
A amazonense Irlane Costa, mulher indígena vivendo com HIV, irmã, mãe e avó, também é uma ativista corajosa que aposta na solidariedade e acolhimento para empoderar outras mulheres HIV positivas. Irlane tem se destacando na sua região como uma voz ativa pelos direitos das mulheres, especialmente das mulheres vivendo com HIV/aids, em Manaus.
Ela nasceu e cresceu na região norte do país e guarda ótimas memórias de sua infância. Irlane conta que sua família sempre a nutriu com boa educação, afeto e amor incondicional.
Neta e filha de mãe índigena, tem doze irmãos, sendo cinco mulheres e sete homens. Segundo ela, a parceria de irmandade, união e companheirismo sempre prevaleceu ao longo da vida, foi e ainda é regada de afeto. Irlane destacou que seus pais fomentaram nos filhos um espírito de cumplicidade desde cedo. “Quando um adoece, aciona todo mundo!”
“Minha mãe e meu pai passaram isso pra gente e temos levado isso para os nossos filhos, nossos netos…”
“O meu pai trabalhava muito e tudo [que conquistava] era repartido igualmente entre todos os filhos, quando um sentava para comer, sentavam todos […] isso é algo que levo para vida toda.”
Esse amor familiar não faltou quando Irlane descobriu o diagnóstico de HIV, anos atrás.
“Quando soube que estava com HIV não tinha noção do que significava isso. No momento, estava eu e minha irmã mais nova, ela chorava muito, mas permaneci calma […] com essa doença aprendi muito a ter inteligência emocional”, falou.
O diagnóstico
Segundo Irlane, o HIV não foi capaz de paralisar ou interromper seus sonhos de futuro, mesmo com os receios e incertezas iniciais do baque do diagnóstico, deu início ao seu tratamento assim que soube que vivia com o vírus da aids; e logo descobriu o Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas, passando a integrar o movimento, inicialmente como ouvinte e posteriormente como colaboradora, ao passo que foi se aprofundando na pauta. Hoje é suplente e secretária, de lá para cá, já são 11 anos de militância.
Movimento de mulheres

O MNCP é um movimento social que desde os anos 90 luta em prol das mulheres brasileiras vivendo com HIV/aids, trabalhando na articulação de políticas públicas e incidência política para esta população. O movimento conta com representação nas diferentes regiões do Brasil.
A cidadã positiva adquiriu letramento em HIV/aids, participando das atividades promovidas e assim aprendeu a lidar com o próprio diagnóstico, exercitando a autocompaixão, como também a empatia para com outras meninas e mulheres, sobretudo aquelas mais carentes.
O trabalho feito junto à população de mulheres se concentra em articulação de ações educativas para disseminação de informações corretas sobre HIV/aids, entrega de preservativos [internos e externos], distribuição de água potável para quem precisa, dentre outras atividades.
Segundo a mobilizadora social, uma dificuldade é aprender a lidar com as complexidades da recepção em cada localidade e com as diferentes pessoas. “Em muitos lugares somos bem recebidas, já em outros não […].”
A ativista observa que algumas pessoas recebem tranquilamente [os insumos], outras recusam ou reagem com hostilidade; entretanto, afirma que com paciência e resiliência é possível superar os desafios diários.
De acordo com a militante, a empatia e o trabalho árduo têm que ser o fio-norteador na batalha diária contra o estigma e preconceito relacionado ao HIV/aids; este é um grande desafio, que apesar de complexo é o que desempenha um papel vital na garantia de uma vida com mais qualidade. “Trabalhar com o ser humano não é fácil, é desafiador, mas vale a pena!”.
Sobretudo no Brasil profundo, para ela, o ativismo torna-se ainda mais desafiador.
Epidemia de aids no Amazonas
De acordo com dados do Ministério da Saúde, em 2021, o Amazonas registrou 1.547 casos de HIV; o maior número de diagnósticos da infecção foi em 2018 quando o estado identificou 1.708 casos.
Em toda a região Norte os maiores registros foram apresentados em 2021, com 5.494 novas ocorrências. Ainda em relação ao HIV, de 2007 até junho de 2022, em todo o Brasil, foram notificados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) 434.803 casos, sendo diagnosticados 40.880 novos casos em 2021.
Embora se observe uma diminuição de casos nos últimos anos, o Ministério da Saúde ressalta que parte dessa redução pode estar relacionada à subnotificação, principalmente no ano de 2020, devido à pandemia de Covid-19.
A cura
Entusiasta dos direitos humanitários, seu maior sonho é a cura do HIV para todos. “Os remédios estão mantendo e são para a vida inteira, mas se a gente tiver a cura, não vamos precisar lidar com problemas que prejudicam nosso fígado, estômago […] porque para além do HIV, existem outras questões que interferem na nossa vida; e nós mulheres somos quem mais sofremos [os impactos] disso.”
Uma militância inclusiva, plural e representativa da mulher brasileira na defesa dos direitos humanos, trazendo à tona as complexas interseções entre a saúde, a cultura e o ambiente na vida, especialmente das comunidades ribeirinhas, têm marcado os dias da ativista.
Para Irlane, é a coletividade e a solidariedade que fazem a força e transformam histórias de dores em histórias de superação e protagonismo.
Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
Irlane Costa
E-mail: irlanecosta806@gmail.com



