Ciência, ativismo e resistência: como a maior conferência sobre HIV do mundo ajudou a transformar a resposta global à epidemia

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

Criada quando o HIV ainda era cercado de medo, desinformação e poucas respostas, a Conferência Internacional de Aids tornou-se o principal espaço mundial de debate sobre ciência, políticas públicas, direitos humanos e participação comunitária. Em 2026, a 26ª edição será realizada no Rio de Janeiro.

Muito antes de o HIV deixar de ser uma sentença de morte e se transformar em uma condição crônica tratável, cientistas, médicos, ativistas e pessoas vivendo com o HIV/aids buscavam respostas para uma epidemia que avançava rapidamente, cercada de medo, estigma e incertezas. Foi nesse cenário que nasceu, em 1985, a Conferência Internacional de Aids.

Realizada pela primeira vez em Atlanta, nos Estados Unidos, a conferência surgiu como um encontro voltado à troca de conhecimento científico sobre uma doença ainda pouco compreendida. Quatro décadas depois, tornou-se o maior fórum mundial dedicado ao HIV, reunindo pesquisadores, profissionais de saúde, gestores públicos, lideranças políticas, organizações comunitárias e pessoas diretamente afetadas pela epidemia.

Sua trajetória acompanha a própria evolução da resposta global ao HIV. Ao longo dos anos, o encontro testemunhou descobertas científicas que mudaram o curso da epidemia, acompanhou o desenvolvimento da terapia antirretroviral, impulsionou debates sobre prevenção e acesso ao tratamento e consolidou-se como um espaço estratégico para discutir direitos humanos, financiamento, equidade e participação social.

Mais do que apresentar resultados de pesquisas, a conferência passou a influenciar políticas públicas e a pressionar governos e organismos internacionais por respostas mais rápidas e efetivas diante da epidemia.

1985: the year the AIDS crisis finally broke through the silence | Advocate.com

O início de uma resposta global

Quando a primeira edição foi realizada, em 1985, a epidemia ainda avançava sem tratamentos eficazes. A comunidade científica buscava compreender o comportamento do vírus, suas formas de transmissão e as doenças oportunistas associadas à aids, enquanto governos e sistemas de saúde tentavam responder a uma crise sanitária sem precedentes.

Organizada com o apoio da Organização Mundial da Saúde (OMS), dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) e de importantes instituições de pesquisa, a conferência tinha, naquele momento, um perfil predominantemente científico e era conduzida, sobretudo, por pesquisadores e autoridades de saúde pública.

Mas o crescimento acelerado da epidemia e do próprio evento mostrou rapidamente que seria necessário criar uma estrutura permanente para coordenar esse esforço internacional.

26th Special Session of the General Assembly on HIV/AIDS (25-27 June 2001, New York) | United Nations

O nascimento da International Aids Society

Foi nesse contexto que, em 1988, surgiu a International Aids Society (IAS), organização sem fins lucrativos criada para coordenar as Conferências Internacionais de Aids e fortalecer a cooperação científica mundial.

Em seus primeiros anos, a missão da IAS era garantir a continuidade do encontro e representar a comunidade científica em um período marcado pelo pânico, pela desinformação e pela intensa estigmatização das pessoas que viviam com HIV. Com o tempo, porém, sua atuação tornou-se muito mais ampla.

Um artigo publicado em 2006 por Pedro Cahn, então presidente da IAS, e Craig McClure, diretor-executivo da organização, relembra que a entidade nasceu para organizar as conferências bienais, mas passou por uma importante transformação em 2004, quando profissionalizou sua estrutura e transferiu sua sede para Genebra, na Suíça. A mudança aproximou a organização das principais agências internacionais de saúde, das Nações Unidas e de organizações não governamentais que atuavam na resposta global ao HIV.

A partir daí, a IAS deixou de ser apenas a organizadora das conferências para assumir um papel permanente na produção e disseminação do conhecimento científico, na formação de profissionais, na defesa de políticas públicas baseadas em evidências e na articulação internacional em torno da resposta à epidemia.

