Estudos desenvolvidos pelo CRT-DST/Aids-SP e pelo Instituto de Infectologia Emílio Ribas serão apresentados na maior conferência mundial sobre HIV e mostram como a ciência produzida no SUS tem contribuído para responder às transformações da epidemia
Embora os avanços científicos tenham transformado o HIV em uma condição crônica tratável para milhões de pessoas, a epidemia continua impondo desafios que vão muito além do acesso aos medicamentos. O aumento do uso de drogas em contexto sexual, as dificuldades enfrentadas por mulheres trans e travestis para permanecerem em tratamento, as barreiras de acesso à Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), as desigualdades raciais e sociais e a necessidade de reorganizar os serviços de saúde estão entre os temas que mobilizam pesquisadores brasileiros e serão debatidos durante a 26ª International Aids Conference (Aids 2026), que acontece entre os dias 26 e 31 de julho, no Rio de Janeiro.
Parte importante dessas discussões será conduzida por pesquisadores do Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids do Estado de São Paulo (CRT-DST/Aids-SP) e do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, que levarão à conferência um conjunto de estudos desenvolvidos a partir da experiência cotidiana dos serviços públicos de saúde. As pesquisas traduzem em evidências científicas questões observadas no atendimento diário de pessoas vivendo com HIV e de populações historicamente mais vulnerabilizadas, oferecendo subsídios para aprimorar estratégias de prevenção, qualificar o cuidado e fortalecer políticas públicas.
Mais do que apresentar resultados acadêmicos, os trabalhos revelam como a epidemia continua em transformação. Em comum, procuram compreender como fatores sociais, comportamentais e estruturais influenciam o acesso à prevenção, a permanência no tratamento e a qualidade do cuidado, contribuindo para que as respostas ao HIV acompanhem as mudanças no perfil da epidemia.
Ciência produzida a partir da realidade dos serviços
Os trabalhos que serão apresentados durante a conferência refletem uma característica que acompanha a trajetória das duas instituições: transformar a prática assistencial em conhecimento científico.
As pesquisas nasceram dentro dos próprios serviços especializados, onde milhares de pessoas vivendo com HIV, usuários da PrEP, pessoas que buscam testagem para HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis (IST), além de populações historicamente mais vulnerabilizadas, são acompanhadas diariamente por equipes multiprofissionais.
Essa proximidade entre assistência, pesquisa e vigilância permite que os estudos não apenas descrevam a realidade observada nos serviços, mas também produzam evidências capazes de aperfeiçoar protocolos clínicos, fortalecer políticas públicas e orientar novas estratégias de prevenção e cuidado.
Entre os principais temas levados à conferência estão o crescimento do chemsex, os desafios para ampliar o acesso à PrEP entre pessoas trans, a organização da oferta da Profilaxia Pós-Exposição (PEP) após situações de violência sexual, a redução das desigualdades estruturais no cuidado, o monitoramento epidemiológico da epidemia e novas ferramentas de gestão baseadas em dados. São pesquisas que dialogam diretamente com os desafios enfrentados diariamente pelos serviços de saúde e pelas populações mais afetadas pela epidemia.
Chemsex e saúde mental: um desafio crescente para os serviços
O estudo sobre chemsex analisa a prática caracterizada pelo uso intencional de substâncias psicoativas durante relações sexuais, principalmente entre homens que fazem sexo com homens.
A pesquisa foi conduzida pelo médico Lucas Rocker Ramos, da Unidade de Pesquisa do CRT-DST/Aids-SP e do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, por meio do estudo GLOW, desenvolvido em um serviço de referência em HIV e infecções sexualmente transmissíveis da capital paulista.
O objetivo foi compreender a frequência da prática e identificar fatores associados ao uso de drogas em contexto sexual entre pessoas vivendo com HIV, usuários de PrEP e indivíduos atendidos para testagem e aconselhamento.
Os participantes responderam a um questionário estruturado e autoaplicável, abordando características sociodemográficas, saúde mental, comportamento sexual e consumo de substâncias psicoativas. Os resultados mostraram uma elevada frequência do chemsex, acompanhada por importante coexistência de transtornos psiquiátricos, uso de aplicativos de relacionamento e participação em eventos sexuais.
Segundo o dr. Lucas Rocker Ramos, compreender esse fenômeno exige olhar para além do consumo de drogas.
“Na prática da infectologia temos observado um aumento do uso de drogas em contexto sexual, principalmente entre homens que fazem sexo com homens. Também sabemos que a população LGBT apresenta, proporcionalmente, maior prevalência de transtornos psiquiátricos. Queríamos entender como esses fatores se relacionam dentro de um serviço de referência”, explica.
Os resultados reforçam, segundo o pesquisador, a necessidade de integrar prevenção ao HIV, redução de danos e atenção à saúde mental.
Outro achado importante foi a dificuldade que muitos usuários ainda enfrentam para conversar com profissionais de saúde sobre o uso de substâncias.
“Percebemos que muitos usuários ainda encontram barreiras para falar sobre o consumo de drogas. Isso demonstra que os próprios serviços podem reproduzir estigmas em relação às pessoas que fazem esse relato”, afirma.
Para ele, acolher essas demandas de forma qualificada é essencial para fortalecer o vínculo entre usuários e serviços.
