Congresso de DST: Especialistas alertam que o Brasil enfrenta obstáculos para eliminar a aids como problema de saúde pública, com a fome e preconceito emergindo como desafios

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Prevenção, inovação, humanização, acesso à informação, políticas públicas de enfrentamento às desigualdades sociais, ao preconceito e ao estigma… tudo isso e muito mais foram pontos-chaves de discussão na mesa redonda que contou com os infectologistas dr. Ricardo Vasconcelos e dra. Beatriz Grinsztejn, durante o XIV Congresso de DST, X Congresso Brasileiro de Aids e V Congresso Latino Americano de IST/HIV/Aids, em Florianópolis.

‘‘O melhor método de prevenção é aquele que a pessoa usa, de maneira correta e constante’’, afirmou o infectologista Rico Vasconcelos, da Faculdade de Medicina da USP.

O especialista, ao longo de sua apresentação, lançou luz sobre uma série de preocupações e tendências alarmantes relacionadas à disseminação do HIV no Brasil, destacando a necessidade de adaptação na abordagem de prevenção.

Um dos insights trazidos por ele foi a percepção de que, dependendo da população analisada, o velocímetro da infecção está se comportando de maneira assustadora, seja desacelerando ou acelerando. Ele mencionou que, em todas as regiões do Brasil, há um aumento notável da infecção pelo HIV entre os homens, principalmente os jovens.

Os dados revelam uma tendência alarmante de infecção pelo HIV entre homens jovens. Em contrapartida, ‘‘entre as mulheres, de todas as faixas etárias, o ponteiro está desacelerando sozinho com o passar do tempo’’, informou.

Segundo o médico, a situação torna-se ainda mais preocupante quando se observa que a comunidade gay é a mais afetada. Em 2021, novos casos de infecção pelo HIV em homens com idades entre 13 e 19 anos representaram uma impressionante parcela de 80% do total de novos casos. ‘‘Embora a prevalência geral de infecção pelo HIV na população brasileira seja baixa, 0,4%, ela permanece elevada entre homens gays e bissexuais’’.

Isso é exacerbado, segundo ele, pelo fato de que a população gay no Brasil é relativamente pequena. ‘‘[É natural] que quando há uma alta incidência de casos em uma população pequena, a prevalência dispara’’. 

O palestrante compartilhou a seguinte estatística: em 2016, a média de prevalência de infecção pelo HIV entre homens gays [de acordo com pesquisa que analisou 12 capitais brasileiras] já era alarmante, correspondendo a 18,4%. Somente em São Paulo, registrou-se uma taxa ainda mais preocupante, de 25%. ‘‘Essa é uma prevalência africana’’, pontuou.

Ao comparar os dados com o cenário epidemiológico que se apresenta em diferentes países do continente africano, o infectologista assegurou que é imperativo entender que a prevenção não pode seguir uma abordagem única, dada a heterogeneidade da epidemia de HIV/aids, sobretudo em território brasileiro, país de tamanho continental.

O médico considera importante adaptar a prevenção a diferentes realidades individuais. Ele mencionou diversas opções, incluindo o uso da famosa camisinha [interna ou externa], PrEP (Profilaxia Pré-Exposição), gel lubrificante, vacinações e o conceito “I=I” (Indetectável=Intransmissível). Este conceito comprova que uma pessoa infectada pelo HIV, com tratamento feito de forma correta e constante, consegue reduzir os níveis do vírus em seu corpo a cargas tão baixas, que o mesmo vírus torna-se intransmissível, até mesmo em relações sexuais desprotegidas. Por isso, ele destacou que ‘‘tratar todas as pessoas vivendo com HIV/aids também é uma forma eficaz de prevenção’’.

Equidade de acesso

No entanto, dr. Rico apontou que o acesso a PrEP é atualmente mais fácil para homens brancos e gays, deixando uma parcela significativa da população, frequentemente composta por pessoas pobres, negras e com baixa escolaridade, sem atendimento adequado.

‘‘Não estou dizendo que estas pessoas não devem ter [acesso a prevenção e a tratamento adequado], o que eu estou dizendo é que existe um oceano de outras pessoas que também precisam’’, argumentou.

