
A cidade de São Paulo alcançou um feito inédito no Brasil: o município registrou 30 mil usuários de PrEP (Profilaxia Pré-Exposição ao HIV). De acordo com o painel de monitoramento da PrEP do Ministério da Saúde, já são são 118.761 pessoas cadastradas no país, sendo destas, 64,4 mil pessoas em uso.
Em São Paulo, segundo o levantamento da Coordenadoria Municipal de IST/Aids, dos 30 mil cadastros de PrEP na cidade, aproximadamente 18 mil fazem uso desta profilaxia.

Mas afinal, o que é a PrEP? A Agência Aids conversou com o coordenador de Prevenção da Coordenadoria de IST/Aids de São Paulo, Adriano Queiroz, que respondeu essa e outras perguntas.
A PrEP, de acordo com o Ministério da Saúde, é indicada para pessoas que não vivem com HIV. A profilaxia consiste na tomada de comprimidos antes da relação sexual, que permitem ao organismo estar preparado para enfrentar um possível contato com o HIV. Ou seja, é a combinação de dois medicamentos (tenofovir + entricitabina) que bloqueiam alguns “caminhos” que o HIV usa para infectar o organismo. Existem duas modalidades de PrEP indicadas: a PrEP diária e a PrEP sob demanda.
No seu formato clássico, a PrEP consiste na tomada diária de medicamentos. Já a PrEP sob demanda, entra como uma alternativa para as pessoas não querem, não conseguem ou nem mesmo precisam tomar o remédio todos os dias, já que praticam apenas atividades sexuais esporádicas, com frequência menor do que 2 vezes por semana.
Basicamente, a medicação não muda, o que muda é a forma de se tomar. O esquema sob demanda se inicia com dois comprimidos que devem ser tomados de 2 a 24 horas antes da exposição sexual, seguidos de 1 comprimido após 24 horas e 1 comprimido após 48 horas.
A pessoa em PrEP realiza acompanhamento regular de saúde, com testagem para o HIV e outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST).
Em entrevista exclusiva à Agência, Adriano garantiu que o avanço do acesso à PrEP na cidade está relacionado com o olhar estratégico e multifacetado da equipe municipal, além dos esforços e compromisso de ampliar o acesso a essa forma de prevenção. “Desde que a profilaxia chegou a São Paulo, alguns meses depois (janeiro de 2018) de ser implementada oficialmente no Brasil (final de 2017) no âmbito do SUS (Sistema Único de Saúde), a cidade tem ampliado cada vez mais a oferta.”
“Quando a PrEP foi implementada no SUS, começamos a ofertar a profilaxia em serviços que não estavam localizados na região central; percebemos que a maior parte das pessoas que tinham acesso a profilaxia eram homens, brancos e cis gêneros com alto grau de escolaridade, então decidimos colocar nas pontas, nas franjas da cidade e depois então expandimos para todos os serviços da Rede Municipal Especializada (RME) em IST/Aids”, falou.
Marcadores de impacto
Atualmente, cerca de 87% dos usuários de PrEP na cidade são homens cisgêneros, dos quais 81% são Homens que Fazem Sexo com Outros Homens (gays, bissexuais) e 6% são homens heterossexuais; aproximadamente 10% são mulheres cis; cerca de 3% são mulheres trans e aproximadamente 0,4% são travestis.
Com relação à orientação sexual, em média 73% dos usuários são homossexuais/gays/lésbicas, 15% são bissexuais e 12% heterossexuais.
No que diz respeito à escolaridade, os números apontam que 64% possuem ensino médio completo ou ensino superior (12 anos ou mais); 31% possuem escolaridade de 8 a 11 anos e aproximadamente 4% possuem de 4 a 7 anos.
Considerando raça/cor, 55% dos usuários se autodeclaram brancos, 29% se autodeclaram pardos e 14% se autodeclaram pretos.
Outro dado que chama atenção é que 39% das pessoas em uso de PrEP na cidade têm entre 15 e 29 anos. O quantitativo restante se distribui em diferentes faixas etárias acima dos 30 anos (o grupo percentual mais expressivo é o de jovens, especialmente dos 15 aos 29).
Adriano reconhece que há muito ainda a ser feito, mas celebra que o perfil de acesso à prevenção tem se tornado cada vez mais democrático.
De acordo com o entrevistado, outro ponto alto no trabalho articulado é que ‘‘nas periferias e nos serviços não centralizados, há diversificação na oferta’’.
Descentralização da PrEP
Para além dos serviços de IST/Aids da rede, que atualmente são 28, a equipe aposta assiduamente no trabalho de campo, levando prevenção segura e eficaz diretamente a quem mais precisa. “Nós realizamos a PrEP na rua, ou seja, a oferta da ProfilaxiaPré-Exposição em ambiente comunitário, que fazemos com apoio de uma unidade móvel ou em parceria com os locais que nos permitem realizar este tipo de atividade extramuros”, destacou Adriano.