2024 25th International AIDS Conference Scholarship Programme – Oppourtunities Forum

Quando o ativismo mudou a história da conferência

A transformação mais profunda da Conferência Internacional de Aids, no entanto, não aconteceu dentro dos laboratórios. Ela aconteceu quando as pessoas diretamente afetadas pela epidemia decidiram ocupar aquele espaço.

As edições de Montreal, em 1989, e de São Francisco, em 1990, marcaram uma mudança definitiva na identidade do encontro. Pela primeira vez, o debate científico passou a dividir protagonismo com as reivindicações dos movimentos sociais.

Em Montreal, ativistas defenderam uma estratégia governamental mais robusta para enfrentar a epidemia e exigiram participação efetiva das pessoas vivendo com HIV nas pesquisas clínicas e na organização das próprias conferências.

No ano seguinte, em São Francisco, os protestos ganharam ainda mais força. A resposta considerada insuficiente do governo dos Estados Unidos à epidemia levou manifestações para dentro do evento e consolidou uma mudança que nunca mais seria revertida: a sociedade civil deixava de ocupar um papel periférico para se tornar uma das protagonistas da Conferência Internacional de Aids. Desde então, ciência e ativismo passaram a caminhar lado a lado.

Essa convivência nem sempre foi tranquila. Houve tensões, confrontos e disputas sobre prioridades, financiamento e acesso às inovações. Mas foi justamente desse diálogo — muitas vezes duro, porém indispensável — que surgiu uma das características mais marcantes da conferência: a compreensão de que nenhuma resposta ao HIV pode ser construída apenas dentro dos laboratórios.

As comunidades mais afetadas passaram a reivindicar não apenas acesso aos avanços científicos, mas participação nas decisões políticas, na definição das prioridades da pesquisa e na construção das estratégias de enfrentamento da epidemia. Essa mudança redefiniu para sempre o papel da conferência e ajudou a transformar a própria resposta mundial ao HIV.

 

De encontro científico a um fórum global

Nas décadas seguintes, a Conferência Internacional de Aids deixou de ser um encontro predominantemente médico para se transformar em um dos mais influentes fóruns de saúde pública do mundo.

O crescimento refletia não apenas os avanços da ciência, mas a compreensão de que enfrentar o HIV exigia muito mais do que pesquisas em laboratório. Era preciso discutir acesso aos tratamentos, fortalecimento dos sistemas de saúde, financiamento, combate às desigualdades e garantia dos direitos humanos.

A expansão foi rápida. O evento passou a reunir milhares de participantes de diferentes áreas do conhecimento e consolidou um modelo que reúne pesquisadores, profissionais de saúde, gestores públicos, organizações comunitárias, movimentos sociais e representantes de organismos internacionais.

Esse novo perfil levou a IAS a revisar o formato da conferência. Entre as prioridades estavam fortalecer a qualidade científica, ampliar a diversidade dos participantes, incentivar a presença de jovens pesquisadores e estimular o diálogo entre diferentes áreas do conhecimento.

Ao mesmo tempo, a conferência assumia um papel cada vez mais político. O encontro tornou-se um espaço de cobrança a governos, organismos internacionais e financiadores, acompanhando o cumprimento dos compromissos assumidos na resposta global ao HIV.

23rd International AIDS Conference and COVID-19 Conference

A revolução científica mudou o rumo da epidemia

Se o ativismo redefiniu a identidade da conferência, a ciência transformou seu conteúdo. Nas primeiras edições, os debates estavam concentrados na compreensão do vírus, de suas formas de transmissão e das infecções oportunistas que marcavam a fase mais dramática da epidemia.

Na década de 1990, a chegada da terapia antirretroviral combinada mudou esse cenário de forma definitiva. Pela primeira vez, tornou-se possível controlar a infecção, reduzir drasticamente a mortalidade e transformar o HIV em uma condição crônica para milhões de pessoas.

A partir daí, as discussões passaram a girar em torno de um novo desafio: garantir que essa revolução científica chegasse a todos.

Como ampliar o acesso aos medicamentos? Como reduzir as desigualdades entre países ricos e pobres? Como fazer com que os avanços alcançassem as populações mais vulneráveis? Essas perguntas passaram a orientar boa parte dos debates das edições seguintes.

