-efetividade incremental de aproximadamente R$ 20,7 mil, indicador utilizado para relacionar os custos adicionais da nova tecnologia aos benefícios adicionais obtidos em saúde. Esse valor, portanto, não corresponde ao preço do medicamento.
Já a análise de impacto orçamentário estimou quanto a incorporação poderá representar para os cofres públicos ao longo de cinco anos. Nos diferentes cenários de substituição gradual da PrEP oral pelo cabotegravir, o demandante calculou um impacto acumulado entre aproximadamente R$ 620,8 milhões e R$ 961,5 milhões. Em uma análise complementar, os pareceristas do Núcleo de Avaliação de Tecnologias em Saúde (NATS), utilizando valores atualizados da PrEP oral, estimaram impacto entre R$ 612,9 milhões e R$ 949,2 milhões no mesmo período.
Essas projeções não consideram apenas o custo do cabotegravir. Entram na conta também despesas relacionadas às aplicações das injeções, consultas, exames de acompanhamento, tratamento de eventuais efeitos adversos e custos associados a possíveis infecções pelo HIV e casos de resistência viral.
O impacto orçamentário foi um dos pontos de atenção durante a apreciação inicial da Conitec. Embora os integrantes tenham reconhecido os benefícios da PrEP injetável, especialmente para alcançar pessoas em maior vulnerabilidade ou com dificuldades de acesso e adesão à PrEP oral, o custo elevado levou à discussão sobre uma possível incorporação condicionada à redução de preços, aos resultados dos estudos de implementação e a futuras reavaliações diante da chegada de novas tecnologias.
Quem já usa conta o que muda
O relatório da Conitec também incorporou a perspectiva de uma pessoa que já utiliza a tecnologia.
Um homem gay de 32 anos, morador do Rio de Janeiro e participante de estudo clínico, relatou utilizar o cabotegravir injetável como PrEP desde janeiro de 2024. Segundo ele, não houve perda programada de aplicações nem eventos adversos relacionados ao medicamento durante o período relatado.
Ao falar sobre a experiência, ele apontou justamente a necessidade de tomar um medicamento todos os dias como uma das barreiras encontradas por algumas pessoas para utilizar a PrEP oral. Em sua avaliação, uma opção injetável pode aproximar da prevenção quem hoje tem resistência ou dificuldade para manter o uso contínuo de comprimidos.
E os efeitos adversos?
Como qualquer medicamento, o cabotegravir pode provocar efeitos adversos. Nos estudos avaliados pela Conitec, os mais frequentes foram reações no local da aplicação, como dor, sensibilidade e inchaço.
Essas reações ocorreram em aproximadamente 38% a 82% dos participantes, dependendo do estudo, mas foram majoritariamente leves ou moderadas, passageiras e raramente levaram à interrupção da medicação. Dor de cabeça, diarreia e discreto ganho de peso também foram observados. O perfil de eventos adversos graves foi considerado semelhante ao da PrEP oral.
Consulta pública pode ajudar a definir o futuro da PrEP no SUS
A recomendação favorável da Conitec ainda é inicial. Depois da consulta pública, as contribuições recebidas serão consideradas no processo que levará à recomendação final. Por isso, a consulta não deve ser vista apenas como uma etapa burocrática.
Para organizações que atuam na resposta ao HIV, pessoas que utilizam PrEP, profissionais de saúde, pesquisadores e populações diretamente afetadas pela epidemia, é uma oportunidade de participar de uma decisão que pode influenciar os próximos anos da política brasileira de prevenção.
A questão que está colocada vai além de decidir se o SUS terá mais um medicamento em sua lista. O que está em discussão é quanto vale ampliar as possibilidades de prevenção e alcançar pessoas que, por diferentes razões, ainda permanecem fora das estratégias disponíveis.
Quase quinze anos depois de a PrEP começar a transformar mundialmente a prevenção biomédica do HIV, a possibilidade de substituir a lembrança diária de um comprimido por uma aplicação a cada dois meses representa mais uma mudança importante.
E, se a recomendação final for favorável, o Brasil poderá acrescentar ao SUS não apenas uma nova PrEP, mas uma nova possibilidade de escolha para prevenir o HIV.
Redação da Agência de Notícias da Aids