Comunicação assertiva em HIV/aids

Dr. Vasconcelos finalizou enfatizando a necessidade de uma comunicação sobre o HIV/aids séria, correta, didática e humanizada, visando o acesso da população brasileira ao direito constitucional à informação, à saúde e ao bem-estar integral. 

A mesa de debate também foi composta pela infectologista brasileira e pesquisadora da Fiocruz, dra. Beatriz Grinsztejn, que participou remotamente.

A pesquisadora começou sua contribuição reforçando que estamos muito longe de alcançar as metas do HIV até 2030.

‘‘Muito trabalho precisa ser feito, além de que a gente precisa identificar mais precocemente os casos de HIV/aids, trabalhar para que essas infecções diminuam, e para que as pessoas já identificadas [com HIV] sejam vinculadas aos serviços, ao tratamento [antirretroviral] e se mantenham indetectáveis. Uma ação só não vai resolver a nossa epidemia!’’, afirmou.

Próximos passos na prevenção

Pensando a epidemia no panorama brasileiro, no âmbito da prevenção, a especialista destacou: ‘‘somos um país enorme, com mais de 1 milhão de pessoas vivendo com HIV/aids, e mais de 750 mil utilizando terapia antirretroviral. Entretanto, tudo isso precisa ser contextualizado com o fato de que somos o nono país mais desigual do planeta’’.

‘‘Então, para avançar nessa situação, a gente precisa entender como vamos avançar com a resolução dos determinantes sociais em saúde’’, afirmou.

‘‘Nossa epidemia acomete populações mais vulneráveis; [percebe-se isso] ao olharmos as prevalências que acometem mulheres trans e HSHs (homens que fazem sexo com homens), se comparadas com a população geral’’, acrescentou ao citar que que estamos em um momento crucial de se intensificar a oferta de PrEP (profilaxia pré-exposição ao HIV).

‘‘Nós usamos antirretrovirais para prevenir [o vírus], e no futuro, possivelmente, vamos utilizar anticorpos neutralizantes em vacinas para [também] intervir antes que as pessoas adquiram a infecção pelo HIV’’, comentou.

Impactos, avanços e novas demandas da PrEP

Em uma representação esquemática dos principais estudos que demonstram os impactos da PrEP, foi mostrado importantes resultados que já surtiram efeitos  desde que essa profilaxia foi implementada como política de saúde pública no Brasil.

Dra. Beatriz aproveitou a oportunidade para alertar que ainda hoje muitas pessoas quando chegam aos serviços em busca da PrEP, já chegam com algum diagnóstico de IST. 

‘‘Existe um gap entre o conhecimento e a tradução do conhecimento científico’’, mencionou a infectologista.

O futuro da aids

Em seguida, ao falar sobre objetivos futuros, contou que é objetivo continuar a trabalhar em pesquisas que geram evidências e que sirvam de base para informar tanto a população civil, como gestores de programas e as políticas nacionais acerca da otimização do uso do Cabotegravir de longa ação para os grupos sociais citados; concomitantemente a isto, avaliar facilitadores e barreiras para integração dessa droga em serviços de saúde pública.

Fome no Brasil

‘‘As questões das desigualdades sociais afetam diretamente o uso tanto da PrEP quanto do tratamento. A gente sabe que com fome, o uso de comprimidos não é a principal preocupação da vida do indivíduo [em situação de insegurança e/ou fome]. Que a gente entenda que no nosso país temos essa maravilha que é o SUS, e que temos a possibilidade de implementar estratégias de prevenção dentro do Sistema Único de Saúde, sem custo para o indivíduo que irá utilizar’’, finalizou.

Kéren Morais (kéren@agenciaaids.com.br)

A equipe da Agência Aids cobriu os Congressos com o apoio do Departamento de HIV/ Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e ISTs, do Ministério da Saúde

Dica de entrevista

XIV Congresso da SBDST, X Congresso Brasileiro de Aids e V Congresso Latino Americano de IST/HIV/Aids

Tel.: (41) 3022-1247

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