Encontro promovido pela Agência de Notícias da Aids reuniu estudantes de Medicina, profissionais de saúde e ativistas para discutir como imprensa, universidades e serviços de saúde podem combater a discriminação e aproximar ciência da população
Em um momento em que a ciência celebra avanços históricos na prevenção e no tratamento do HIV, especialistas, ativistas e futuros profissionais de saúde defenderam que ainda há uma barreira tão difícil de superar quanto o próprio vírus: o estigma. A conclusão foi o eixo central da roda de conversa promovida nesta quarta-feira (30), no estande da Agência de Notícias da Aids, no Global Village da 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026), que reuniu estudantes de Medicina, profissionais de saúde, jornalistas e pessoas vivendo com HIV para discutir o papel da comunicação na resposta à epidemia.
Mediado pela jornalista Roseli Tardelli, diretora da Agência de Notícias da Aids, o encontro contou com a participação do epidemiologista Dr. Fábio Mesquita, ex-diretor do Departamento de IST, HIV/Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, da infectologista Dra. Rosana Del Bianco, do Centro de Referência e Treinamento em IST/Aids de São Paulo (CRT-SP), além de ativistas, estudantes e profissionais de saúde.
O debate deixou claro que comunicar sobre HIV vai muito além de divulgar descobertas científicas. Significa enfrentar preconceitos, traduzir informações complexas para a população, formar profissionais mais preparados e garantir que o acolhimento seja parte inseparável do cuidado.
Logo na abertura, Roseli Tardelli lembrou que, mesmo após mais de quatro décadas de epidemia, situações de discriminação continuam acontecendo — inclusive dentro das faculdades de Medicina e dos próprios serviços de saúde. “É assustador que um estudante de Medicina ainda pense dessa forma. Muita gente acredita que preconceito e estigma são coisas do passado, mas eles continuam presentes.”
A jornalista destacou que justamente por isso a Agência de Notícias da Aids nasceu e segue existindo: para informar, educar e ampliar o diálogo com públicos que muitas vezes permanecem distantes das discussões sobre HIV.
“Quando eu não existir e quando outras pessoas também não estiverem mais aqui, a Agência precisa continuar fazendo isso: educar, dialogar e levar informação.”
O preconceito também atinge quem cuida

A infectologista Rosana Del Bianco emocionou o público ao recordar os primeiros anos da epidemia, quando iniciou sua carreira no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, ainda no início da década de 1980, antes mesmo da existência do teste para HIV.
Ela contou que foi uma das primeiras médicas a aceitar cuidar de pessoas com suspeita da então desconhecida doença e, por isso, também se tornou alvo de discriminação. “Ninguém me cumprimentava. Não me davam a mão porque eu atendia pacientes com HIV.”
A dra. Rosana lembrou que o medo dominava profissionais e instituições de saúde. Hospitais inteiros tinham dificuldade para encontrar equipes dispostas a trabalhar com pacientes vivendo com HIV, reflexo da falta de conhecimento científico daquele momento.
Mas, para ela, o mais preocupante é perceber que, apesar de toda a evolução da medicina, parte desse preconceito ainda resiste. “Até hoje existem profissionais que têm restrições. A informação melhorou, os tratamentos evoluíram, mas ainda precisamos enfrentar a ignorância e o preconceito.”
Segundo a médica, uma mudança importante passa pela própria linguagem utilizada. Ela defendeu o abandono definitivo de termos como “aidético”, substituindo-os por expressões corretas e respeitosas, como “pessoa vivendo com HIV”, lembrando que palavras também podem reforçar ou combater o estigma.
Da “capital da aids” à esperança

