
O Brasil bateu recorde no número de estupros registrados em um ano; foram 74.930 casos registrados em 2022, com um aumento de quase 9% em comparação com o ano anterior. Os dados são do mais recente relatório do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho deste ano. Dada a emergência do tema, o XVI Congresso da Sociedade Brasileira de DST, contou com uma mesa dedicada a discutir as particularidades do atendimento ambulatorial às vítimas de violência sexual.
“Um dos nossos maiores desafios [enquanto sociedade] é que a gente paute esta temática nos meios públicos”, a fala é da médica Vanessa Borges, especialista em atendimento a crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. Ela participou das discussões na manha desta sexta-feira (6) e alertou sobre a invisibilidade do crime, que acomete milhares de menores, todos os anos, destacando ser fundamental superar o desconforto e trazer luz à essa questão. “A violência sexual não discrimina por raça/cor, classe social…”, disse, completando que existem grupos sociais mais vulneráveis, como as crianças e adolescentes.
Este crime que, segundo a especialista, atinge todas as camadas da sociedade e ainda reside na invisibilidade, escancara um problema sério de violação de direitos no Brasil. A doutora defendeu a notificação compulsória dos casos. “Como os dados, conseguimos tirar essa violência da invisibilidade”, afirmou.
Ela também defendeu maior capacitação profissional, de modo que os profissionais de saúde sejam treinados desde a graduação para abordar a questão com empatia e profissionalismo. “Precisamos ter uma conduta séria, sem juízo de valor. Precisamos transcender o 18 de maio [Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes] e o conteúdo tem que chegar na ponta”, complementou.
Durante a palestra, a dra. Vanessa Borges trouxe à tona ainda uma observação sobre a dinâmica da violência sexual. A especialista enfatizou que muitas vezes o abusador possui um conhecimento aprofundado sobre como cometer o abuso, enquanto a vítima, em especial as crianças e adolescentes, pode não ser capaz de identificar ou entender completamente o que está acontecendo. Ao explicar o gap que existe entre o ato de violência sexual e a revelação por parte da vítima, a médica afirmou: “caricia não deixa marca, e quem abusa, sabe como abusar!”
Ela acrescentou que, frequentemente leva um tempo considerável para que, sobretudo, as crianças compreendam a gravidade do que aconteceu e encontrem a coragem para revelar o abuso. Ao seu ver, essa questão sublinha mais uma vez a complexidade da situação e a importância de um acompanhamento sensível e atencioso por parte dos profissionais de saúde e da sociedade em geral para apoiar as vítimas nesse processo de revelação e recuperação. Além disso, reforçou a urgência de formulação de políticas públicas eficazes.
Antes de finalizar sua apresentação, dra. Vanessa mencionou que “a saúde muitas vezes é usada como meio de produção de provas [criminais]”, frisando a complexidade dessa dinâmica.
“Muitos profissionais têm medo de sofrer retaliação, mas é importante saber que [o boletim de ocorrência] não é registrado em nome do médico, mas sim do hospital”, esclareceu.
A infectologista Magali Chaves, em concordância, pontuou que saúde, justiça e demais áreas precisam se mobilizar conjuntamente para aprimorar os cuidados ofertados nos espaços de promoção à saúde, de forma integral. “A informação [a respeito de como atuar clinicamente] evita a revitimização!”, afirmou.
Dra. Magali chamou atenção para o fato de que nem sempre o primeiro serviço que o indivíduo vai recorrer é o serviço especializado, “pode ser a emergência, a polícia…”
“É imprescindível garantir sigilo e discrição. Não somos policiais, somos profissionais de saúde”, argumentou.
Para além, informou que recentemente o Ministério da Saúde incluiu as vítimas de violência sexual nos grupos prioritários a receber a vacina contra o HPV. Em seguida, reforçou que, apesar de não ser obrigatório registrar boletim de ocorrência, é essencial.
A médica infectologista Elucir Gir acrescentou que o acolhimento humanizado possibilita “criarmos ambientes que permitam que as vítimas se sintam ouvidas e apoiadas, especialmente quando estão emocionalmente abaladas após o evento traumático”.
A profissional fechou enfatizando que muitas vezes as vítimas podem não estar prontas para compartilhar detalhes do incidente, por isso, segundo ela, “é crucial que os profissionais de saúde adotem uma abordagem sensível, empática e paciente, pois essa postura permite que a vítima se sinta segura”.
Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)
A equipe da Agência Aids está em Florianópolis e cobre os Congressos com o apoio do Departamento de HIV/ Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e ISTs, do Ministério da Saúde
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XIV Congresso da SBDST, X Congresso Brasileiro de Aids e V Congresso Latino Americano de IST/HIV/Aids
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