Conexão HTLV reúne ciência, ativismo e gestão pública em Salvador para articular respostas ao vírus

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Encontro promovido pela HTLVida acontece nesta terça-feira (25), na Fiocruz Bahia, e leva à capital baiana debates da AIDS 2026; programação apresenta pesquisas com dolutegravir e sobre transmissão vertical, homenageia parceiros e abre uma agenda de mobilização nacional

Pessoas vivendo com HTLV, pesquisadores, profissionais de saúde, movimentos sociais e gestores públicos estarão reunidos nesta terça-feira (25), em Salvador, para discutir como os avanços científicos e as articulações construídas durante a AIDS 2026 podem se transformar em ações concretas na Bahia. O Conexão HTLV SSA: Diálogos que Fortalecem Respostas será realizado das 8h às 12h, no auditório da Fiocruz Bahia.

Promovido pela Associação HTLVida, o encontro reunirá debate científico, participação comunitária, articulação política e a cerimônia do Prêmio HTLVida – Ceuci Nunes 2026. A programação também marcará a devolutiva da participação da organização na 26ª Conferência Internacional de AIDS, realizada entre 26 e 31 de julho, no Rio de Janeiro.

“O Conexão HTLV SSA não nasceu de um momento, mas de uma trajetória”, afirma Adijeane Oliveira, coordenadora executiva da HTLVida e pessoa vivendo com HTLV. Segundo ela, a participação na conferência deu novo impulso a uma mobilização construída há anos pela associação. “O encontro que realizamos em Salvador, no dia 25 de agosto, é exatamente isso: a devolutiva da nossa ida ao Rio, transformada em ação concreta.”

Da conferência internacional à realidade baiana

Os debates acompanhados pela delegação da HTLVida na AIDS 2026 foram incorporados à programação do encontro em Salvador. Entre os temas estão ampliação do diagnóstico, prevenção da transmissão vertical, acesso às inovações, integração do HTLV à atenção integral à saúde, financiamento sustentável e participação das comunidades na formulação das políticas públicas.

De acordo com Adijeane, uma atividade da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) realizada durante a conferência reforçou o caráter urgente da resposta ao HTLV. A avaliação dialoga com documentos recentes da Organização Mundial da Saúde, que descrevem o HTLV-1 como um vírus ainda pouco reconhecido e defendem ações públicas mais coordenadas para ampliar a testagem e a prevenção. A OMS também iniciou a elaboração de recomendações específicas sobre testagem e prevenção do HTLV-1.

Outro eixo levado ao Rio foi o projeto Conexão HTLV-HIV: Diálogos que Fortalecem Respostas, que propõe aproveitar conhecimentos, serviços e estratégias já consolidados na resposta ao HIV para ampliar a atenção ao HTLV, respeitando as diferenças entre as duas infecções.

“Para o HTLV, o panorama é outro: vivemos uma defasagem de até 40 anos em relação ao HIV e enfrentamos patologias associadas à infecção que comprometem a qualidade de vida das pessoas”, afirma Adijeane. Para ela, a experiência da resposta ao HIV demonstra que a produção científica precisa estar acompanhada de políticas públicas, financiamento e participação das pessoas diretamente afetadas.

O objetivo do encontro é colocar no mesmo espaço quem produz conhecimento, quem organiza os serviços, quem decide sobre políticas e orçamento e quem vive diariamente as consequências da infecção. “Não é um encontro para informar, é um encontro para pactuar, para alinhar e para começar a mover, juntos, a história do HTLV na Bahia”, resume a coordenadora.

Pesquisas com dolutegravir estarão no centro do debate

Um dos principais momentos da programação será o Painel Futuro 2026, dedicado a duas linhas de pesquisa com dolutegravir, antirretroviral utilizado no tratamento do HIV que está sendo investigado em estudos relacionados ao HTLV-1.

O infectologista Carlos Brites, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), apresentará resultados de pesquisas sobre o efeito do medicamento na carga proviral, em desfechos neurológicos e na qualidade de vida de pessoas vivendo com HTLV-1. Um estudo controlado de fase 2 publicado em 2026 encontrou redução da carga proviral e melhora em avaliações neurológicas entre participantes que receberam dolutegravir. Outro ensaio randomizado, com acompanhamento durante 96 semanas, identificou melhora em componentes físicos relacionados à qualidade de vida. Os resultados são promissores, mas ainda não significam que o medicamento esteja aprovado como tratamento específico para o HTLV.

Para Adijeane, a apresentação dessas pesquisas em linguagem acessível é uma oportunidade de aproximar a academia das pessoas que vivem com o vírus, dos profissionais dos serviços e dos gestores públicos. “Queremos que todos compreendam que existe ciência brasileira produzindo respostas para o HTLV, que existe esperança real e que essa esperança precisa se transformar em política pública”, afirma.

O painel também apresentará o PrevINIr HTLV-TV, ensaio clínico conduzido pela Fiocruz Bahia para avaliar o uso do dolutegravir na prevenção da transmissão vertical do HTLV-1. O estudo randomizado de fase 2/3 deverá acompanhar 548 gestantes vivendo com o vírus e seus bebês até os 18 meses de idade. Um grupo receberá os cuidados atualmente recomendados associados ao dolutegravir; o outro seguirá as condutas assistenciais previstas nos protocolos em vigor.

A pesquisa avaliará segurança, tolerabilidade, adesão, efetividade e custo-efetividade da estratégia para o SUS. Também prevê a construção de um protocolo laboratorial para o diagnóstico precoce de crianças expostas. O estudo envolve unidades de Salvador, Cachoeira, Cruz das Almas e Santo Antônio de Jesus e conta com a HTLVida entre as organizações parceiras. As informações foram divulgadas pela Fiocruz Bahia.