Ainda segundo ele, as ações de prevenção, sobretudo a oferta da PrEP, acontece em diferentes espaços com objetivo de contemplar os mais diversos públicos, a dinâmica da cidade, e com foco nas populações mais vulneráveis à infecção pelo HIV [São consideradas populações-chave: travestis, transexuais, homens gays e HSHs, profissionais do sexo, pessoas privadas de liberdade e usuários de drogas].
“Temos feito um trabalho muito importante junto as profissionais do sexo! Nós vamos em campos, tanto de rua quanto em casas prostituição…”.
Adriano Queiroz também comentou que são realizadas ações prevenção junto a jovens e adolescentes em bailes funks, por exemplo. Uma estratégia pensada para este público que frequenta os grandes bailes, é ofertar a profilaxia antes do início dos pancadões.
CTA da Cidade
Mais um ponto frisado pelo especialista em prevenção, foi o lançamento do CTA da Cidade, em 2021. Este Centro de Testagem e Aconselhamento em IST/Aids consiste em uma unidade de saúde itinerante/móvel, que roda a cidade de São Paulo nos locais mais vulneráveis. “A gente percebe as dificuldades que muitas pessoas têm de chegar aos serviços, então temos mais essa oportunidade de acessar a prevenção, de quinta, sexta e sábado, das 16h às 21h, já que a prevenção via CTA da Cidade também faz oferta de PrEP.”

Novos espaços de prevenção
O responsável não deixou para trás a recém-inaugurada Estação de Prevenção Jorge Beloqui, no metrô República. O serviço com horário de atendimento não convencional, atende quem passar pela estação das 17h às 23h, de terça a sábado. Para Adriano, este é mais um projeto que chega para somar com louvor. E junto à Estação Jorge Beloqui, foi lançado o S-PREP, que é o mais novo serviço online. Segundo o entrevistado, a novidade consiste em uma plataforma digital dentro do aplicativo E-Saúde para requerimento da profilaxia.
PrEP online
Outra iniciativa que pode explicar o avanço do acesso a PrEP na cidade de São Paulo é a telemedicina. Há pouco mais de um mês a Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal da Saúde, lançou o canal SPrEP no aplicativo e-saúdeSP.
O canal é uma alternativa de acesso às profilaxias pré e pós-exposição (PrEP e PEP), via teleconsulta, com prescrição online e retirada de medicamentos no mesmo dia do atendimento e em horários alternativos aos serviços de saúde tradicionais.
O SPrEP disponibiliza consultas médicas todos os dias da semana (incluindo feriados), das 18h às 22h. Até agora qual 3 mil pessoas já acessaram a iniciativa. Clique aqui e acesse
“A PrEP tem se mostrado uma ferramenta eficaz na prevenção do HIV, mas ainda enfrentamos desafios para alcançar diversos grupos vulneráveis”, diz Queiroz.
“O que a gente tem feito é sair dos nossos muros! Realmente ainda muitas pessoas têm mais dificuldades de acesso, seja dificuldades individuais, sociais ou estruturais. Com relação às dificuldades sociais e estruturais, temos tentado diminuir as barreiras estruturais, com uma política de prevenção que abarque a multiplicidade da dinâmica da cidade”, complementa.
Adriano Queiroz entende ser fundamental estratégias ampliadas e interligadas para se reduzir a disseminação do vírus, bem como acredita que o comprometimento das autoridades e o envolvimento da sociedade civil são fatores-chaves. Para ele, essa compreensão conjunta, explica experiências e resultados exitosos no munícipio. Mas diante dos desafios, o mesmo reafirma o compromisso paulistano na luta contra a aids, sem deixar o cuidado e expertise da juventude para trás.
A atividade sexual dos brasileiros têm se iniciado cada vez mais cedo, e Adriano destaca que “temos vistos em pesquisas que o número de pessoas que usam preservativos nas relações sexuais e também nas primeiras relações sexuais tem diminuído. Então, que os jovens, sejam eles heterossexuais, homossexuais ou bissexuais, possam ter acesso a uma prevenção ampliada, para além da camisinha”.
“Qualquer jovem ou adolescente hoje pode acessar a PrEP sem um responsável. É super importante garantir o direito da juventude a prevenção, porque se obrigatoriamente fosse necessário ter acompanhamento de um adulto, muitos jovens estariam ainda mais vulneráveis, porque não poderiam falar sobre sua sexualidade, atividades sexuais… a gente sabe que tem preconceito, moralismo, tabus… então temos que garantir o direito a saúde da população jovem!”
Kéren Moraes (keren@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
Coordenadoria Municipal de IST/Aids de SP
Tel.: (11) 2027-2196
E-mail: comunicacao.istaids@prefeitura.sp.gov.br


