Estudo apresentado na USP quer levar a PrEP para além dos serviços de saúde tradicionais, com atuação de educadores pares em territórios periféricos
A prevenção ao HIV pode acontecer para além dos consultórios, ambulatórios e unidades de saúde. Essa é a proposta do COMPrEP (PrEP na Comunidade), estudo que aposta em uma estratégia comunitária para ampliar o acesso à profilaxia pré-exposição (PrEP) entre jovens LGBTQIA+, especialmente pessoas trans, negras e periféricas.
A primeira devolutiva do projeto foi apresentada na tarde desta segunda-feira (25), na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, reunindo pesquisadores, profissionais da saúde, organizações sociais e participantes do estudo para discutir os avanços da pesquisa e os próximos passos da iniciativa.
Em São Paulo, o COMPrEP tem como investigadores principais o professor doutor Alexandre Grangeiro e a doutora Márcia Couto, ambos da Universidade de São Paulo. A coordenação do estudo é conduzida pela pesquisadora e mulher trans Paola Alves de Souza, doutora em Psicologia e referência em projetos de prevenção ao HIV/aids voltados para jovens e adolescentes no Departamento de Medicina Preventiva da USP. Para ela, a primeira devolutiva representa um marco político, científico e comunitário do projeto. A coordenação de campo da pesquisa é realizada pelo psicólogo Eduardo Oliveira, homem cis negro, que atua diretamente na articulação das estratégias territoriais e comunitárias do estudo.

“Esta primeira devolutiva representa um marco político, científico e comunitário do COMPrEP. Apesar da pesquisa ser de base comunitária, interseccional e Paulo freiriana, este seminário é o momento em que a pesquisa deixa de ser apenas produção acadêmica e retorna para as pessoas, territórios, serviços e movimentos sociais que constroem o estudo no cotidiano”, afirmou.
Segundo Paola, a proposta do estudo é construir uma “pedagogia da prevenção”, baseada na escuta, na participação social e no protagonismo das comunidades envolvidas. O projeto vem sendo desenvolvido por meio de círculos de cultura, intervenções comunitárias e estratégias de construção coletiva do conhecimento.
O público-alvo do COMPrEP são jovens de 15 a 24 anos, especialmente homens que fazem sexo com homens, travestis e pessoas trans. A pesquisa busca avaliar a efetividade da oferta comunitária da PrEP em comparação ao modelo tradicional realizado nos serviços de saúde.
Ao todo, cerca de 1,4 mil jovens participarão do estudo em São Paulo e Salvador. Os participantes serão divididos entre dois modelos de cuidado: um realizado dentro das unidades de saúde e outro construído em espaços comunitários, mediado por educadores pares e supervisionado por equipes clínicas.
Paola destaca que atuar ao lado de pesquisadores experientes como Alexandre Grangeiro e Márcia Couto fortalece a solidez metodológica e científica do COMPrEP. Ela afirma ainda que considera uma honra compartilhar a construção do estudo com Márcia Couto — primeira professora titular não médica e nordestina do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade de São Paulo — e com as comunidades envolvidas no projeto, o que, segundo ela, torna a pesquisa ainda mais potente, sensível e promissora.
Prevenção construída nos territórios
Um dos principais diferenciais do COMPrEP é justamente a atuação dos chamados educadores de pares — jovens das próprias comunidades capacitados para orientar, acolher e acompanhar outros jovens no uso da PrEP e nas estratégias de prevenção combinada ao HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis.
Segundo Paola, os primeiros resultados já apontam impactos importantes dessa metodologia. “Os dados iniciais apontam que a oferta comunitária amplia o acesso, reduz barreiras institucionais e aproxima a prevenção das realidades concretas dos jovens e das populações vulnerabilizadas”, explicou.
Ela destaca que o cuidado realizado em ambientes mais acolhedores e territorializados tem fortalecido o vínculo com os participantes.
“O estudo mostra que, quando o cuidado acontece em espaços mediados por pessoas com experiências próximas às dos participantes, há maior confiança, permanência e engajamento no cuidado.”
A pesquisadora afirma ainda que os educadores pares têm papel central na construção dessa relação de confiança entre comunidade e serviço de saúde.
“Eles ajudam a traduzir linguagens, acolher experiências e construir estratégias de prevenção mais próximas da vida real das pessoas. O estudo mostra que o saber comunitário não é complementar ao cuidado: ele é parte central dele”, disse.
A maior parte dos educadores envolvidos no projeto são pessoas trans e racializadas, algo que, segundo Paola, fortalece o diálogo com os participantes e contribui para uma abordagem mais horizontal do cuidado.