Com o avanço das pesquisas, outros temas ganharam protagonismo, como prevenção combinada, profilaxia pré e pós-exposição (PrEP e PEP), prevenção da transmissão vertical, desenvolvimento de vacinas, busca pela cura, enfrentamento do estigma e das discriminações e a consolidação do conceito Indetectável=Intransmissível (I=I), que demonstrou que pessoas em tratamento e com carga viral indetectável não transmitem o HIV por via sexual.

The ACT UP Historical Archive: ACT UP @ Vancouver 1996 International AIDS Conference

Uma conferência para aprofundar a ciência

O amadurecimento das pesquisas levou a IAS a criar, em 2001, um evento inteiramente dedicado aos avanços científicos sobre HIV: a IAS Conference on HIV Pathogenesis and Treatment, posteriormente rebatizada como IAS Conference on HIV Science.

A proposta não era substituir a Conferência Internacional de Aids, mas complementá-la.

Enquanto a conferência internacional continuava reunindo ciência, políticas públicas, direitos humanos e participação comunitária, o novo encontro passou a concentrar discussões sobre pesquisa básica, estudos clínicos, implementação de tecnologias e incorporação das evidências científicas às políticas de saúde.

Ao mesmo tempo, a IAS ampliava sua atuação para além da organização de eventos, investindo em programas permanentes de educação, advocacy, formação de lideranças e produção de conhecimento científico.

Treatment Action Campaign march at the International AIDS Conference,... | Download Scientific Diagram

Muito além das conferências

Essa expansão se consolidou em 2004, com a criação do Journal of the International AIDS Society (JIAS), periódico científico voltado à divulgação de pesquisas e à promoção de uma resposta ao HIV baseada em evidências.

Pouco depois, dirigentes da IAS passaram a defender que as conferências deixassem de ser eventos isolados para integrar um processo permanente de formação, intercâmbio de experiências e fortalecimento de redes de colaboração. A proposta ganhou novos instrumentos ao longo dos anos.

Em 2016, foi criado o Educational Fund, iniciativa que leva atualizações científicas a profissionais e organizações que nem sempre conseguem participar presencialmente das grandes conferências internacionais.

Cinco anos depois, a IAS passou também a sediar a HIV Research for Prevention (HIVR4P), conferência voltada exclusivamente à pesquisa em prevenção do HIV.

Realizada em formato virtual durante a pandemia de Covid-19, a edição de 2021 reuniu participantes de 92 países e evidenciou outro legado da resposta ao HIV: a infraestrutura científica construída ao longo de décadas contribuiu de forma decisiva para o desenvolvimento de vacinas e tratamentos durante a emergência sanitária causada pelo novo coronavírus.

The HIV pandemic: time to recalibrate and target the weak spots

Ciência, política e comunidades no mesmo espaço

Ao ampliar sua atuação, a IAS consolidou-se como uma das principais articuladoras globais da resposta ao HIV. Essa vocação se reflete na própria Conferência Internacional de Aids.

Os resultados das pesquisas apresentados no evento dialogam com experiências dos serviços de saúde, relatos de pessoas vivendo com HIV, propostas de organizações comunitárias, reivindicações de movimentos sociais e decisões de gestores e formuladores de políticas públicas.

A convivência entre esses diferentes atores tornou-se uma das maiores marcas da conferência.

Ao longo de sua história, o encontro demonstrou que nenhuma descoberta científica produz impacto sozinha. Para chegar às pessoas, ela depende de financiamento, sistemas de saúde fortalecidos, decisões políticas e do enfrentamento das desigualdades que ainda limitam o acesso à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento.

Past conferences | International AIDS Society (IAS)

Conferências que marcaram a história da epidemia

Ao longo de mais de quatro décadas, a Conferência Internacional de Aids acompanhou alguns dos momentos mais decisivos da resposta global ao HIV.

Em 1996, em Vancouver, no Canadá, a apresentação dos resultados da terapia antirretroviral combinada mudou para sempre a perspectiva de milhões de pessoas ao demonstrar que era possível controlar a infecção e reduzir drasticamente a mortalidade.

Quatro anos depois, em Durban, na África do Sul, a conferência voltou os olhos do mundo para as profundas desigualdades no acesso aos medicamentos e para a devastação provocada pela epidemia no continente africano. A partir dali, o debate sobre equidade e acesso universal ao tratamento ganhou dimensão global.

