Cidadãs Posithivas reagem ao anúncio de eliminação da transmissão vertical do HIV no Brasil: “Comemoramos, mas seguimos vigilantes diante de 150 crianças infectadas por ano”

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No dia 1º de dezembro, Dia Mundial de Luta contra a Aids, o Ministério da Saúde anunciou que o Brasil alcançou a eliminação da transmissão vertical do HIV — quando o vírus é passado da mãe para o bebê durante a gestação, parto ou amamentação. O marco, reconhecido internacionalmente, indica que o país atingiu índices inferiores a 2% de transmissão entre bebês expostos, tornando-se referência global em prevenção, cuidado e políticas públicas.

A notícia, celebrada amplamente por especialistas e instituições, ecoou com força entre as mulheres que historicamente têm lutado por direitos, cuidado e visibilidade: as ativistas do Movimento Nacional de Cidadãs Posithivas (MNCP), organização que desde sua fundação mantém a transmissão vertical como pauta prioritária.

Para elas, o anúncio vem acompanhado de alertas fundamentais: eliminação não significa erradicação, o problema não está resolvido e 150 crianças ainda nascem com HIV por ano no país. Além disso, entre 7 e 8 mil bebês seguem expostos ao vírus anualmente.

Suas reações revelam orgulho, emoção, mas também alertas urgentes sobre continuidade, vigilância e justiça social.

A seguir, a repercussão completa do MNCP — na voz de quem viveu, acompanhou e transformou a história da resposta brasileira ao HIV/aids.

“Temos que comemorar, mas com cautela” – Silvia Aloia

“A transmissão vertical me é um tema muito caro, tanto como ativista quanto como gestante com HIV em 1991, época em que não se tinha nada, e a possibilidade do HIV e da transmissão vertical (TV) era apavorante. Aos poucos, pesquisas e tecnologias ocuparam espaços em que o pavor e o medo iam se transformando em esperança para pessoas não morrerem e mães terem seus filhos com a possibilidade de não ter HIV.

A notícia de eliminação nos é promissora. Nós do MNCP temos a transmissão vertical em pauta desde sua fundação. Lembramos, tristes, de épocas muito duras, de muita mortalidade, de muito, muito sofrimento — tanto para as pessoas com HIV como para as crianças que nasciam e morriam — e as que não partiram começaram sua adolescência e viveram sua juventude com HIV, o que sabemos que é devastador.

Algumas ativistas do MNCP fazem parte da Equipe Nacional de Validação da Certificação da Eliminação da Transmissão Vertical do HIV e de outras patologias, avaliando o eixo de Direitos Humanos e Igualdade de Gênero. Tem sido uma experiência ímpar, visto que, quando vamos aos municípios, expomos vivências e formas que poderiam ser diferentes para, por exemplo, mostrar situações que afastam mulheres dos serviços, como o julgamento, o estigma e o preconceito.

Além disso, a certificação possibilita que os municípios se debrucem nos indicadores, propiciando que haja uma comunicação eficaz entre as equipes. Este processo de solicitação da certificação motiva as equipes das unidades básicas, das especializadas e das maternidades, e fortalece a comunicação e as linhas de cuidado, ou seja: se fala mais, se reflexiona mais, se faz mais. Também sentimos que os serviços de saúde se sentem motivados a mostrar seu trabalho, muitas vezes invisível.

Temos que comemorar, mas com cautela, porque, quando falamos em eliminação, as pessoas entendem que crianças não nascem mais com HIV — mas isso é a erradicação, e não a eliminação. E, para nós, 1 criança com HIV importa: queremos zero transmissão vertical.

Nós do MNCP estamos juntas no processo e atentas para que toda violação dos direitos humanos e da igualdade de gênero seja enfrentada e respeitada.”

“É possível viver a maternidade com segurança” – Fabiana Oliveira

“A certificação da eliminação da transmissão vertical do HIV, ao meu ver, é uma mostra da capacidade do Brasil em atingir metas quando se propõe, e há investimento e coordenação política.

Demonstra que, se os serviços de saúde estiverem bem estruturados, fornecendo de fato acesso a testes, tratamento e acompanhamento pré-natal, garantindo os direitos humanos — principalmente às mulheres em situação de vulnerabilidade — o país consegue superar desafios significativos de saúde pública.

Essa conquista, para as mulheres, independente de condição sorológica, é uma segurança de que é possível viver a maternidade com segurança e saúde para ela e o bebê. Ainda, para as que vivem com HIV/aids, o processo de certificação exige uma força-tarefa que contribua para reduzir o estigma e as dificuldades sociais que muitas mulheres grávidas vivendo com HIV enfrentavam.”

“Que eliminação?” – Nair Brito traz o alerta: 150 crianças ainda nascem com HIV ao ano

“Que eliminação? 150 crianças se infectam por ano e 7 a 8 mil estão expostas. Não é sobre números e estatísticas, mas sobre crianças infectadas.

E a resposta deles será a seguinte: eliminação é diferente de erradicação. E a eliminação é um índice menor que 2%. Sei de tudo isso, mas sou ativista e também posso criar parâmetros a partir desse lugar.

E o parâmetro é: nenhuma criança nascendo com HIV. Daí eu comemoro.”

 

“Quando o SUS é fortalecido, vidas são transformadas” – Renata Soares de Souza

“Para nós, mulheres vivendo com HIV, e para o MNCP, a eliminação da transmissão vertical não é apenas um marco sanitário — é a prova viva de que, quando o Estado investe, quando o SUS é fortalecido e quando a participação social é respeitada, vidas são transformadas.

