Nova estratégia de longa duração pode ampliar opções para pessoas com HIV e competir com regimes semestrais em desenvolvimento
Uma combinação experimental que une um anticorpo amplamente neutralizante ao antirretroviral injetável cabotegravir manteve a supressão viral do HIV por pelo menos 12 meses na maioria dos participantes de um estudo clínico de fase IIb. Os resultados mais recentes do estudo EMBRACE foram apresentados na última semana durante a Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections, em Denver, e reforçam o potencial das terapias de ação prolongada e ultralonga no tratamento do HIV.
O anticorpo, desenvolvido pela ViiV Healthcare e agora chamado lotivibart (anteriormente N6LS ou VH3810109), foi testado em combinação com injeções mensais de cabotegravir como regime de manutenção para pessoas já em tratamento antirretroviral estável e com carga viral indetectável.
Com base nos dados já apresentados no CROI do ano passado, a Dra. Charlotte-Paige Rolle, do Centro de Imunologia de Orlando, na Flórida, relatou que a maioria dos participantes que substituiu o regime oral diário por infusões intravenosas de lotivibart a cada quatro meses, associadas ao cabotegravir, manteve a supressão viral após um ano.
“A terapia de longa duração e ultralonga duração tem o potencial de melhorar a adesão e a supressão viral em nossos pacientes, aprimorar a qualidade de vida – especialmente para aqueles que têm dificuldades com a terapia oral diária – e fortalecer os esforços de saúde pública, ampliando nosso arsenal terapêutico contra o HIV”, afirmou Rolle. “Todos sabemos que, ao oferecermos mais opções aos nossos pacientes, eles obtêm melhores resultados, o que pode trazer um benefício significativo para a comunidade.”
Alternativa à rilpivirina
Atualmente, o regime completo de ação mais prolongada disponível combina cabotegravir e rilpivirina (Vocabria e Rekambys), administrado mensalmente ou a cada dois meses. No entanto, especialistas apontam que novos parceiros de longa duração para o cabotegravir seriam bem-vindos — especialmente para pessoas que desenvolveram resistência a inibidores não nucleosídeos da transcriptase reversa (NNRTIs), como a rilpivirina.
Como funciona o lotivibart
Pessoas vivendo com HIV geralmente produzem anticorpos contra o vírus, mas eles costumam atingir regiões altamente variáveis ou ocultas. Uma pequena parcela da população, porém, desenvolve naturalmente anticorpos amplamente neutralizantes (bnAbs), capazes de reconhecer partes mais conservadas do HIV.
O lotivibart é uma versão modificada de um desses bnAbs naturais e tem como alvo a proteína gp120, localizada na superfície do vírus, essencial para sua ligação às células CD4. Assim como ocorre com medicamentos antirretrovirais, o HIV pode desenvolver resistência aos bnAbs, o que torna a terapia combinada fundamental.
Estudos anteriores já haviam demonstrado seu potencial. No ensaio de fase I SPAN, o anticorpo apresentou perfil de segurança favorável em voluntários HIV-negativos, tanto por infusão intravenosa quanto por injeção subcutânea com hialuronidase. No estudo de fase IIa BANNER, uma única dose reduziu substancialmente a carga viral em pessoas ainda não tratadas.
Resultados do EMBRACE
O estudo EMBRACE foi conduzido em 45 centros nos Estados Unidos e em Porto Rico e recrutou 125 adultos vivendo com HIV, todos com carga viral indetectável havia pelo menos seis meses. Os participantes foram previamente testados para confirmar que o vírus era sensível ao lotivibart.
Eles foram divididos em três grupos:
* Cabotegravir mensal + lotivibart por infusão intravenosa a cada quatro meses
* Cabotegravir mensal + lotivibart por injeção subcutânea a cada quatro meses
* Manutenção do regime oral padrão
Após 12 meses:
* 94% dos participantes que receberam lotivibart por infusão mantiveram carga viral indetectável
* 82% dos que receberam a formulação injetável mantiveram a supressão
* 88% dos que permaneceram no regime oral continuaram indetectáveis
Três pessoas (6%) no grupo de infusão, cinco (10%) no grupo de injeção e uma (4%) no grupo oral apresentaram carga viral acima de 50 cópias/mL após um ano.
Dois participantes do grupo de infusão preencheram critérios de falha virológica confirmada aos seis meses. No grupo de injeção, houve dois casos aos seis meses e um adicional em acompanhamento mais longo.
Foram detectadas mutações de resistência ao cabotegravir em duas pessoas do grupo de injeção, mas em nenhuma do grupo de infusão. Sensibilidade reduzida ao anticorpo foi observada em dois participantes do grupo de infusão e um do grupo de injeção.
Segundo Rolle, todos os casos apresentavam alta sensibilidade ao lotivibart no início do estudo, o que indica que “a sensibilidade fenotípica por si só não explica a falha virológica confirmada”.
Segurança e tolerabilidade
O lotivibart demonstrou perfil de segurança favorável, sem eventos adversos graves relacionados ao tratamento, incluindo anafilaxia ou síndrome de liberação de citocinas.
No entanto, as infusões intravenosas foram mais bem toleradas do que as injeções subcutâneas:
* 8% dos pacientes do grupo de infusão relataram reações no local
* 51% dos pacientes do grupo de injeção relataram reações locais
* Três pacientes do grupo de injeção interromperam o tratamento por efeitos colaterais
A dor foi classificada como muito baixa em ambos os grupos, mas aumentou ligeiramente entre seis e 12 meses no grupo de injeção.
Com base nesses dados, os pesquisadores concluíram que as infusões apresentaram “perfil de segurança e tolerabilidade mais favorável”, e a formulação intravenosa foi selecionada para avançar nos estudos.
A Parte 2 do EMBRACE já concluiu o recrutamento e avalia infusões de lotivibart a cada seis meses combinadas com cabotegravir a cada dois meses — um passo rumo a regimes semestrais.
Se confirmados em estudos maiores, os dados do EMBRACE podem ampliar o leque de opções para pessoas vivendo com HIV — especialmente aquelas que enfrentam dificuldades com a terapia oral diária — e consolidar uma nova era no tratamento da infecção: a da manutenção sem comprimidos diários, com aplicações espaçadas por meses.




