Conheça a história de João Hannuch e Fábio Pazzito, casal homoafetivo que aposta no amor para superar preconceitos e tabus

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Enquanto os debates sobre a criminalização da união homoafetiva no Brasil ganham força, João Hannuch e Fábio Pazzito compartilham sua história de amor, mostrando que famílias LGBTs existem e devem ser integralmente respeitadas.

João, virginiano com ascendente em escorpião, reside em São Paulo, trabalha com teatro e educação. Fábio, também atua no ramo artístico: é ator e trabalha com produções diversas no audiovisual.

O primeiro capítulo da história de amor deles teve início há quase uma década. Tudo começou em 2014, quando João e Fábio se conheceram em uma festa à fantasia de amigos em comum. O encontro inusitado e despretensioso marcou o início de uma jornada que transformaria suas vidas.

Após a festa à fantasia, João e Fábio contam que não se separaram mais. Inicialmente como amigos, com o tempo, eles começaram a sair e a desenvolver uma conexão mais profunda. 

Em 2014, durante uma viagem à Disney marcada de última hora, trocaram o primeiro “eu te amo”. No entanto, o casamento não estava nos planos naquela época. Para Fábio, casar não era uma prioridade. ‘‘Eu não queria casar, casar não era uma opção. Eu nunca fui muito romântico, sempre fui mais pragmático. Não tinha nada contra, mas para mim, não era um sonho almejado’’, afirma.

Fábio conta que seu ceticismo em relação ao matrimônio também era influenciado por experiências familiares. 

Já João diz que para si, o casamento era sim um sonho, mesmo que distante. ‘‘Eu sempre quis me casar, mas não achei que iria rolar. Não é que eu achava que nunca teria alguém, só acreditava que não aconteceria mesmo, mas fui vivendo…’’, destaca.

‘‘Eu e Fábio, a gente já vivia junto, praticamente estávamos casados. Por mim era ok permanecer assim, a gente já tinha união estável; a nossa vida foi seguindo e fomos dando espaço para outras coisas e prioridades’’, complementa.

A decisão de oficializar a união veio então quando o casal passou a morar junto no ano de 2018. Pouco tempo depois deste período, o mundo todo foi pego de surpresa com a pandemia de covid-19 [em 2020], que trouxe desafios à convivência. Eles contam que enfrentaram momentos difíceis no dia a dia no que se refere ao isolamento social, mas decidiram superar juntos os desafios; e a crise fortaleceu o relacionamento.

‘‘Passamos por muitas provações [na quarentena], mas tomamos a decisão de superar tudo e continuar juntos a nossa história’’, compartilha João.

O casal havia planejado uma segunda viagem à Disney, na Califórnia, mas o sonho do destino foi adiado devido ao pico da pandemia. As coisas começaram a flexibilizar e a viagem enfim foi se aproximando; Fábio tomou uma decisão importante: pedir seu companheiro em casamento. Segundo ele, sentia que aquele era o momento oportuno depois do momento desafiador que passaram.

O artista conta com mais detalhes de onde veio a motivação que era o momento de dar um passo a mais na relação: ‘‘Certo dia, eu estava voltando para casa pensando na pandemia e em tudo que tínhamos passado, daí me questionei como eu ainda não estava casado com o João; e a partir desse pensamento, cada vez mais que eu pensava nisso, me vinha um sentimento de angústia [por não estarmos casados]. Além disso, tudo que passamos juntos nos últimos quatro anos, fazia muito sentido tanto conceitualmente, quanto sentimentalmente a gente se casar; e foi então que decidi que ia pedir o João em casamento durante a nossa viagem para a Disney que estava marcada.”

O casamento

Fábio e João, ambos do mundo artístico, escolheram para seu casamento realizar a cerimônia em um teatro. A festa, com o tema anos 70, apenas para convidados íntimos, refletia a personalidade criativa e ousada do casal.

‘‘Como nós dois somos do teatro, queríamos casar justamente no teatro. Optamos por uma festa completamente fora dos padrões. Na festa, o código de vestimenta para os convidados era basicamente: todo mundo tinha que tentar superar e ofuscar os noivos”, dividiu Fábio. “E a galera se dedicou no figurino”, complementa João. 

Família e espiritualidade

Eles contam ainda que ter filhos não é uma ideia no momento. Embora suas famílias tenham raízes no catolicismo, a relação com a religiosidade é limitada, e apesar de alguns desafios, a relação com ambas as famílias, em geral, sempre foi tranquila. No entanto, João compartilha que seu falecido pai, inicialmente relutante, ainda em vida, aceitou o relacionamento do filho. 

Desafios na luta pela garantia dos direitos LGBTQIA+

O recente Projeto de Lei que busca criminalizar a união homoafetiva no Brasil trouxe preocupação e questionamentos para João e Fábio. Inicialmente céticos sobre a possibilidade de retrocessos em 2023, eles gradualmente perceberam a seriedade da ameaça e lamentam que a maioria dos avanços dos direitos LGBTQIA+ no Brasil tenha dependido de decisões judiciais, evidenciando a falta de progresso social.

Para João, apesar dos avanços, a luta deve abraçar todas as letras da sigla LGBTQIAPN+ e lembrar que as conquistas atuais são resultados de gerações passadas. 

“Eu penso que a sigla G conquistou muitos direitos ao longo dos anos, mas não devemos esquecer também das outras, principalmente da sigla T [pessoas trans e travestis] que está sendo muito atacada e usada como bode expiatório politicamente. Temos que lembrar que estamos juntos e que a nossa luta, inclusive, começou com as pessoas transexuais, por isso, é importante sempre lutarmos no coletivo”, afirma o professor.

O futuro

E continua: ‘‘eu acredito na melhora, mas também acredito que a luta é eterna. Enquanto professor, meus alunos LGBTs tem um lugar especial no meu coração, mas faço questão de mostrar para todos que existe uma história antes deles e que se estão aqui é porque muita gente lutou para que estivéssemos aqui. Se hoje eles com 12/13 anos estão se assumindo, namorando com outro menino outra menina ou se reconhecendo enquanto pessoas não binárias, tendo aceitação dos pais, é porque a minha geração e a geração anterior a minha lutou muito para que isso fosse possível; e essa geração atual vai ter que continuar essa luta. Não dá para acreditar também numa felicidade utópica.”

Educação e letramento contínuo

Nesse sentido, Fábio ressalta a importância de lutar constantemente por esses direitos, mesmo com a atual conjuntura político-social. Ele finalizou citando a teoria de Paulo Freire, que instiga o “esperançar” como uma ação contínua, e lembrou que ‘‘a utopia é fundamental para manter a jornada progressiva’’.

Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)

Dica de entrevista 

Fábio Pazitto

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João Hannuch

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