O médico Fábio Mesquita também voltou ao início da epidemia para mostrar como o desconhecimento moldou o medo.
Ele recordou quando começou a trabalhar com HIV, em Santos, cidade que chegou a ser chamada pela imprensa de “capital da aids” devido ao elevado número de casos. Na época, poucos médicos aceitavam atender pacientes com HIV.
“Quando procuraram um voluntário para abrir o ambulatório, todo mundo dizia não. Eu era o médico mais jovem e fiquei com essa responsabilidade.”
O epidemiologista revelou que o próprio governo paulista pagava um adicional salarial aos profissionais que trabalhavam com HIV. “Não era insalubridade. Era periculosidade. O próprio Estado dizia que trabalhar com HIV era perigoso.”
Hoje, o cenário científico é completamente diferente. Mesquita lembrou que pessoas vivendo com HIV podem ter expectativa de vida semelhante — ou até superior — à da população geral quando fazem tratamento adequado, graças ao acompanhamento contínuo e aos avanços terapêuticos.
Ele também reforçou a importância de ampliar o conhecimento sobre a mensagem “Indetectável=Intransmissível (I=I)”. “Explicar que uma pessoa em tratamento, com carga viral indetectável, não transmite o HIV é fundamental para quebrar o preconceito.”
Comunicação que acolhe
Ao longo da conversa, um consenso apareceu repetidamente: comunicar bem é uma forma de cuidar.
Para o dr. Fábio Mesquita, médicos precisam aprender a conversar com as pessoas em uma linguagem simples e compreensível. “Não adianta falar apenas a linguagem técnica. É preciso traduzir a ciência para a população.”
A dra. Rosana Del Bianco complementou afirmando que os cuidados adotados para pacientes vivendo com HIV são os mesmos que devem ser utilizados para qualquer pessoa. “Não existe um protocolo diferente porque o paciente tem HIV. Os cuidados são iguais para todos.”
A médica aproveitou para reforçar que estudantes precisam compreender desde cedo que biossegurança protege profissionais diante de diversas doenças, e não apenas do HIV.
Quando o preconceito começa no consultório
Um dos momentos mais marcantes da roda de conversa aconteceu quando ativistas compartilharam experiências pessoais.
Fabiana Oliveira, integrante do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas e vivendo com HIV há três décadas, questionou por que, mesmo após tantos avanços científicos, ainda existe discriminação dentro dos serviços de saúde.
Dra. Rosana respondeu que parte desse comportamento está profundamente enraizada em preconceitos sociais anteriores ao próprio HIV. “O preconceito vem da formação das pessoas. Mas ele precisa ser enfrentado com diálogo. Não dá para fingir que ele não existe.”
Segundo ela, hospitais e gestores têm a responsabilidade de discutir essas situações com suas equipes sempre que ocorrerem episódios de discriminação. “O primeiro passo é perguntar: do que você tem medo? A partir daí, oferecer informação, treinamento e segurança.”
Os estudantes como agentes de mudança
A presença de estudantes de Medicina da Universidade São Judas, em Santos, deu um tom especial ao encontro.
Convidados a explicar por que escolheram a profissão, muitos responderam com palavras como empatia, acolhimento, cuidado e combate ao estigma.
Para Roseli Tardelli, aproximar esses jovens do universo do HIV é essencial para construir uma nova geração de profissionais mais preparados.
Ela defendeu que eventos como a Conferência Internacional de Aids envolvam cada vez mais estudantes de Medicina, Jornalismo, Enfermagem, Psicologia e outras áreas da saúde. “O Global Village não pode conversar apenas com quem já está convencido. Precisamos ampliar esse diálogo.”
Informação para romper a bolha

Ao refletir sobre o papel da imprensa, Roseli lembrou que, nas primeiras décadas da epidemia, os veículos reproduziam o conhecimento disponível naquele momento, ainda cercado por incertezas.
Hoje, segundo ela, o desafio é justamente o contrário: fazer a informação correta chegar à sociedade em um ambiente onde diferentes temas disputam atenção diariamente.
Ela destacou que a Agência de Notícias da Aids busca constantemente criar novas formas de inserir o HIV na agenda pública, aproximando o tema de grandes acontecimentos nacionais e internacionais para ampliar seu alcance. “Nosso trabalho é furar a bolha.”
Ao final do encontro, a jornalista reforçou que a comunicação continua sendo uma das ferramentas mais poderosas para enfrentar a epidemia. “Os médicos precisam comunicar melhor. Os jornalistas precisam comunicar melhor. Os ativistas precisam comunicar melhor. Os governos precisam comunicar melhor. Porque o preconceito não desaparece sozinho.”
A roda de conversa terminou com um convite para que estudantes, ativistas e profissionais continuem produzindo pautas, compartilhando conhecimento e fortalecendo o diálogo entre ciência, comunicação e sociedade.
Redação da Agência de Notícias da Aids
* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.



