Como São Paulo consolidou liderança na resposta ao HIV – Estadão

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Especialistas explicam como a capital paulista se tornou referência global no enfrentamento ao vírus

São Paulo aparece em posição de destaque entre grandes metrópoles: a capital reduziu em cerca de 55% as novas infecções por HIV entre 2016 e 2023, segundo dados da Prefeitura. Os resultados são devido às políticas públicas contínuas voltadas à ampliação do acesso aos métodos de prevenção. Essa equação foi discutida em live do Meet Point Estadão Think – São Paulo como case global de prevenção ao HIV: da conquista da PrEP oral ao horizonte da injetável.

Para Robinson Camargo, coordenador da Assistência da Coordenadoria de IST/Aids da capital, o primeiro diferencial é a continuidade. “A primeira coisa é uma política pública de Estado. A Aids aqui não depende de governo”, afirma. Ele lembra que o município atua desde os anos 1990 com uma rede “potente”, capaz de sustentar estratégias de longo prazo, um exemplo é a eliminação da transmissão vertical registrada em 2019.

A capital opera com testagem intensa e início rápido do tratamento. Ele reforça que “quando se testa e trata, a carga viral diminui e a transmissão cai”. Segundo ele, a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) também ganhou escala: são milhares de usuários cadastrados. A prefeitura oferece serviço gratuito de testagem e prevenção ao HIV no Metrô República.

Adesão e retenção
Para a médica e pesquisadora Maria Felipe Medeiros (CRM SP183075), avanços tecnológicos não eliminam desigualdades. “A PrEP funciona plenamente para a população trans. O problema não está no medicamento, mas na retenção e no vínculo”, afirma.

Segundo ela, barreiras sociais seguem determinantes: “Falar de HIV não é só falar de vírus. É falar de educação, raça, identidade de gênero e transfobia. Se o nome social não é respeitado, a pessoa entende que aquele lugar não é para ela”, completa.

Já Liliana Cristina Mussi, vice-presidente do Fórum das ONGs/Aids, lembra que conquistas nasceram da mobilização de pessoas que vivem com HIV. “A sociedade civil acessa populações vulneráveis, cobra gestores e defende direitos. Sem esse controle social, a resposta não teria robustez”, afirma.

Para o infectologista Álvaro Costa (CRM SP108207), ciência e política precisam caminhar juntas. A PrEP, oral e injetável, que ainda não está disponível no SUS, não avança sozinha. “Temos uma ferramenta espetacular. Mas, sem articulação com comunidades, ela não reduz casos”, diz. Ele lembra que a epidemia continua concentrada em pessoas pobres, negras, jovens e mulheres. “O desafio é expandir o modelo paulista sem ignorar desigualdades”, conclui.

“A sociedade civil acessa populações vulneráveis, cobra gestores e defende direitos. Sem esse controle social, a resposta não teria robustez”

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1 . Ampliar o acesso à PrEP oral

Para Robinson Camargo, coordenador da Assistência da Coordenadoria de IST/Aids de São Paulo, iniciar a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) é apenas o começo. “Temos 30% a 40% de perda9. Muitas vezes, a pessoa deixa de usar porque não se vê mais em risco ou porque enfrenta barreiras práticas”, afirma.

Para esses grupos, soluções precisam ser adaptadas ao cotidiano. “Às vezes, o comprimido não pode ficar com a pessoa. Então deixamos o medicamento na unidade e oferecemos café da manhã”, diz. Segundo ele, ampliar a PrEP exige presença territorial, serviços flexíveis e estratégias que reforcem vínculos.

2 . Enfrentar o estigma que afasta populações vulnerabilizadas

A médica infectologista Maria Felipe Medeiros (CRM SP183075) ressalta que o estigma continua sendo uma barreira decisiva para a prevenção. Ela observa que preconceitos ligados a orientação sexual, raça e identidade de gênero ainda afastam muitas pessoas dos serviços de saúde. “Quando essas violências se somam, a prevenção deixa de ser uma escolha possível”, afirma.

Já o infectologista Álvaro Costa (CRM SP108207) reforça que o preconceito também compromete a etapa mais básica da resposta ao HIV. “Poucas pessoas sabem que indetectável significa zero transmissão. O estigma afasta usuários da testagem precoce e da terapia antirretroviral”, diz. Para ele, combater discriminações é condição para que qualquer tecnologia — inclusive a PrEP injetável — produza impacto real.

3 . Estruturar serviços onde não há rede especializada

Embora São Paulo tenha conseguido organizar uma estratégia contínua de prevenção, grande parte do País enfrenta limitações significativas. Faltam equipes, serviços preparados e políticas que articulem saúde, assistência e alcance comunitário, elementos fundamentais para reduzir novas infecções.

Liliana Cristina Mussi, vice-presidente do Fórum das ONGs/Aids, lembra que a desigualdade territorial é profunda. “Há municípios que nem têm serviço especializado para implantar a PrEP oral. Se isso já é um desafio, a PrEP injetável exigirá planejamento mais sólido”, destaca. Segundo ela, políticas regionais precisam considerar realidades locais — geográficas, culturais e socioeconômicas — para que a prevenção seja, de fato, acessível.

4 . Fortalecer a sociedade civil e as redes comunitárias

Os especialistas enfatizam que a sociedade civil é responsável por conquistas estruturantes da resposta brasileira ao HIV — desde o acesso universal a antirretrovirais até a expansão de direitos. Para Liliana, essa presença continua indispensável. “As ONGs acessam grupos que o serviço de saúde não alcança, levam informação, cobram gestores e defendem direitos”, afirma. Em regiões com pouco investimento público, essa articulação se torna ainda mais decisiva para evitar retrocessos e manter políticas de prevenção ativas.

5 . Novas alternativas de prevenção, com a PrEP injetável

Embora ainda não esteja disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), a PrEP injetável surge como mais uma alternativa. A preferência da população deve ser sempre levada em consideração. O médico Álvaro Costa observa que: “Pessoas que têm dificuldade com comprimidos diários podem se beneficiar. Mas é preciso garantir custo viável e profissionais treinados”, afirma.

Para os especialistas, a incorporação exige planejamento nacional, financiamento estável e estratégias para evitar que a inovação fique restrita às grandes capitais. O desafio central é garantir que o novo modelo não reproduza desigualdades já observadas na implementação da PrEP oral. Na avaliação dos participantes, sem unir inovação, financiamento, acolhimento e continuidade das políticas, o Brasil não conseguirá avançar.

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