CNN: Gestão durante epidemias é feita de aprendizado – por Dr. David Uip

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Ao longo da história, o mundo foi forçado a lutar contra inúmeras doenças. Algumas mudaram o curso da humanidade, ceifando a vida de milhões de pessoas. A cada epidemia, o ser humano precisou compreender como evitar que aquela doença se propagasse com a mesma intensidade no futuro. É obrigação dos gestores encarar esses desafios.

O exemplo mais recente é a pandemia de Covid-19, mas a história de aprendizado e aprimoramento científico vem de muito antes. Em meus anos de atuação na área da infectologia e gestão de saúde pública, precisei lidar com algumas dessas epidemias. Um dos primeiros casos marcantes foi o surto de meningite meningocócica na década de 1970.

A doença registrou milhares de casos e óbitos, provocando suspensão de aulas e superlotação de hospitais. O Instituto Emílio Ribas, em São Paulo, chegou a ter cerca de 1,2 mil pacientes internados simultaneamente, operando quase três vezes acima da própria capacidade.

Algo precisava ser feito. Por conta da meningite, foram criados o Programa Nacional de Imunizações (PNI) e o Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica (SNVE), fundamentais para permitir ações coordenadas no combate a doenças infecciosas.

A estratégia deu resultado. A meta era vacinar 80% da população em São Paulo, onde se concentrava a maioria dos casos, em apenas quatro dias. Cerca de 11 milhões de pessoas foram imunizadas, freando o avanço da meningite. Ninguém reclamava das vacinas, muito pelo contrário. Um contraste triste com o cenário de negacionismo que encontramos durante a pandemia de Covid-19.

Há também os casos de outros vírus antigos que, volta e meia, surgem com novas mutações e variantes, forçando o serviço público de saúde a buscar soluções. O influenza, por exemplo, tem registros desde a Antiguidade, mas os mais confiáveis datam de 1918, com a famosa Gripe Espanhola. Foram mais de 50 milhões de mortes no mundo, evidenciando a necessidade de intensificar as pesquisas científicas na área da saúde.

É importante destacar não apenas o abalo provocado pelas mortes, mas também o efeito social e econômico desses surtos. Pessoas são obrigadas a mudar sua rotina de estudos e trabalho, e planos de investimento de órgãos públicos e privados sofrem alterações. É um impacto duradouro e quase imensurável.

Durante esses surtos infecciosos, é fundamental analisar os aspectos ecológicos, demográficos e sociais da população e como eles influenciam os riscos de contaminação. A partir daí, realizar ações de prevenção e divulgar informações confiáveis, superando a descrença e o negacionismo.

Também é impossível falar de estratégias de prevenção contra epidemias sem citar o “case” brasileiro no combate ao vírus HIV, que tive a oportunidade de acompanhar desde o primeiro caso diagnosticado no país. O Brasil se tornou referência mundial, e a estratégia implantada aqui acabou sendo exportada para diversas nações onde a aids devastava a população.

Um dos maiores desafios, quando o vírus se disseminou, foi tentar diminuir o pânico social e o preconceito direcionado às pessoas no grupo de risco. A Casa da Aids, que criamos em São Paulo, superou estigmas e deu esperança a milhares de pacientes.

Com inúmeras campanhas de conscientização e o tratamento disponibilizado pelo Sistema Único de Saúde, incluindo a distribuição gratuita de medicamentos antirretrovirais, o Brasil se tornou um exemplo de como lidar com uma epidemia desse tipo.

As doenças evoluem, mas, com o tempo, criamos bagagem e técnicas para enfrentá-las. Disponibilizar mecanismos de atuação durante crises sanitárias é fundamental, mas também é preciso investir em pesquisas e vacinas que permitam prevenir essas crises.

Situações desafiadoras costumam abrir oportunidades para o desenvolvimento, e na saúde não é diferente.

* Dr. David Uip é médico infectologista, reitor do Centro Universitário FMABC, diretor nacional de Infectologia da Rede D’Or e professor convidado do Grupo Educacional CEUMA e da MasteryMed. Foi secretário de Estado da Saúde de São Paulo (2013 – 2018)

 

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