Pesquisador da Unifesp e membro da Comissão Científica da AIDS 2026 destaca avanços históricos da ciência, mas alerta que as novas tecnologias ainda demorarão a chegar à população
A 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026) teve início neste domingo (26), no Rio de Janeiro, reunindo pesquisadores, profissionais de saúde, gestores, ativistas e pessoas vivendo com HIV de todo o mundo. Durante a pré-conferência, a jornalista Roseli Tardelli, diretora da Agência Aids, conversou com o pesquisador Dr. Ricardo Diaz, pesquisador e integrante da Comissão Científica da AIDS 2026.
Na entrevista, Dr. Ricardo Diaz destacou que a resposta ao HIV vive um dos momentos mais promissores da história, com medicamentos de longa duração, novas estratégias de prevenção e pesquisas cada vez mais avançadas. Ao mesmo tempo, alertou que a maior batalha deixou de ser apenas desenvolver novas tecnologias e passou a ser garantir que elas estejam disponíveis para toda a população.
Ao avaliar a resposta mundial ao HIV, atribuiu nota 5, afirmando que a epidemia perdeu espaço na agenda internacional, enquanto elogiou o desempenho brasileiro e a política de acesso universal ao tratamento.
Confira a entrevista.
Agência Aids: Quais são suas expectativas para a AIDS 2026?
Dr. Ricardo Diaz: Acho que estamos vivendo um momento muito bom. A expectativa de vida das pessoas aumentou, avançamos na prevenção, no tratamento, no combate ao estigma e à discriminação. Mas precisamos de mais. O que vemos é um desenvolvimento constante de novas estratégias, novos medicamentos para prevenção e tratamento. Estamos falando de tecnologias de ação prolongada e existe a perspectiva de, no futuro, tratar algumas pessoas com apenas uma injeção por ano.
É uma perspectiva extremamente positiva, embora ainda demore para que essas tecnologias estejam disponíveis para todos. Nossa luta não pode ser apenas comemorar os avanços científicos. Precisamos garantir que eles cheguem às pessoas.
Agência Aids: O HIV sempre impulsionou grandes avanços da ciência. Esse protagonismo continua?
Dr. Ricardo Diaz: Sem dúvida. O HIV quebrou paradigmas na medicina. Foi estudando o vírus que aprendemos a entender seu ciclo de vida para desenvolver medicamentos capazes de interromper sua multiplicação. Hoje essa estratégia é utilizada para outras doenças virais, como hepatites e vírus respiratórios. O HIV continua inovando e continua produzindo medicamentos cada vez melhores.
Agora o desafio é fazer com que essas inovações estejam disponíveis para todo mundo.
Agência Aids: A Agência Aids acompanha as conferências internacionais desde 2005 e essa discussão sobre acesso continua presente. O que precisa acontecer para avançarmos?
Dr. Ricardo Diaz: Existe um círculo vicioso. O número de pessoas vivendo com HIV continua crescendo e precisamos sustentar o tratamento de todos elas. Ao mesmo tempo, os medicamentos mais modernos têm custo elevado e os recursos são limitados.
Precisamos reduzir o número de novas infecções para conseguirmos oferecer tratamentos cada vez melhores. Também será necessário negociar a redução dos preços dessas novas tecnologias para que elas possam ser incorporadas aos sistemas públicos de saúde.
Agência Aids: Como o Brasil pode enfrentar esse desafio?
Dr. Ricardo Diaz: Existe uma palavra que marcou a resposta brasileira ao HIV: acesso. Nos Estados Unidos, por exemplo, o acesso ao tratamento gira em torno de 50%. No Brasil é universal. Para conseguirmos manter isso, precisamos usar nossos recursos com inteligência e continuar priorizando o acesso das pessoas aos medicamentos.
Agência Aids: De zero a dez, que nota o senhor dá para a resposta mundial ao HIV?
Dr. Ricardo Diaz: Eu daria nota 5. O HIV acabou saindo um pouco da agenda global. Sempre que surge uma nova crise internacional, a resposta ao HIV perde prioridade.
Agência Aids: E para o Brasil?
Dr. Ricardo Diaz: O Brasil está melhor. Temos um desempenho muito superior. Não esquecemos o HIV e isso me dá muito orgulho de ser brasileiro.
Agência Aids: Qual sua expectativa para esta edição da Conferência Internacional de Aids?
Dr. Ricardo Diaz: É um congresso extremamente amplo. Ele reúne desde projetos comunitários e estratégias de prevenção até as pesquisas mais avançadas em tratamento e cura que estão sendo apresentadas nos simpósios. A expectativa é sempre muito grande porque é um congresso completo. Tem tudo o que precisamos discutir para fortalecer a resposta ao HIV.
A nota 5 atribuída por Dr. Ricardo Diaz à resposta mundial sintetiza um paradoxo vivido atualmente na epidemia. Nunca houve tantas perspectivas promissoras para prevenção e tratamento do HIV, com medicamentos de longa duração e pesquisas inovadoras, mas o acesso continua sendo o principal gargalo. Para o pesquisador, a AIDS 2026 será uma oportunidade para reforçar que ciência e inovação só produzem impacto quando chegam, de forma equitativa, às pessoas que mais precisam delas.
*A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.