Adijeane explica que a prevenção da transmissão entre mãe e criança ocupa lugar central na agenda da associação porque muitas famílias atendidas pela entidade convivem com diagnósticos que atravessam gerações. Embora a transmissão vertical possa ocorrer durante a gestação e o parto, a principal via é a amamentação. O diagnóstico no pré-natal permite orientar a gestante e adotar medidas capazes de reduzir significativamente o risco para o bebê.

Um encontro construído por pessoas vivendo com HTLV

A participação comunitária não aparece apenas como um tema da programação. A HTLVida é formada por pessoas que vivem com o vírus e conduziu a definição das prioridades, dos estudos apresentados e dos setores convidados para o encontro.

“O Conexão HTLV SSA não foi pensado para as pessoas que vivem com HTLV, mas por elas. Essa distinção é o que dá sentido a todo o encontro”, diz Adijeane. “As pessoas vivendo com HTLV não são o público do encontro, são as protagonistas do encontro. É delas que partem as demandas, é nelas que a ciência busca respostas e é para elas que as políticas públicas precisam chegar.”

A abertura contará com representantes da Fiocruz, da UFBA, da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, das secretarias estadual e municipal de Saúde e de movimentos e organizações que participaram das articulações construídas durante a AIDS 2026. Entre eles estão o Fórum Baiano LGBT, o Movimento Negro Unificado, a Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas (Renfa), a Rede de Redução de Danos e Direitos Humanos (Reduc), a Associação das Profissionais do Sexo da Bahia (Aprosba), a Associação Nacional dos Profissionais do Sexo (Anprosex) e a Torcida Organizada Orgulho Rubro Negro.

Segundo Adijeane, a composição diversificada pretende encurtar o caminho entre uma demanda apresentada pelo movimento, a produção de evidências e a decisão dos gestores. “Quando esses atores se sentam na mesma mesa, o que era uma demanda do movimento social passa a ser um dado da ciência; o que era um dado da ciência passa a ser uma proposta de política pública; e o que era uma proposta de política pública passa a ser um compromisso da gestão.”

Salvador concentra desafios e avanços na resposta ao vírus

O encontro ocorre em uma cidade central para a compreensão do HTLV no Brasil. Estudo populacional publicado em 2017 encontrou prevalência de 1,48% de HTLV-1 entre moradores de Salvador e apontou o predomínio da transmissão sexual entre adultos. A pesquisa estimou que aproximadamente 50 mil pessoas viviam com o vírus na capital baiana naquele período.

No país, o Ministério da Saúde estima que cerca de 800 mil pessoas estejam infectadas pelo HTLV-1. A maior parte não apresenta sintomas, mas entre 5% e 10% pode desenvolver manifestações clínicas, incluindo doenças neurológicas, inflamatórias e hematológicas. A OMS informa que ainda não existe tratamento capaz de eliminar a infecção pelo HTLV-1.

Nos últimos anos, o país adotou medidas importantes para ampliar a vigilância. Em 2024, a infecção pelo HTLV, os casos em gestantes, parturientes e puérperas e as crianças expostas ao risco de transmissão vertical passaram a integrar a lista nacional de notificação compulsória. No mesmo ano, o exame para detecção do HTLV-1 e do HTLV-2 no pré-natal foi incorporado ao SUS, com indicação de rastreamento universal das gestantes. A decisão está registrada no relatório da Conitec e na portaria de incorporação.

A Bahia também foi o primeiro estado a instituir uma Linha de Cuidado Integral voltada às pessoas vivendo com HTLV, em 2020. A medida organizou orientações para diagnóstico, acompanhamento e assistência na rede estadual, mas a associação defende que a implementação das políticas, a descentralização dos testes e a capacitação das equipes precisam avançar.

Prêmio e agenda para além do dia 25

Além dos debates, o encontro terá a cerimônia do Prêmio HTLVida – Ceuci Nunes 2026, criado para reconhecer pessoas, instituições e organizações que contribuíram para fortalecer a resposta ao HTLV. A homenagem leva o nome da médica infectologista Ceuci Nunes, cuja trajetória está ligada à saúde pública baiana e à defesa do SUS.

O evento também abrirá uma agenda que a associação pretende manter até o fim do ano. A HTLVida articula para os dias 23, 24 e 25 de novembro, em Salvador, um encontro da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HTLV (RNPHTLV), com lideranças de diferentes estados. A organização busca ainda integrar à mobilização uma audiência pública na Assembleia Legislativa da Bahia. A expectativa é que essas atividades contribuam para definir prioridades nacionais para 2027 e 2028.

Para a coordenadora, o resultado do Conexão HTLV SSA não poderá ser medido apenas pelo número de participantes. A associação espera que o encontro produza alinhamento entre ciência, comunidade, serviços e poder público; amplie a compreensão sobre as pesquisas; fortaleça os parceiros e mobilize a participação nas próximas atividades.

“O Conexão HTLV SSA cumprirá seu objetivo se tivermos conseguido alinhar os atores, sensibilizar sobre a ciência, reconhecer os parceiros, mobilizar para o calendário e pactuar um caminho”, afirma Adijeane. “O que vivemos no Rio foi o ponto de partida; o que construímos a partir daqui é o caminho.”

Redação da Agência de Notícias da Aids

Serviço

Conexão HTLV SSA: Diálogos que Fortalecem Respostas
Data: 25 de agosto de 2026
Horário: das 8h às 12h
Local: Auditório da Fiocruz Bahia
Endereço: Rua Waldemar Falcão, 121, Candeal, Salvador
Informações: Instagram @htlvida

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