Congresso volta à capital federal após 49 anos e reúne pesquisadores, profissionais de saúde, gestores e sociedade civil para discutir doenças negligenciadas, emergências sanitárias, vacinação e os impactos das desigualdades e das mudanças climáticas sobre a saúde
Brasília voltou a sediar, depois de quase cinco décadas, um dos principais encontros científicos dedicados às doenças tropicais no Brasil e na América Latina. O 61º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (MEDTROP 2026), aberto neste domingo (16), reúne cerca de 4 mil participantes para discutir como ciência, vigilância em saúde, políticas públicas e participação social podem atuar de maneira integrada diante de desafios que vão das doenças negligenciadas às emergências sanitárias provocadas ou agravadas pelas mudanças climáticas.
Realizado no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, o congresso tem como tema “Saúde nos trópicos: uma visão integradora sob a perspectiva do Sul Global”. Pesquisadores, professores, profissionais de saúde, gestores, autoridades e representantes da sociedade civil participam da programação, que coloca no centro das discussões doenças que continuam afetando de maneira desproporcional populações socialmente vulnerabilizadas.
A integração entre a produção científica e as respostas desenvolvidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) foi um dos pontos destacados durante a cerimônia de abertura.
Representando o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, o secretário de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde, Fabiano Pimenta, defendeu que o conhecimento produzido nas universidades, centros de pesquisa e serviços de saúde precisa chegar aos territórios e contribuir efetivamente para a formulação e o aprimoramento das políticas públicas.
Para ele, esse processo também depende da participação da sociedade civil e da construção coletiva de respostas aos problemas de saúde.
“O nosso SUS foi construído e consagrado graças aos vários movimentos da sociedade e, também, das instituições que atuam com seriedade. Ser aliado nesse trabalho tão importante significa produzir evidências, colaborar, realizar críticas construtivas, apresentar sugestões e apontar caminhos para o aprimoramento das políticas públicas”, afirmou.
Doenças também são resultado das desigualdades
Ao abordar as doenças determinadas socialmente, Pimenta chamou atenção para um aspecto que atravessa diferentes debates do MEDTROP: problemas de saúde não podem ser compreendidos apenas a partir de seus componentes biológicos.
Condições de moradia, renda, acesso aos serviços de saúde, saneamento, alimentação, mobilidade e exposição aos efeitos das mudanças climáticas interferem diretamente no risco de adoecimento e na capacidade das populações de acessar prevenção, diagnóstico e tratamento.
Essa relação ganha importância particular no enfrentamento das chamadas doenças tropicais negligenciadas, historicamente associadas à pobreza e às desigualdades sociais.
“O enfrentamento das doenças negligenciadas exige, além do conhecimento científico, fruto das pesquisas e da medicina baseada em evidências, ações intersetoriais voltadas à redução das disparidades sociais e econômicas que impactam diretamente a incidência e a persistência dessas enfermidades”, ressaltou o secretário.
A discussão ganha ainda mais relevância diante da crise climática, que pode modificar padrões de circulação de vetores, ampliar áreas de transmissão de determinadas doenças e aumentar a ocorrência de eventos extremos com impacto direto sobre a saúde das populações.
Ciência e vigilância precisam caminhar juntas
Um dos principais eixos do MEDTROP 2026 é justamente aproximar a pesquisa científica dos sistemas de vigilância e das respostas em saúde pública.
A programação discute caminhos para ampliar a capacidade do país de identificar riscos, antecipar emergências e responder de maneira mais rápida a surtos e epidemias.
Também estão entre os temas prioritários a recuperação e a manutenção das coberturas vacinais, o fortalecimento da vigilância epidemiológica e as estratégias para controlar ou eliminar doenças transmissíveis como problemas de saúde pública.
A proposta é que as evidências produzidas pela ciência não permaneçam restritas aos artigos acadêmicos, mas contribuam para orientar decisões, organizar serviços e melhorar a resposta do SUS nos diferentes territórios.
Doenças negligenciadas ganham espaço central
O enfrentamento das doenças tropicais negligenciadas ocupa uma parcela importante da programação.
As atividades permitem aprofundar discussões sobre doenças que, embora conhecidas há décadas e muitas vezes preveníveis ou tratáveis, continuam atingindo milhões de pessoas, especialmente em territórios marcados pela pobreza, por dificuldades de acesso ao diagnóstico e tratamento e pela ausência ou insuficiência de políticas públicas.
O encontro reúne ainda especialistas de diferentes países, ampliando a troca de experiências sobre problemas de saúde que não respeitam fronteiras e exigem respostas articuladas entre governos, pesquisadores, profissionais e comunidades.
A realização da 61ª edição em Brasília também carrega um significado histórico.
O primeiro congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical foi realizado em 1962, em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Desde então, o MEDTROP se consolidou como um dos principais espaços brasileiros de discussão científica sobre medicina tropical, doenças infecciosas, vigilância e saúde pública.
A última edição realizada na capital federal havia ocorrido em 1977. O retorno a Brasília acontece, portanto, 49 anos depois, em um momento em que o país e o mundo enfrentam desafios sanitários cada vez mais conectados às desigualdades sociais, às transformações ambientais e à circulação internacional de pessoas e doenças.
Olhar do Sul Global
Ao escolher como tema a perspectiva do Sul Global, o MEDTROP 2026 também propõe discutir soluções construídas a partir das realidades dos países tropicais.
A ideia é fortalecer a produção de conhecimento científico em regiões que concentram uma parcela expressiva da carga de doenças infecciosas e negligenciadas, mas que historicamente enfrentam desigualdades no financiamento de pesquisas, no acesso a novas tecnologias e na capacidade de produção de medicamentos, vacinas e insumos de saúde.
Nesse contexto, a cooperação científica internacional aparece não apenas como espaço de troca de conhecimento, mas também como instrumento para ampliar a autonomia dos países.
O debate dialoga com estratégias brasileiras de fortalecimento da produção nacional de vacinas, medicamentos e outras tecnologias em saúde, além da expansão do Complexo Econômico-Industrial da Saúde.
Redação da Agência de Notícias da Aids




