Colóquio do Mopaids: ONGs/Aids apresentam experiências exitosas na luta contra a aids na cidade de São Paulo e dizem que é preciso continuar avançando

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Na última sexta-feira (19), o Mopaids (Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids) reuniu ativistas e representantes de ONGs no Colóquio das Experiências Exitosas – Construindo Pontes nas Ondas da Comunicação em Aids.  O evento aconteceu na sede da AHF em São Paulo e começou com o Projeto Bem-Me-Quer, o Grupo Pela Vidda-São Paulo, o Instituto Cultural Barong e o Grupo de Incentivo à Vida (GIV) compartilhando suas experiências e projetos na luta contra a aids na cidade de São Paulo.

“É muito importante vermos a força das organizações, pois lutar contra aids não é algo fácil, muitas delas fecharam as portas durante o caminho, diminuindo o tempo de atuação e a gente tem percebido que a epidemia tem endurecido, tem se mostrado com uma nova cara e nos desafiando. Precisamos comemorar cada experiência boa para que isso nos faça ir mais longe e ter bons resultados”, disse Eduardo Barbosa, coordenador da Mopaids.

O ativista Beto de Jesus, diretor da AHF Brasil, também esteve no evento e falou sobre a importância do combate ao racismo quando o assunto é a luta contra a aids. “É impossível não pensar nesse enfrentamento sem a gente não pensar no enfrentamento do racismo, os dados epidemiológicos mostram que a aids afeta de forma diferente a população preta. Temos que pensar especificamente em como ajudar essa população mais afetada, temos que ter uma resposta mais customizada, precisamos de mais tempo e mais recursos.”

Ainda na abertura a militante Patrícia Perez, que também está a frente do Mopaids, lembrou aos ativistas que em 2024 teremos eleições municipais e que a luta contra a aids também deve acontecer nas casas legislativas, com a aprovação de leis que garanta a qualidade de vida de quem vive com HIV ou é afetado por essa epidemia. “Temos que pensar no Legislativo para 2024, temos problemas na comunicação e sabemos que esse ano tem eleição.  A Frente Parlamentar de Luta Contra a Aids e Tuberculose foi esvaziada já esse ano, a troca de cadeiras foi um problema enorme para o movimento, pois não temos comunicação dentro da Câmara. Além disso, não podemos nos esquecer da população em situação de rua que vem sendo afetada pela tuberculose e o HIV/aids.”

Da Coordenadoria de IST/aids da Cidade de São Paulo, Adriano Queiroz, que lidera o setor de prevenção, destacou a importância das ONGs na luta contra a aids na cidade. “As ONGs sempre foram pontos de informações confiáveis em relação à prevenção, nas questões de HIV/aids, um apoio a luta contra o estigma e d preconceito. Os produtos que essas organizações oferecem tem mudado a forma da comunicação, e isso é algo que é muito presente, temos cada vez mais mídias concentradas na população jovem que está nas redes sociais, então é fortalecer as ONGs para conseguir passar informação de forma correta, a comunicação é uma das coisas mais importantes atualmente.”

Boas experiências

A Minha Quebrada Prevenida foi a primeira experiência exitosa a ser compartilhada no evento. De iniciativa do Projeto Bem-Me-Quer, o projeto teve como foco a educação sexual e ações de prevenção de ISTs/aids com jovens da periferia paulistana.

Dayana Dias Carneiro, presidente do Projeto Bem-Me-Quer, explicou que o projeto ocorreu durante 18 meses e a ideia era juntar jovens da periferia de São Paulo. “Escolhemos Perus, Heliópolis, Paraisópolis e Brasilândia para trabalhar. Convidamos as jovens lideranças dessas comunidades para serem capacitadas em prevenção, linguagem acessível e educação entre pares. Nossa intenção sempre foi multiplicadores dessas informações nos coletivos, nas próprias comunidades com o objetivo de que eles soubessem identificar as lacunas e as necessidades da prevenção.”

Segundo Dayana, a ONG usou as redes sociais para que esse jovens, que tinham entre 18 e 30 anos, pudessem compreender e se sentirem incluídos. “Os resultados e impactos foram 20 jovens capacitados em prevenção de IST/aids, cartografia social e georreferenciamento. Também realizamos um seminário, em abril de 2023, como também a produção de folders e um vídeo com alcance de 300 mil pessoas.”

Cinema Mostra Aids

O Cinema Mostra Aids, do Grupo Pela Vidda-SP, também foi destaque no Colóquio. Esse projeto existe há 17 anos e tem como objetivo conscientizar e abrir diálogo sobre a aids por meio de dramaturgias.