Juventude como protagonista
Outro ponto destacado durante a devolutiva foi o protagonismo dos jovens dentro da própria pesquisa. De acordo com a coordenadora, o COMPrEP não enxerga os participantes apenas como usuários do sistema de saúde, mas como sujeitos ativos na produção de conhecimento e na formulação das estratégias do projeto.
“A participação dos jovens tem sido central e ativa. Eles contribuem com críticas, sugestões, estratégias de comunicação e reflexões sobre como tornar a prevenção mais acessível e significativa para suas realidades.”
Essa construção coletiva também aparece na forma como a pesquisa foi desenhada. Paola afirma que o projeto rompe com modelos tradicionais de produção científica em que a população participa apenas da coleta de dados, sem acesso aos resultados ou participação nas decisões.
“Apresentar os resultados ainda durante o andamento da pesquisa fortalece a transparência, a participação social e a construção coletiva do conhecimento. A comunidade desenha a pesquisa juntamente”, afirmou.
Diferenças em relação ao modelo tradicional
Durante a apresentação, a equipe do COMPrEP também destacou as diferenças entre o modelo comunitário e os formatos tradicionais de atendimento.
Segundo Paola, enquanto muitos serviços ainda operam em estruturas rígidas e verticalizadas, o estudo aposta em relações horizontais e em um cuidado territorializado.
“O modelo comunitário tem mostrado diferenças importantes principalmente na construção de vínculo, acolhimento, linguagem, confiança e adesão ao cuidado”, explicou.
Ela afirma que o projeto utiliza o feminismo negro e a perspectiva interseccional como lentes conceituais para pensar o cuidado e a prevenção.
Na prática, a oferta comunitária envolve ações realizadas em articulação entre educadores pares, equipes de saúde e espaços comunitários. As estratégias incluem acolhimento, orientação, prevenção combinada, encaminhamentos, testagem e acompanhamento fora dos espaços tradicionais de atendimento.
“O objetivo é reduzir barreiras de acesso e tornar o cuidado mais possível e mais digno”, resumiu.
Por se tratar de um estudo clínico, os participantes serão randomizados previamente entre os dois braços da pesquisa: um baseado na oferta de PrEP em serviços de saúde e outro realizado diretamente nos territórios.

Desafios e próximos passos
Entre os principais desafios enfrentados pela equipe até aqui estão as barreiras estruturais do sistema de saúde e a própria construção de uma pesquisa comunitária sem abrir mão do rigor científico, ético e assistencial.
Também há preocupações sobre a sustentabilidade dessas estratégias no longo prazo. Após a fase inicial, considerada formativa e qualitativa, o projeto agora inicia uma nova etapa. “Até aqui fizemos o desenho do campo e das estratégias. Agora vamos colocar o estudo na rua”, afirmou Paola.
A expectativa da equipe é consolidar o modelo comunitário como uma tecnologia de cuidado possível e sustentável dentro do Sistema Único de Saúde (SUS).
Financiado pelo National Institutes of Health, o COMPrEP é desenvolvido por pesquisadores da Fiocruz Bahia, Universidade Federal da Bahia, Universidade do Estado da Bahia, Universidade de São Paulo e Universidade do Alabama, em parceria com o Ministério da Saúde, secretarias estaduais e municipais e organizações da sociedade civil.
Os resultados da iniciativa podem ajudar na formulação de políticas públicas mais inclusivas, territorializadas e centradas nas necessidades reais das populações mais afetadas pela epidemia de HIV no Brasil.
“A expectativa é que os resultados produzidos possam contribuir para políticas públicas mais inclusivas e centradas nas necessidades reais das populações mais afetadas pela epidemia de HIV, especialmente jovens LGBTQIA+, pessoas trans e populações negras e periféricas”, concluiu Paola.
Redação da Agência de Notícias da Aids




