Congresso de Infectologia traz novos dados sobre HIV e hepatites virais que podem mudar protocolos de prevenção e cuidado

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O XXIV Congresso Brasileiro de Infectologia está reunindo, nesta semana, especialistas do Brasil e do exterior para discutir os principais avanços da área. Mais do que um encontro científico, o evento se consolida como espaço estratégico para repensar políticas públicas e inovar no enfrentamento das doenças infecciosas.

Entre conferências e mesas redondas, os pôsteres científicos chamam atenção pela capacidade de traduzir evidências recentes em práticas que podem impactar diretamente o atendimento da população. Três trabalhos apresentados em Florianópolis trazem informações sobre retenção no cuidado de pessoas vivendo com HIV/aids e prevenção de hepatites virais em usuários de PrEP (profilaxia pré-exposição ao HIV).

Cinco anos de seguimento revelam desafios na retenção de pessoas com HIV

Um dos estudos foi apresentado pela pesquisadora Simone Queiroz Rocha e equipe do Centro de Referência e Treinamento DST/Aids de São Paulo, em parceria com a Faculdade de Medicina da USP e a Aids Healthcare Foundation (AHF).

A pesquisa acompanhou 244 pessoas recém-diagnosticadas com HIV em 2019, analisando indicadores de vinculação ao serviço, retenção em acompanhamento e supressão viral ao longo de cinco anos.

Os números impressionam:

95,1% se vincularam ao serviço após o diagnóstico;

Após cinco anos, 75,9% permaneciam ativas no acompanhamento;

78,2% atingiram supressão viral sustentada, considerada o principal marcador de sucesso do tratamento.

No entanto, o estudo também mostra onde estão os pontos críticos: 27,7% apresentaram ao menos um episódio de não retenção, com maior risco entre pessoas com baixa escolaridade e uso problemático de álcool.

Segundo os pesquisadores, a retenção é um fenômeno complexo que deve ser abordado sob uma perspectiva multiprofissional. Eles defendem que é preciso desenvolver estratégias que incluam acolhimento, apoio social e intervenções para redução de vulnerabilidades.

Esses dados dialogam com o Plano Nacional de Enfrentamento do HIV/aids, que tem como meta alcançar 95% de retenção e supressão viral até 2030. Os autores defendem busca ativa de faltosos, acompanhamento psicológico e ações de prevenção combinada como ferramentas-chave para melhorar esse indicador.

Hepatite B e C: oportunidades de vacinação em usuários de PrEP

Outro pôster em destaque é de autoria da dra. Ana Caroline Coutinho Iglessias, dr. José Valdez Ramalho Madruga, dr. Mateus Ettori Cardoso e equipe do CRT DST/Aids e da Unifesp. O estudo analisou 502 prescrições de PrEP entre agosto de 2022 e agosto de 2024, oferecendo um retrato atualizado da situação sorológica dessa população em relação às hepatites B e C.

Os resultados mostram que 60,5% apresentavam anticorpos contra hepatite B, indicando imunização prévia ou infecção passada, mas quase 40% continuavam suscetíveis, o que representa um risco para transmissão em populações com alta prevalência de ISTs. Para hepatite C, a soroprevalência foi de apenas 1%, com apenas um caso de infecção ativa identificado.

Para os autores do estudo, é fundamental revisar periodicamente o status vacinal contra o VHB, especialmente em pessoas trans e indivíduos acima de 40 anos, que apresentaram menor cobertura vacinal.

A pesquisa ainda reforça que o seguimento de usuários de PrEP é uma oportunidade única para ampliar o acesso à vacinação contra hepatite B, algo que pode ter impacto direto na prevenção de novas infecções e reduzir custos para o sistema de saúde no longo prazo.

Hepatite A: alerta para jovens HSH e baixa adesão à vacinação

O infectologista Mateus Ettori Cardoso e colegas apresentaram um trabalho sobre a prevalência de anticorpos contra hepatite A em usuários de PrEP. O levantamento mostrou que 48% eram suscetíveis ao vírus e, embora 78% tenham sido encaminhados para vacinação, apenas 9% receberam ao menos uma dose.

Essa lacuna preocupa os especialistas, já que surtos de hepatite A têm sido descritos em homens que fazem sexo com homens (HSH) em várias partes do mundo.

“O seguimento em PrEP é uma janela de oportunidade para melhorar a cobertura vacinal”, explica dr. Mateus. “Com a Nota Técnica 184/2025 do Ministério da Saúde, que garante vacina para usuários de PrEP via SUS, esperamos um impacto positivo na redução de novos casos.”

Os três pôsteres convergem em um ponto crucial: o cuidado em HIV e hepatites vai muito além da prescrição de medicamentos. Ele exige uma abordagem integrada, que considere fatores sociais, educacionais e comportamentais.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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