Antibiótico doxiciclina tem sido usado pós-sexo para prevenir ISTs bacterianas, como clamídia, gonorreia e sífilis

Dados da OMS (Organização Mundial de Saúde) revelam que anualmente são registrados globalmente em torno de 374 milhões de novas ISTs curáveis. Como as taxas de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) continuam crescendo no mundo, inclusive no Brasil, cada vez mais médicos estão prescrevendo um antibiótico para prevenir infecções por clamídia, gonorreia e sífilis em homens que fazem sexo com homens e mulheres transsexuais.
O antibiótico prescrito nesta profilaxia é a doxiciclina, que faz parte de uma classe de medicamentos tradicionalmente usados para tratar ISTs bacterianas depois que alguém foi infectado. No entanto, pesquisas recentes sugerem que uma dose de 200 mg do remédio pode ser eficaz na prevenção destas infecções, se tomada até 72 horas após o sexo desprotegido. O assunto foi destaque na tarde desta quinta-feira (5), no XIV Congresso da Sociedade Brasileira de DST, X Congresso Brasileiro de Aids e V Congresso Latino Americano de IST/HIV/Aids, que acontece em Florianópolis.
Sobrou para o infectologista Rico Vasconcelos, da Faculdade de Medicina da USP, responder se ‘já podemos prescrever doxyPEP’ para prevenção de ISTs bacterianas. Segundo o especialista, as pesquisas tem demonstrado que sim. “Não restam mais dúvidas de que a doxyPEP é um método potente e eficaz de prevenção contra ISTs bacterianas. Não temos mais que descobrir se o método funciona, mas para quem devemos indicar.”
Rico começou a palestra lembrando que dentro da abordagem da prevenção combinada, havia disponível para a prevenção das ISTs bacterianas apenas o uso do preservativo nas relações sexuais e a rotina de rastreamento e tratamento dessas ISTs, quando diagnosticadas.
Mas desde 2017, pesquisadores começaram a investigar se a tomada de comprimidos de doxiciclina poderia também ser uma forma de prevenção de ISTs bacterianas, assim como a PrEP com antirretrovirais é para o HIV.
O infectologista apresentou dados de três estudos científicos cujos resultados foram divulgados nos últimos anos e que testaram a doxiciclina em populações altamente vulneráveis a ISTs bacterianas.
A medicação foi usada como Profilaxia Pós-Exposição, com a tomada de 2 comprimidos do antibiótico até 72 horas depois das relações sexuais, mas idealmente dentro das primeiras 24 horas. O primeiro estudo é o Ipergay, que foi realizado na França. “O grupo de participantes que tomou a doxyPEP teve 73% menos casos de sífilis e 70% menos casos de clamídia”, destacou.
Já na pesquisa conduzida por uma equipe dos EUA, segundo o dr. Rico, o uso da doxiciclina esteve associado a uma redução ainda maior nos casos de clamídia (88%) e sífilis (87%), e também à redução de 55% nos casos de gonorreia.
DoxyPEP em mulheres cis
No estudo que envolveu mais de 400 mulheres cis no Quênia, onde elas foram separadas em dois grupos: um grupo recebeu doxyPEP para tomar depois de fazer sexo, e o outro grupo não, os pesquisadores descobriram que não havia muita diferença na incidência de ISTs bacterianas entre os dois grupos.
“Foi uma decepção ver que a PEP de doxiciclina não era protetora para mulheres cisgênero. Porém, com a coleta dos fios de cabelo destas mulheres, os pesquisadores descobriram posteriormente que apesar de existir o relato do uso da medicação, não foi encontrado a substância no corpo delas. Ou seja, muito provavelmente elas não aderiram a medicação”, disse.
O médico considera que são necessários estudos adicionais entre mulheres cisgênero, homens transgênero e pessoas não binárias com vaginas para fornecer dados adicionais sobre o potencial da doxyPEP como uma ferramenta preventiva eficaz, independentemente do sexo e gênero.
“Estarmos prontos para incorporar novas tecnologias é tão importante quanto saber utilizá-las da melhor forma possível conforme forem surgindo.”
Como a doxiciclina é um antibiótico, a doxyPEP não previne infecções virais sexualmente transmissíveis, como monkeypox, herpes ou HIV.
“Sabemos que a doxyPEP é eficaz na prevençao de ISTs bacterianas em homens que fazem sexo com homens vivendo com HIV ou em uso de PrEP. Agora precisamos saber se mais pessoas usarem doxyPEP por mais tempo, poderia ocorrer a seleção de resistência bacteriana.”
O Brasil
No Brasil, ainda não há um consenso sobre o uso da medicação para a prevenção de ISTs bacterianas, mas a vice-secretária de Vigilância em Saúde, Angélica Espinosa, presente no debate, garantiu que os especialistas serão chamados para uma conversa sobre o tema.
Dr. Rico finalizou dizendo que já há novos estudos em desenvolvimento para responder lacunas de conhecimento. “Essa abordagem vem chamando tanta atenção que os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA abriu recentemente uma consulta pública sobre a recomendação do uso de doxyPEP.”
Redação da Agência de Notícias da Aids
A equipe da Agência Aids está em Florianópolis e cobre os Congressos com o apoio do Departamento de HIV/ Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e ISTs, do Ministério da Saúde
Dica de entrevista
Dr. Rico Vasconcelos
Instagram: @ricovasconcelos



