
O tom da pele, as características físicas, orientação sexual, possíveis deficiências são todos traços naturais. Logo, é fundamental que as crianças aprendam desde cedo a respeitar o próximo. Elas possuem inúmeras perguntas sobre o que percebem de diferente. Esta curiosidade não é preconceito, mas dependendo da forma como conduzimos as respostas podemos construí-lo. Então, como falar com crianças sobre diversidade?
Nesta reportagem, conversamos com a psicóloga Aline Rodrigues, especializada em TCC – Teoria Cognitivo Comportamental, com foco em saúde mental para pessoas vivendo com HIV/aids -, como e quando iniciar com as crianças diálogos sobre diversidade e respeito às diferenças.
De acordo com a profissional, os avanços conquistados até aqui são fundamentais para a construção de uma sociedade mais justa e inclusiva. Embora em alguns momentos da história a diversidade tenha sido ignorada, marginalizada ou até mesmo reprimida, segundo a terapeuta, é essencial hoje este movimento de reconhecimento e celebração da diversidade em todas as suas formas.
‘‘Essas questões sempre foram reais, mas antes não falávamos sobre. Viemos de uma sociedade impositiva, e o que tem acontecido é que esta geração tem mudado muitos conceitos. A dinâmica de acesso a informações de forma rápida e abrangente com a internet, faz com que a gente crie outros parâmetros de comparação’’, diz a especialista.
‘‘E que bom que hoje podemos falar de temas que já eram reais, mas que permeavam somente alguns grupos’’, complementa.
A psicóloga entende que, à medida que avançamos, é importante continuar promovendo a igualdade, o respeito e a inclusão, garantindo que todos tenham as mesmas oportunidades e direitos, independentemente de suas diferenças; e as pessoas vivendo com HIV/aids, não devem ficar de fora dessa discussão.
Ao reconhecer que a diversidade sempre existiu e continuará a existir, podemos construir um futuro mais harmonioso e compreensivo para todos. Em um mundo cada vez mais diverso, apesar de ser fundamental que as crianças aprendam sobre a importância da inclusão, do respeito e da compreensão em relação às pessoas vivendo com HIV, Aline destaca que não existe ‘‘certo ou errado’’ com relação ao momento exato de dar o pontapé nessa conversa, pois ‘‘vai de criança para criança’’.
“Para falarmos com crianças, a gente precisa levar em consideração os vários níveis do desenvolvimento humano. Quando a criança está dentro de casa, ela tem como principal parâmetro os adultos que a cercam e a rotina. Daí quando esta criança começa a frequentar a escola – que acredito ser o principal marco para se falar de diversidade, porque geralmente é lá que acontece o contato inicial com o diferente -, percebemos então que ela começa a fazer questionamentos, e é aí que devemos entrar com orientações’’, argumenta.
Aline aposta na ludicidade como estratégia de comunicação. “Assim a gente fala a língua da criança’’.
No contexto do HIV/aids, defende que ferramentas lúdicas também são aliadas. Livros infantis, vídeos educativos, jogos e brincadeiras interativas são exemplos de recursos educacionais a se recorrer para fornecer mensagens precisas, com inclusão e com respeito.
A mentora elenca aos pais e responsáveis algumas diretrizes:
- Conhecimento básico
É fundamental que o adulto esteja preparado e tenha minimamente conhecimento correto sobre diversidade e HIV e esteja antenado sobre o que está acontecendo em diversidade ao seu redor, para conseguir prestar acolhimento e dar as devidas orientações.
- Disposição
É preciso estar disposto e comprometido, de fato, na educação do menor.
- Disponibilidade
Além de disposição, disponibilidade também é imprescindível – inclusive em momentos que o pequeno (a) faça alguma pergunta que não tenha resposta -, deixando a porta sempre aberta para voltar ao diálogo, sem cair no esquecimento.
- Acolhimento
A criança precisa se sentir acolhida e considerada desde a primeira dúvida.

- Paciência
A paciência ao ensinar aprimora o intelecto da criança e fortalece o vínculo. Especificamente no contexto do HIV, Aline Rodrigues frisa que a instrução exige cuidado dobrado. ‘‘Temos um complicador, por mais que as informações sobre HIV/aids sejam acessíveis hoje em dia, a maioria não busca essas informações, porque o preconceito ainda é muito grande em torno do vírus’’, ressalta.
A especialista chama atenção ainda para a necessidade de se estar atento num ambiente que favoreça esse diálogo. ‘‘Levar às crianças esses conhecimentos, possibilita melhores modelos de comportamento’’.
‘‘Se uma criança convive em uma casa onde alguém é HIV+, mostrar que esta pessoa vive como qualquer outra pessoa e não que deve haver diferença de tratamento pessoal é muito importante. Precisamos ter muito cuidado para não colocar as pessoas em uma caixa! A doença existe sim, mas em um contexto de tratamento adequado, as relações sociais não tem diferença nenhuma. Falar sobre isso naturaliza a questão e faz com que a criança comece a criar essas visões’’.
A terapeuta conclui que este processo é gradual e contínuo, que a dúvida sempre vai existir e que as crianças vão procurar respostas onde tiverem mais abertura.

‘‘Precisamos ser fonte de orientação para que elas não fiquem desamparadas. Muitos não acham esse caminho livre em casa; no melhor dos mundos, o correto é escola e família andarem juntas, mas quando isso não acontece em conjunto, que pelo menos, um lado consiga ser o apoio’’, finaliza.
Exemplo a ser seguido
Adriano Lopes, 47, é pai do pequeno Marcos, de 7. Adriano vive com HIV desde 1986, e é hemofílico desde o seu nascimento. Além disso, vive com deficiências físicas que são sequelas da hemofilia.

De acordo com o entrevistado, o respeito e a empatia são valores que Marcos aprendeu desde cedo em casa. ‘‘Eu e minha esposa sempre conversamos com ele sobre respeitar todas as pessoas, não interessa o que a pessoa tenha ou não’’, divide.
Em relação ao HIV, conta que a primeira conversa com Marcos aconteceu quando ele viu o pai tomando seus medicamentos.
‘‘Ele sempre me viu tomando os remédios, nunca escondi isso, até que um dia ele perguntou o que aquilo significava e eu expliquei de forma lúdica’’.
Adriano relata que contou ao seu filho que foi infectado pelo HIV, que é como um bichinho, esse bichinho ataca os soldadinhos de defesa do corpo, e que para fortalecer os soldadinhos, é preciso tomar os remédios.
‘‘Nunca deixo ele com dúvida, mesmo que eu explique de forma lúdica; e falo a ele que conforme for ficando mais velho vamos aprofundando o assunto, mas nunca deixamos ele curioso’’, encerra.
Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
Aline Rodrigues – Psicóloga
E-mail: psicologia.alinerodrigues@gmail.com
Instagram: @aline.rodrigues_psi
Adriano Lopes
E-mail: adriano2175@terra.com.br
Instagram: @drilopes36_vidapositiva