Eduardo Barbosa, também do Pela Vidda, explicou que esse tipo de cinema é criado para levar conhecimento através de obras cinematográficas e causar discussões sobre os temas apresentados em cada filme. “O Cinema Mostra Aids é uma tentativa do Grupo Pela Vidda de sair dessa caixinha e levar através da arte e  da cultura um debate para a sociedade. O cinema é uma arma, pois além de marcar histórias também traz discussões sobre o que foi apresentado.”

Ele continua: “Esse projeto busca levar para a população em geral essa comunicação aproveitando as obras cinematográficas, sendo curta, média ou longa metragem. Nossa experiência é exitosa porque nesses dezessete anos conseguimos alcançar um número significativo de espectadores que assistem filmes na mostra e voltam com desejo de saber mais sobre o que foi assistido. Alcançar outros estados também foi de extrema importância para a expansão desse tipo de projeto, que leva o cinema junto com conhecimento.”

Antirretrovirais em Casa

O Instituto Cultural Barong aproveitou o Colóquio para apresente o projeto ART em Casa, que foi criado durante a pandemia da covid-19 e se mantém até hoje como estratégia comunitária e domiciliar de entrega de medicamentos antirretrovirais. Seus êxitos foram voltados para a remessa de medicamentos para aqueles que não conseguem acessar seus medicamentos nas redes de saúde.

Margarete Fernandes, do Barong, contou que este projeto [e transformador. “Fizemos um projeto durante a pandemia que tinha o nome de Balaio, onde disponibilizamos para as populações mais vulneráveis os alimentos, kits de prevenção de ISTs e kits de prevenção de Covid-19.  Nas entregas, percebemos a dificuldade do acesso ao serviço de saúde pelos pacientes, o remédio não chegava nas pessoas. Discutimos sobre entregar medicamentos nas residências e nasceu o ART em Casa com esse objetivo de fazer todas as medicações chegarem para os seus respectivos pacientes, seja pelos Correios ou por entregas pessoais.”

Margarete falou ainda sobre a importância de ouvir e dar voz para as necessidades das pessoas. “Fazemos atendimento jurídico, assistência social e psicológica para pessoas que necessitam dessa ajuda. Quando você ouve, escuta e senta para entender cada pessoa e compreende as necessidades delas, você se depara com outros desafios que precisamos percorrer, temos experiências maravilhosas, mas é necessário sempre avançar um pouco mais.”

Assessoria jurídica

A Seguridade Social, um conjunto de políticas públicas destinadas a garantir proteção social a toda a população, foi tema de discussão no evento. O Grupo de Incentivo à Vida (GIV), que atua justamente na assessora juridicamente as pessoas com HIV/aids, apresentou seu projeto de atuação junto aos aposentados por invalidez.  Em 2019, depois de uma série de reavaliações do INSS, muitas pessoas vivendo com HIV tiveram suas aposentadorias cassadas.

“Recebemos uma enxurrada de mensagens porque as aposentadorias por invalidez tinham sido terminadas, muitas pessoas que não podiam mais entrar no mercado de trabalho por conta da idade ou por não mais existir o cargo que ocupavam sofreram com esse descaso. O GIV ainda não conseguiu restabelecer todas as aposentadorias, mas estamos trabalhando para que isso ocorra o mais rápido possível. O movimento calcula que são 3.500 aposentadorias ao todo para serem restabelecidas”, contou a advogada Fernanda Nigro.

Fernanda aproveitou sua fala para fazer um alerta para as pessoas com HIV/aids que foram desaposentadas e ainda não procuraram a assessoria jurídica. “Estamos procurando o Ministério Público de todos os estados para que o INSS olhe para todas as aposentadorias e restaure para as pessoas afetadas, isso ainda não aconteceu e nem todos sabem que podem restabelecer isso. Nosso pedido é que se vocês tiverem conhecimento de alguém com HIV/aids com aposentadoria cessada, procure nossa assessoria jurídica urgente para o restabelecimento dessa aposentadoria.”

A primeira parte do evento chegou a fim com a reflexão dos participantes sobre as iniciativas apresentadas. Eduardo Barbosa comemorou os avanços e disse que deseja que em 2024 todas as lacunas sejam preenchidas. “Muito importante vir aqui testemunhar cada uma dessas boas coisas, podem ser pequenas ou não, é importante comemorar para que haja incentivo para cada vez mais avançarmos contra a aids, queremos a cura, queremos viver bem e por muito tempo. Precisamos que todos os empecilhos de 2024 sejam vencidos e as pessoas sejam cada vez mais saudáveis.”

O Colóquio das Experiências Exitosas – Construindo Pontes nas Ondas da Comunicação em Aids reuniu dezenas de pessoas de todas as regiões da cidade e marcou o primeiro evento do Mopaids em 2024.

Lygia Cavalcante

Dicas de entrevista

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