Essa conquista nasce da luta das mulheres que nunca aceitaram estigma, negligência ou silêncio. É resultado direto da mobilização dos movimentos, que pressionam, denunciam retrocessos e garantem que políticas públicas cheguem a quem mais precisa.

Mas também é um chamado: não podemos permitir que essa vitória seja tratada como ponto final. Precisamos de continuidade de financiamento, de insumos garantidos, de pré-natal qualificado e do compromisso político de enfrentar desigualdades que ainda adoecem e matam.

Celebramos, sim — mas celebramos sabendo que só com organização e vigilância permanente essa conquista será mantida. Seguiremos mobilizadas para que nenhum governo transforme nossos direitos ou dificulte seus avanços.”

Silvia Almeida: memória das mulheres que viveram a gestação no início da epidemia

“Tive um filho em 1991. Em final de 1993, descobri que estava com HIV, e o meu marido, na época, já doente de aids. Eu não havia feito nenhum teste; não sei se era consenso, mas, como fiz pré-natal pelo serviço privado, pelo convênio, não me foi solicitado nenhum teste de HIV. Acredito eu que não era ainda consenso testar a mulher para o HIV durante a gestação, como é hoje.

Hoje, 31 anos depois — 40 anos depois do HIV — eu fico muito feliz em participar desse programa de eliminação da transmissão vertical. Nós crescemos muito em tecnologia, em informação. Hoje, as nossas crianças têm possibilidade de não nascerem infectadas com HIV.

Eu tive parto normal, amamentei, meu filho não teve HIV, mas acredito que foi providência divina para não dizer que foi pura sorte. Então, hoje, ver o Brasil eliminar transmissão vertical, eliminar as dores de uma mãe que não pode amamentar, que não pode… que terá que ter o seu filho infectado, é muito triste.

Então hoje eu fico muito feliz que essa política existe e que a gente está caminhando cada vez mais para que não seja necessário nascer crianças com HIV. E nós estamos empenhados nesse trabalho, nessa luta.

Tenho muito orgulho em fazer parte de uma das equipes de validação da eliminação da transmissão vertical do HIV e da sífilis e, junto a isso, levar cada vez mais informação.”

“Eu quero ir além: quero erradicar” – Jenice Pizão

“Sem dúvida, é um avanço — um avanço muito grande. Sinto grande satisfação em integrar uma das equipes dedicadas à eliminação da transmissão vertical do HIV e da sífilis, ao mesmo tempo em que disseminamos informações relevantes. Eu acho lindo, muito importante a gente eliminar, a gente cumprir as metas da OMS. Mas eu quero muito mais do que metas — eu quero que não exista nenhuma criança infectada pelo HIV. Eu quero que o serviço de saúde funcione em todo o Brasil, em todos os cantos desse país. Eu quero profissionais de saúde sensibilizados; eu quero que não haja fome e miséria; que o acesso ao sistema de saúde seja igual para todos, para que ninguém deixe de fazer o pré-natal, para que todos consigam ter qualidade de vida.

É sonho? É. Mas eu vivo de sonhos. E, por outro lado, é isso que angustia todos nós. Ainda temos 150 crianças que nascem com HIV por ano no Brasil — esse foi o dado do último ano. Aí você pode dizer: ‘ah, mas nasceram quantas crianças no país?’ Tudo bem, 150 é um número muito pequeno. A gente conseguiu a eliminação. Pelos dados da OMS, temos menos de 2% dos nascidos vivos com HIV. Isso é fantástico. Mas ainda são 150 crianças com HIV. São 150 pessoas que vão viver com HIV pelo resto da vida.

Ah… temos medicamentos? Sim, temos. Mas ainda temos estigma, preconceito, todas as dificuldades que o HIV traz. Então, vamos ter 150 crianças que vão ter que se esconder na escola, com medo que os colegas descubram. Vamos ter 150 adolescentes que vão se envergonhar, que podem querer terminar a própria vida. Vamos ter 150 jovens que talvez abandonem o tratamento.

Eu quero erradicar. Eu quero ir além. Eu não posso ficar contente com a eliminação — eu quero erradicar. Nosso objetivo enquanto movimento é erradicar esse agravo.”

Maria Elisa, do MNCP – núcleo São Paulo: ‘Saúde reprodutiva de qualidade’

“Como mulher vivendo com aids há quase quarenta anos, essa conquista aumenta ainda mais a expectativa de que estamos no caminho certo, não só para conseguir eliminar a aids como problema de saúde pública no Brasil, como também de que estamos rumo à cura. Saber que não teremos mais crianças nascendo com HIV é algo que demonstra o trabalho feito na base, onde a informação é transmitida para as mulheres vivendo com HIV/aids e as políticas garantem os direitos a uma saúde reprodutiva com qualidade.”

Entre celebração e vigilância: as vozes das mulheres que fazem a resposta ao HIV no Brasil

As falas das integrantes do MNCP mostram que o anúncio do Ministério da Saúde é recebido com reconhecimento da importância histórica do marco, mas também com profunda consciência de que a eliminação não significa fim do problema.

Elas celebram o fortalecimento do SUS, os avanços tecnológicos, a queda drástica de transmissão e o impacto direto na vida de mães e bebês. “O Brasil tem motivo para comemorar — mas só haverá vitória completa quando nenhuma criança nascer com HIV e quando todas as mulheres, sem exceção, tiverem acesso pleno, digno e humano à saúde.”

Redação da Agência de Notícias da Aids

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Site: www.mncp.org.br

E-mail: secretarianacionalmncp@gmail.com

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