
Em São Paulo, dois homens vivendo com HIV – um de 24 anos e outro de 49 – conseguiram controlar espontaneamente o vírus após a interrupção do uso de medicamentos antirretrovirais. Eles integravam um grupo de cinco pessoas que receberam um tratamento experimental concebido pela equipe do virologista Ricardo Sobhie Diaz, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O assunto foi destaque no XIV Congresso Brasileiro de DST, X Congresso de Aids e V Congresso Latino Americano de IST/HIV/Aids, em Florianópolis. Na Conferência sobre Cura do HIV, dr. Ricardo garantiu que o melhor caminho para a cura é combinar estratégias.
Perspicaz e inovadora, a terapia foi avaliada em um ensaio clínico inicial, concluído em meados de 2020. “O nosso principal objetivo na pesquisa foi aproximar as pessoas da cura, e eventualmente conseguir aquilo que hoje em dia tem nome, que chama a remissão sustentada do HIV sem antirretrovirais”, diz o médico.
A remissão é quando os médicos retiram os medicamentos do paciente e ele consegue sozinho controlar o vírus, a partir das defesas do próprio corpo. E isso pode acontecer por dois motivos: ou há uma quantidade tão pequena do vírus HIV no corpo que ele perde a função ou porque o corpo tenha realmente eliminado todos os vírus.
Barreiras contra o HIV
Na Conferência, dr. Ricardo contou que existem três barreiras para eliminar o vírus de uma forma definitiva do corpo. “A primeira delas é que o tratamento que a gente tem hoje em dia não diminui o vírus em 100%. A segunda barreira a gente chama de latência, e é uma palavra que significa que o vírus fica dormindo dentro da casinha dele, que é a célula, e dessa forma, os medicamentos não funcionam. Outra barreira a gente chama de santuário. Santuário é local do nosso corpo onde o vírus vive, e o medicamento não chega direito. Por exemplo, o cérebro, testículo, ovário e os órgãos sexuais também e algumas partes do intestino mais profundo.””
O pesquisador acredita que o melhor caminho para a cura do HIV é combinar estratégias farmacológicas. “Na hora que a gente combina estratégias para diminuir a multiplicação do vírus com os tratamentos que a gente tem hoje em dia, tirar o vírus da latência ou matar essas células latentes, acordando o vírus, o remédio funciona. Na hora que a gente associou tudo isso, a gente conseguiu uma resposta melhor em termos de diminuição da quantidade de células que tem vírus no corpo da pessoa e isso aí foi um resultado inédito”, explicou.

Sobre os dois pacientes, o médico disse que na época os pesquisadores começaram a ter algumas evidências que o vírus poderia estar lá ainda. “Quando surgiram os primeiros sinais de que o vírus poderia voltar a se reproduzir no organismo deles, possivelmente porque alguns reservatórios virais tenham restado intactos, retomamos preventivamente o uso do coquetel antirretroviral”, contou. “Alguns pesquisadores acharam que poderíamos ter aguardado mais tempo para verificar se o vírus realmente voltaria a se reproduzir. Decidimos não arriscar.”
Ainda distante de se tornar disponível para uso clínico, essa estratégia terapêutica tem dois objetivos: reduzir a quantidade de HIV no organismo ao menor nível possível e ensinar as células do sistema de defesa a encontrar os vírus remanescentes, em geral ocultos em esconderijos, e destruí-los.
“Sabíamos que intervenções únicas não produziam bons resultados e decidimos somar as que mostravam maior potencial de reduzir os santuários virais.”
Outras estratégias foram usadas na tentativa de vencer o HIV. Uma delas foi incluir no tratamento doses de nicotinamida, a vitamina B3. Para forçar a eliminação dos reservatórios, os pesquisadores acrescentaram ainda doses de auranofina, um sal contendo ouro. “A auranofina elimina os linfócitos de memória”, relatou o virologista.
A estratégia final para tentar driblar os reservatórios também foi o mais sofisticado. Envolveu o desenvolvimento de uma vacina terapêutica individualizada, elaborada a partir de células de defesa saudáveis do próprio paciente.
“As estratégias funcionam. Agora é preciso ajustá-la para tentar aumentar o tempo de remissão. Será uma batalha para obter o máximo de efetividade com a menor toxicidade possível”, completou o pesquisador.
Hoje, oito pessoas no mundo são consideradas curadas do HIV. Em duas delas, não há dedo da ciência. Ambas são mulheres e vivenciaram esse feito sem uso de medicamentos ou transplante de medula. As outras seis integram o grupo de indivíduos que foram submetidos a estratégias científicas exitosas, que garantiram a cura dos envolvidos e seguem impulsionando os estudos rumo à ampliação desses resultados. Um desses seis casos é o paciente de São Paulo, que participou do estudo do dr. Ricardo Diaz. Atualmente, essa pessoa está vivendo com o vírus de novo, mas não por falha do processo que foi submetido. Estudos minuciosos evidenciaram que houve uma reinfecção por HIV, ou seja, o vírus detectado é diferente do anterior. Esse episódio, embora não desejável, poderá gerar uma nova oportunidade, em termos científicos, de reaplicar a tecnologia nacional e comprovar, novamente, a sua eficácia.
A pesquisa liderada pelo infectologista ganhou projeção e continua despertando alto interesse, especialmente, na população científica e, sobretudo, na que vive com HIV. Até o momento, 650 pessoas manifestaram desejo de participar do estudo de cura como voluntárias.
Redação da Agência de Notícias da Aids
A equipe da Agência Aids está em Florianópolis e cobre os Congressos com o apoio do Departamento de HIV/ Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e ISTs, do Ministério da Saúde
Dica de entrevista
Dr. Ricardo Diaz
Instagram: @dr.ricardodiaz



