“Não podemos transformar uma epidemia controlável em uma tragédia negligenciada”, alerta o ativista Janailson Lobo Giron
Em um momento em que o Brasil volta a discutir os rumos da saúde pública, da participação social e dos direitos humanos, a Coalizão+Brasil prepara o seu 2º Encontro Nacional e Capacitação de Lideranças com um recado direto: a resposta brasileira ao HIV/Aids não pode depender das oscilações políticas do país.
Sob o lema “De Mãos Dadas com o Povo Brasileiro”, o encontro acontece entre os dias 21 e 23 de maio, no Rio de Janeiro, reunindo lideranças, ativistas, organizações de base e movimentos sociais de diferentes regiões do Brasil. A proposta é ambiciosa: fortalecer uma frente ampla da sociedade civil capaz de proteger políticas públicas contra retrocessos, ampliar o controle social e reorganizar a incidência política em defesa do SUS, do SUAS e das populações historicamente invisibilizadas.

Para Janailson Lobo Giron, diretor de comunicação da Coalizão+Brasil, o momento exige vigilância permanente. “A Coalizão+Brasil consolida-se como uma frente ampla e soberana da sociedade civil organizada para assegurar o protagonismo político de movimentos sociais e ativistas na defesa intransigente do SUS, do SUAS e dos Direitos Humanos”, afirma.
Segundo ele, o encontro nasce como uma reação concreta às ameaças que pairam sobre a saúde pública brasileira.
“A realização do 2º Encontro Nacional torna-se uma resposta estratégica à urgência de coordenar esforços contra as desigualdades estruturais e os retrocessos nas políticas públicas voltadas ao HIV/aids, tuberculose e doenças negligenciadas.”
A fala de Janailson ecoa um sentimento crescente dentro dos movimentos sociais: o temor de que conquistas históricas da resposta brasileira ao HIV sejam desmontadas lentamente — não necessariamente por decretos explícitos, mas pela soma do desfinanciamento, da invisibilização e do enfraquecimento da participação social.
“2026 é decisivo porque o Brasil chega a um ponto em que não basta celebrar conquistas históricas: é preciso proteger, consolidar e ampliar aquilo que foi construído com muita luta social”, diz.
Ele lembra que o país acaba de completar quatro décadas de resposta à aids, trajetória marcada pela articulação entre ciência, SUS e sociedade civil. “A própria história da resposta brasileira à aids demonstra que os avanços só aconteceram quando governo, ciência, SUS e sociedade civil caminharam juntos.”
“Nenhuma política pública se sustenta de costas para o povo”
Mais do que um slogan, o lema escolhido pela Coalizão sintetiza uma visão política de país. “Quando a Coalizão+Brasil afirma ‘De mãos dadas com o povo brasileiro’, estamos dizendo que saúde pública, assistência social e direitos humanos não podem ser conduzidos apenas de gabinete, nem definidos por grupos restritos.”
Janailson defende que a formulação das políticas públicas precisa nascer dos territórios e das populações diretamente afetadas.
“Precisam nascer do diálogo com as pessoas vivendo com HIV, pessoas LGBTQIA+, população negra, indígena, quilombola, pessoas em situação de rua, profissionais do sexo, pessoas idosas, juventudes, mulheres e todas as populações historicamente invisibilizadas.”
A crítica da Coalizão também mira a fragilidade das políticas públicas diante das mudanças de governo. “As principais ameaças são: desfinanciamento; redução da participação social; enfraquecimento dos espaços de controle social; descontinuidade de programas entre uma gestão e outra; moralização da saúde pública; estigma contra pessoas vivendo com HIV; invisibilização de populações vulnerabilizadas.”
Para o dirigente, políticas essenciais não podem depender da disposição ideológica de quem ocupa temporariamente o poder. “A Coalizão+Brasil entende que políticas públicas não podem depender da vontade momentânea de governos. Elas precisam ser políticas de Estado.”
“Ser referência não significa estar imune a retrocessos”
Embora o Brasil ainda seja reconhecido internacionalmente pela resposta ao HIV/aids, Janailson faz um alerta contundente: o prestígio histórico não garante proteção automática contra desmontes.
“Sim, o Brasil ainda é uma referência mundial”, afirma. “Mas é preciso dizer com responsabilidade: ser referência não significa estar imune a retrocessos.”
Ele destaca que o reconhecimento internacional foi construído graças à centralidade do SUS, ao acesso universal ao tratamento e à força da sociedade civil organizada.
Ao mesmo tempo, ressalta que desafios antigos seguem vivos: estigma, diagnóstico tardio, desigualdades regionais, dificuldade de acesso às populações mais vulnerabilizadas e enfraquecimento da comunicação pública.
“Existe, sim, um enfraquecimento quando a prevenção deixa de ser prioridade cotidiana e passa a aparecer apenas em campanhas pontuais.”
E dispara: “Prevenção não é cartaz de dezembro. Prevenção é política permanente.”
Na visão da Coalizão, o debate público sobre HIV também vem sendo atravessado por desinformação e conservadorismo, fatores que afastam pessoas dos serviços de saúde e dificultam políticas baseadas em evidências.
“A convergência entre a desinformação e o conservadorismo opera como uma ferramenta de exclusão política que paralisa avanços científicos, deforma o debate sobre direitos reprodutivos e sexuais e cristaliza o estigma.”
Invisibilidade, racismo institucional e abandono
Entre os pontos mais duros da entrevista está a denúncia sobre quem permanece à margem das políticas públicas.
“As populações mais invisibilizadas dentro das políticas públicas são aquelas empurradas para as margens do orçamento e do cuidado pelo racismo institucional e pelo preconceito sistêmico”, afirma.
Janailson cita pessoas vivendo com HTLV, população em situação de rua, migrantes, comunidades quilombolas e pessoas neurodivergentes entre os grupos mais negligenciados. Para ele, garantir continuidade do cuidado vai muito além da entrega de medicamentos.
“Continuidade do cuidado é compreender que uma pessoa não é apenas um exame, uma receita ou um prontuário. É uma vida inteira atravessada por renda, moradia, raça, gênero, território, trabalho, violência, fé, família e pertencimento.”
A Coalizão defende uma atuação integrada entre saúde, assistência social e direitos humanos, além de políticas que enfrentem diretamente as desigualdades estruturais.
“Nosso papel não é ser figurante”

