
A cada dois anos, pessoas vivendo com HIV, cientistas, ativistas e todos os atores envolvidos na resposta ao HIV/aids se reúnem em uma Conferência Internacional realizada pela International Aids Society (IAS), a maior associação mundial de profissionais de HIV/aids, com aproximadamente 11.600 membros de mais de 170 países, incluindo médicos, prestadores de serviços, formuladores de políticas e outros. Este ano, pela primeira vez na história do evento a Conferência será presidida por uma mulher da América Latina, a brasileira Beatriz Grinsztejn, médica infectologista e pesquisadora do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz).
O evento visa reduzir o impacto global da aids por meio do advocacy coletivo e se caracteriza como a maior conferência sobre qualquer questão global de saúde. Este ano, será realizado em Munique, na Alemanha, entre 19 e 26 de julho.
Realizada pela primeira vez durante o pico da epidemia de aids em 1985, a Conferência Internacional de Aids aconteceu anualmente até 1994, quando se tornou bienal. Cada Conferência continua a oferecer uma plataforma singular onde ciência, advocacy, direitos humanos são discutidos, fortalecendo políticas e programas para uma resposta eficaz e baseada em evidências à epidemia.
Na 5ª Conferência Internacional sobre Aids, realizada em 1989 em Montreal, Canadá, ativistas do ACT UP e seus equivalentes canadenses, Aids Action Now! e Réaction-SIDA, destacaram os desafios enfrentados pelo HIV/aids e desafiaram a hierarquia na comunidade aids. Eles advogaram por mais ativismo e defesa nos círculos científicos. Destacadamente, os ativistas canadenses protestaram contra a ausência de uma estratégia nacional financiada para o aids, enquanto seus colegas dos EUA criticaram a proibição de viagem dos EUA para pessoas vivendo com HIV.
Para Veriano Terto Jr., vice-presidente da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA), é imprescindível a participação das ONGs nas Conferências para uma resposta intersetorial e interdisciplinar no enfrentamento à aids. “Acho que as ONGs são um ponto de aliança, de articulação entre o campo das ciências sociais e das ciências biomédicas, elas articulam esses dois campos, o que é muito fértil. E no aspecto de inovação, as ONGs sempre trazem desses eventos novas metodologias de prevenção, estratégias de tratamento, de acesso a medicamentos, então acho que sempre numa perspectiva interdisciplinar e falando com a voz da própria população, principalmente marcando a voz das pessoas vivendo com HIV e aids, acho que elas também demonstram a importância da solidariedade como um princípio”. Em 2024, Veriano irá participar de sua 9ª Conferência com a expectativa de trazer ao Brasil conhecimento sobre novas tecnologias no tratamento e prevenção.
Nair Brito, uma das fundadoras do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas (MNCP) e pessoa vivendo com HIV há mais 30 anos, conta que participou da Conferência em Vancouver, no Canadá, em 1996. “É um espaço de partilha, de divulgação das experiências em cada canto do mundo, um lugar vigoroso de ampliação dos conhecimentos e, a partir dessa experiência que eu pensei em trazer para o Brasil o acesso ao antirretroviral esquema tríplice e que deu super certo”, relembra. Neste mesmo ano, ela moveu uma ação judicial contra o Estado brasileiro com objetivo de obrigá-lo a cumprir a Constituição, responsabilizando-se com a compra dos antirretrovirais, conhecidos na época como “coquetel contra a aids”, o que foi uma verdadeira revolução na resposta à doença. O processo foi movido através do Grupo de Apoio e Prevenção à Aids (GAPA) de São Paulo, foi a primeira do gênero no país, abrindo portas para que outras pessoas vivendo com HIV/aids tivessem a oportunidade de medicar-se com a terapia antirretroviral (TARV), que significava uma esperança de vida para a época.
Um dos expoentes da medicina brasileira e da resposta à aids no país esteve presente em quase todas as Conferências desde a sétima edição. Dr. Fábio Mesquita, médico, ex-Diretor do então Departamento de DST/Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde e atual Professor de Saúde Coletiva da Unifesp, conta que o Brasil teve muitos momentos de destaque no evento. “A Conferência de 2014 foi especialmente significativa para nós, quando apresentamos o tratamento como prevenção (TASP). Fomos o terceiro país do mundo a implementar essa abordagem revolucionária a partir de dezembro de 2013, seguindo os Estados Unidos e a França. O tratamento como prevenção, uma inovação que se tornou uma política global anos mais tarde”, afirma. “No entanto, a Conferência que mais me emocionou, devido ao seu impacto histórico na luta contra a aids, foi a de 2000 na África do Sul, onde Nelson Mandela e Bill Clinton fizeram uma autocrítica por seu passado, reconhecendo suas falhas enquanto líderes anteriores. Aquela conferência transformou a história da luta contra a aids, pois marcou o fim da negligência global em relação aos países mais afetados pela epidemia. Foi a partir desta Conferência que surgiram, em 2003, o Fundo Global de Luta contra Aids e o PEPFAR, os maiores financiadores globais nessa luta crucial. Para o Brasil, a Conferência de 2000 também foi relevante, pois demonstramos liderança entre os países em desenvolvimento com nossa política pública de aids e acesso a medicamentos através da lei Sarney no Sistema Único de Saúde. Avançamos muito desde então, e essa conferência foi um marco fundamental no controle da epidemia globalmente”, complementa.
A 22ª Conferência Internacional aids 2018, realizada em Amsterdã, teve como destaque o fato de que uma pessoa infectada com HIV em tratamento com vírus indetectável não o transmite para um parceiro não infectado. O início de uma nova era na epidemia: indetectável é igual a intransmissível.
A Aids 2020 foi a 23ª Conferência Internacional e fez história ao ser a primeira Conferência Global sobre Aids completamente virtual, por causa da pandemia de Covid-19. Ela reuniu 13.453 participantes de 176 países e teve como tema “Resiliência”, destacando novos desenvolvimentos e insights sobre as questões mais urgentes que enfrentam a resposta ao HIV, incluindo o impacto da covid-19.
Em todos os eventos, há um espaço reservado para comunidades de todo o mundo se conectarem, compartilharem e aprenderem umas com as outras. Chama-se Global Village, ou Aldeia Global, em português. Com uma programação cultural diversa e totalmente gratuita, indivíduos, grupos e organizações que trabalham na resposta ao HIV se reúnem diariamente. Veja a programação aqui.
Dados sobre aids
De acordo com dados da Unaids, cerca de 39 milhões de pessoas no mundo vivem com HIV. Em 2024, 9,2 milhões de pessoas vivendo com HIV não têm acesso ao tratamento antirretroviral.
Estima-se que, atualmente, um milhão de pessoas vivam com HIV no Brasil. Em 2022, o Ministério da Saúde registrou 10.994 óbitos tendo o HIV ou aids como causa básica.
O objetivo global proposto pela Unaids é alcançar a meta 95-95-95 até 2030 — 95% das pessoas que vivem com HIV cientes de seu status, 95% das pessoas que sabem que estão vivendo com HIV recebendo tratamento antirretroviral e 95% das pessoas em tal tratamento estão com supressão viral.
Marina Vergueiro (marina@agenciaaids.com.br)


