
Na zona leste de São Paulo, mulheres negras periféricas vivendo com HIV/aids e seus filhos podem contar com o apoio, acolhimento e cuidado da ONG Carla Libralino, fundada em 2017 pela ativista cristã, missionária, artista, palestrante, empreendedora e influenciadora digital que carrega o nome da instituição.

A ONG inicialmente nasceu com o objetivo de acolher idosos e mulheres vítimas de violência doméstica, trabalho este que foi exitoso, mas que com o passar do tempo precisou ser readequado. As atividades com estes grupos não foram encerradas, o projeto “Vivendo com HIV”, há pouco menos de dois anos, chegou para somar o quadro de projetos da instituição.
A ativista conta que as mudanças na instituição aconteceram depois que percebeu a necessidade que o Movimento Social de Luta contra a Aids tinha de ter uma figura cristã feminina falando sobre a pauta. “Eu vivo com HIV há 13 anos, descobri meu diagnóstico quando estava de viagem marcada, uma semana antes de me casar com um gringo. Eu tinha HIV e não sabia”, relembrou.
Depois que recebeu seu diagnóstico positivo, sofreu inúmeros estigmas e preconceitos, segundo Carla, muitas vezes auto direcionados. Os anos foram caminhando e a militante quando aceitou sua condição sorológica, entendeu que precisava ser uma multiplicadora de conhecimentos.
“Nunca encontrei alguém que fosse mulher, cristã, hétero, cis e HIV+ falando abertamente e com responsabilidade sobre HIV nas redes sociais e em outros espaços. Sempre vejo muitos influenciadores LGBTs falando sobre isso, o que é ótimo, mas entendo que falta ampliar o debate no meio evangélico”, argumentou.
A missionária comentou que se decepcionou muito com o sistema religioso. De acordo com ela, é comum ver nas igrejas discursos que associam o viver com HIV/aids à promiscuidade e até mesmo líderes religiosos se aproveitando da fé e ignorância de muitos fiéis.
“Já me disseram que eu estava curada e eu acreditei, parei de fazer o tratamento. A religiosidade fez com que eu desenvolvesse a aids e até depressão”, complementou.
Ela quis lutar contra todo este sistema e a partir dos seus incômodos e conflitos espirituais internos, começou então a desenvolver as atividades de combate a aids, através de sua organização, na Cidade Tiradentes.
Realidade do HIV entre pessoas pretas
A atual missão da ONG vai de encontro a realidade epidemiológica da cidade. O mais recente boletim aponta queda nos casos de HIV, no entanto, a taxa de detecção do vírus quando analisada por raça/cor autorreferida, é maior entre as pessoas pretas desde 2010, tanto no sexo masculino como no feminino.
Em 2021, a cidade registrou 16,5 casos de HIV entre as pessoas brancas, entre as pessoas pretas foi de 55,6; entre as pessoas pardas, por sua vez, a taxa foi de 32,6. A diferença mantém-se quando há o recorte de sexo. Em 2016, a taxa de detecção entre homens pretos era 1,7 vezes maior do que entre homens brancos. Em 2021, essa diferença aumentou para mais de três vezes quando feita a mesma relação.
Entre as mulheres pretas, a disparidade é ainda maior quando comparada à raça/cor branca. Em 2021, a TD foi de 9,7 entre pessoas autorreferidas como brancas, 18,5 entre pardas e 27,2 entre pretas.

O time da ONG Carla Libralino já atendeu mais de 1 mil pessoas, conta com 10 voluntários, além de parceiros externos – profissionais e estagiários de psicologia, que esporadicamente prestam apoio em saúde mental aos beneficiários por meio de palestras temáticas, grupos de apoio, rodas de conversa, entre outros. Carla garante que a equipe é altamente preparada para atender ao público, de acordo com cada faixa-etária, de forma didática e humanizada.
Para além, a ONG possui também um grupo de whatsapp colaborativo que dispara rotineiramente informações corretas sobre HIV/aids e lá, dúvidas também podem ser esclarecidas. Para Carla Libralino, esta é uma forma de, além de combater a desinformação, também fortalecer vínculos.
Trajetória social
Apesar de Carla Libralino atualmente estar articulando todas estas ações, a fundadora da ONG compartilhou que desde muito antes, já era engajada em diferentes causas sociais e que ao longo de toda a sua vida se dedicou fortemente ao voluntariado, mas segundo ela, faltava dar maior direcionamento ao seu propósito. “Sempre quis deixar um legado, sempre trabalhei ajudando pessoas sem fins religiosos, lucrativos ou políticos, pois a minha única bandeira é lutar contra os preconceitos, mas se alguém chegasse em mim e perguntasse sobre o meu trabalho e eu respondesse que fazia de tudo, isso não iria passar credibilidade”.
“Eu orei por muito tempo para que o Espírito Santo me direcionasse sobre a real missão da ONG e hoje eu incentivo por meio da minha fé em Deus e ativismo que as pessoas façam o tratamento devidamente. Falo que Deus pode sim curar, mas é preciso tomar os medicamentos, fazer sua parte, pois Deus capacitou os médicos”, falou a ativista.
“Eu fui abandonada pela minha mãe aos dois anos de idade, perdi o meu pai com cinco, já fui abusada, já sofri violência doméstica, sofri e sofro racismo por ser negra, sofri e sofro discriminação por viver com HIV, já fui adicta, fui traída, enfrentei um câncer… Passei por muitas coisas, que me fizerem entender o quanto a inclusão social é importante para as pessoas”, concluiu.
A ONG segue em pleno funcionamento, está aberta a parcerias e conta com doações de alimentos, vestuário, entre outros. Quem quiser doar, basta entrar em contato através do contato: (11) 99913-2801
Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
Endereço: Rua José Francisco Brandão, 514 – Cidade Tiradentes
Telefone: (11) 99913-2801
Instagram: @vivendocomhiv.aids
Facebook: facebook.com/associacaocarlalibralinodasilva
Email: associacao.carlalibralino@gmail.com