Nas edições seguintes, novos temas passaram a ocupar o centro das discussões: prevenção combinada, financiamento internacional, direitos humanos, combate ao estigma, pesquisa por vacinas e cura, fortalecimento dos sistemas de saúde e protagonismo das comunidades.

Mais do que refletir os avanços da ciência, cada conferência passou a registrar os principais desafios políticos e sociais enfrentados pela resposta ao HIV em diferentes momentos da história.

IAS 2023, the 12th IAS Conference on HIV Science | IAS 2023 | International AIDS Society (IAS)

Uma conferência cada vez mais global

Em 2023, a IAS anunciou uma política de rotação entre as cinco grandes regiões do mundo para sediar suas conferências presenciais.

A medida busca ampliar a diversidade geográfica dos encontros, aproximar o debate dos diferentes contextos da epidemia e fortalecer a participação de regiões historicamente sub-representadas.

A decisão também reforça uma característica que acompanha a conferência desde sua criação: embora o HIV seja um desafio global, sua resposta assume características próprias em cada país e em cada território.
O Rio de Janeiro no centro do debate mundial

Entre os dias 26 e 31 de julho de 2026, o Rio de Janeiro sediará a 26ª Conferência Internacional de Aids, reunindo especialistas, gestores, organizações comunitárias, pesquisadores, ativistas e lideranças políticas de diversos países.

Segundo a IAS, a expectativa é de receber cerca de 10 mil participantes, entre atividades presenciais e virtuais. O retorno da conferência à América Latina acontece em um momento particularmente desafiador.

Embora os avanços científicos tenham transformado o enfrentamento da epidemia, persistem obstáculos relacionados às desigualdades sociais, ao estigma, às dificuldades de acesso à prevenção e ao tratamento e às incertezas sobre o financiamento internacional dos programas de HIV.

A programação da Aids 2026 reunirá sessões científicas, comunitárias e de liderança política, além da tradicional Global Village, espaço dedicado ao encontro entre organizações da sociedade civil, movimentos sociais, iniciativas comunitárias e pessoas vivendo com HIV.

Para o Brasil, receber a principal conferência mundial sobre HIV representa também o reconhecimento de uma trajetória construída ao longo de décadas na defesa do acesso universal ao tratamento, ao mesmo tempo, recoloca a América Latina no centro de um debate que continua em permanente transformação.

AIDS 2026, the 26th International AIDS Conference | AIDS 2026 | International AIDS Society (IAS)

Uma história que continua sendo escrita

Quando a primeira Conferência Internacional de Aids abriu suas portas, em Atlanta, em 1985, o mundo ainda buscava compreender um vírus desconhecido, diante de uma epidemia marcada pelo medo, pela ausência de tratamentos e pelo preconceito. Desde então, a resposta ao HIV mudou profundamente.

A ciência desenvolveu medicamentos capazes de transformar o HIV em uma condição crônica para milhões de pessoas. Novas estratégias de prevenção ampliaram as possibilidades de controle da epidemia. Movimentos sociais conquistaram espaço nas decisões políticas. Pessoas vivendo com HIV deixaram de ser apenas destinatárias das políticas públicas para se tornarem protagonistas de sua construção.

A própria Conferência Internacional de Aids acompanhou — e muitas vezes impulsionou — essa transformação.

Mais do que um encontro científico, consolidou-se como um espaço onde evidências, experiências, ativismo e decisões políticas se encontram para definir os rumos da resposta global ao HIV.

Sua história demonstra que nenhuma descoberta científica produz impacto por si só. Para salvar vidas, ela precisa ser acompanhada de financiamento, sistemas de saúde fortalecidos, compromisso político e respeito aos direitos humanos.

É justamente nesse encontro entre ciência e sociedade que a Conferência Internacional de Aids construiu sua relevância ao longo de mais de quatro décadas. E é essa mesma combinação que continuará definindo os próximos capítulos da resposta mundial ao HIV.

Redação da Agência de Noticias da Aids

* A Agência de Notícias da Aids vai cobri a 26ª Conferência Internacional de Aids com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da Cidade de São Paulo.

Apoios