Ao longo da entrevista, Janailson reforça o papel estratégico da sociedade civil na manutenção da democracia sanitária brasileira. “Governos passam. Gestões mudam. Secretários, ministros e coordenadores mudam. Mas quem vive no território permanece.”
Ele afirma que movimentos sociais não podem ser tratados apenas como espaços consultivos simbólicos. “Nosso papel não é ser figurante. Nosso papel é participar da formulação, monitorar a execução, denunciar retrocessos, propor soluções e manter viva a centralidade das pessoas afetadas.”
É justamente nesse sentido que o encontro pretende lançar uma agenda nacional de advocacy para o biênio 2026-2027, incluindo a criação de um manual voltado às organizações de base. “O legado precisa ser este: menos dispersão, mais unidade; menos improviso, mais estratégia; menos invisibilidade, mais incidência política.”
“O HIV continua sendo uma questão urgente”
Apesar dos avanços científicos — incluindo o consenso de que pessoas com carga viral indetectável não transmitem o HIV sexualmente — Janailson alerta para o risco da acomodação social diante da epidemia.
“Infelizmente, não com a urgência necessária”, responde, ao ser questionado se a sociedade brasileira ainda trata o HIV/aids como prioridade. “O HIV continua sendo uma questão urgente porque o estigma continua, o diagnóstico tardio continua, as desigualdades continuam.”
Ele também critica a ausência de educação sexual adequada para a juventude e o impacto do preconceito sobre populações vulnerabilizadas.
“A mensagem da Coalizão é simples: não podemos transformar uma epidemia controlável em uma tragédia negligenciada.”
Entre o alerta e a esperança

Mesmo diante das ameaças, Janailson afirma que a Coalizão não trabalha com estagnação política. “O risco existe, mas também existe uma sociedade civil viva, experiente e comprometida em impedir que o Brasil volte atrás.”
A esperança, segundo ele, está justamente na capacidade histórica de mobilização dos movimentos sociais brasileiros. “A esperança emana da resiliência e da capacidade de mobilização da sociedade civil organizada, que, sob o lema ‘Nada sobre nós, sem nós’, recusa-se a aceitar o retrocesso.”
E conclui com uma mensagem que sintetiza o espírito político do encontro: “Em 2026, a Coalizão+Brasil deixa ao país a mensagem de que a saúde é um direito inalienável e um pilar da soberania nacional que não admite retrocessos ou desmonte orçamentário.”

O 2º Encontro Nacional e Capacitação de Lideranças da Coalizão+Brasil será realizado em formato fechado, reunindo representantes de movimentos sociais, coletivos, redes e organizações da sociedade civil de diferentes regiões do país. Entre os encaminhamentos previstos está o início da construção do Manual Nacional de Advocacy da Coalizão+Brasil, voltado ao fortalecimento do controle social, da participação qualificada e da incidência política nos territórios.
O encerramento contará com um ato público na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, simbolizando a ocupação democrática dos espaços institucionais pela sociedade civil e a defesa permanente das políticas públicas de saúde, direitos humanos e enfrentamento ao HIV/aids.
Redação da Agência de Notícias da Aids
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