“Precisamos compreender que, muitas vezes, o uso de drogas é consequência do estresse vivido ao longo de toda a vida por uma população que enfrenta diferentes formas de preconceito e discriminação. Manter as portas abertas para essas demandas espontâneas contribui para melhorar o autocuidado, aumentar a adesão ao tratamento e às estratégias de prevenção e fortalecer a eficácia da prevenção combinada.”
Pesquisa acompanha uma década de cuidado à população trans
Outra pesquisa que integra a delegação paulista na Aids 2026 volta o olhar para um dos maiores desafios da resposta ao HIV: garantir que pessoas trans permaneçam vinculadas aos serviços de saúde e mantenham o tratamento de forma contínua.
Desenvolvido pela infectologista Victória Spínola Duarte de Oliveira, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, o estudo foi realizado na Casa da Pesquisa, vinculada ao CRT-DST/Aids-SP, e analisou dez anos de acompanhamento de mulheres trans e travestis vivendo com HIV atendidas em uma clínica pública especializada.
A investigação avaliou diferentes fatores relacionados ao abandono do tratamento e à falha virológica, entre eles os esquemas terapêuticos utilizados, histórico de falhas anteriores, comorbidades e o uso de substâncias psicoativas.
Segundo a pesquisadora, o objetivo foi identificar quais fatores estão associados aos piores desfechos clínicos para essa população e produzir evidências capazes de orientar estratégias mais efetivas de cuidado.
“O estudo foi desenvolvido na Casa da Pesquisa, vinculada ao CRT, e analisou fatores de risco associados ao abandono do tratamento e à falha virológica na população trans, especialmente o impacto do uso de substâncias psicoativas nesses desfechos”, explica Victória.
Para isso, foram revisados dez anos de acompanhamento clínico de mulheres trans e travestis vivendo com HIV, permitindo compreender de forma mais aprofundada quais aspectos interferem na continuidade do tratamento e no alcance da supressão viral.
Um retrato amplo da resposta ao HIV
Serão apresentados ainda um conjunto de estudos que retrata diferentes dimensões da epidemia e das políticas públicas de enfrentamento ao HIV.
Os trabalhos abrangem desde a prevenção combinada até vigilância epidemiológica, organização dos serviços, governança baseada em dados e redução das desigualdades no acesso ao cuidado, demonstrando a diversidade de pesquisas desenvolvidas nos serviços públicos paulistas. Confira:
- Impacto das infecções sexualmente transmissíveis na interrupção do tratamento e na falha virológica entre pessoas transfemininas vivendo com HIV (Impact of sexually transmitted infections on treatment discontinuation and virological failure among transfeminine people living with HIV in a reference center in São Paulo, Brazil: data from the Transbordar study)
- Uso de silicone industrial entre mulheres trans e travestis e seus impactos na adesão ao cuidado em HIV (Use of Industrial Silicone Among Trans Women and Travestis and Its Impact on Adherence and Retention in HIV Care)
- Tendências da epidemia de HIV segundo raça e faixa etária no Estado de São Paulo (Trends HIV epidemic in the race, age group population – São Paulo, Brazil)
- Redução da transmissão vertical do HIV em São Paulo entre 2010 e 2024 (Declining perinatally acquired HIV in São Paulo, Brazil (2010–2024): Surveillance Strengthening and Case Closure of Infant Exposed to HIV)
- Crack, outras substâncias psicoativas e seus impactos na cascata do cuidado entre pessoas transfemininas vivendo com HIV (Crack cocaine and psychoactive substances: Impact on the HIV care cascade in a cohort of transfeminine people in a STI and HIV health service)
- Estratégias para ampliar o acesso à PrEP entre pessoas trans no Estado de São Paulo (Strategies to Expand Access to PrEP for Transgender People in the State of São Paulo)
- Chemsex e suas implicações para a prevalência do HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis entre homens que fazem sexo com homens (Chemsex and its implications for HIV and STDs prevalence among MSM in São Paulo, Brazil: findings to support the development of care pathways)
- Redução das desigualdades estruturais no cuidado em HIV por meio de governança estadual baseada em dados (Reducing Structural Inequities in HIV Care Through a Statewide Governance and Data-Driven Intervention in Brazil)
- Ciência da implementação aplicada à PEP: como a capacidade do sistema de saúde influencia o acesso após violência sexual (Implementation science applied to PEP: how health system capacity (24/7 emergency care) and ARV management shape access after sexual violence)
- Inovações baseadas em dados para monitoramento e avaliação do Programa de Boas Práticas em HIV/aids (Data-driven innovations in monitoring and evaluation in the HIV/AIDS Best Practices Program to accelerate the elimination of AIDS as a public health problem)
- Muito além do início da PrEP: experiências de mulheres cisgênero e transgênero em um serviço de prevenção (Beyond uptake: qualitative insights into PrEP among cisgender and transgender women in a prevention reference service in São Paulo, Brazil)
- Trajetórias e determinantes da permanência na PrEP entre mulheres cisgênero e transgênero em São Paulo (Trajectories and determinants of retention on HIV pre-exposure prophylaxis among cisgender and transgender women in São Paulo, Brazil: a retrospective cohort study)
- Fortalecimento da vigilância e encerramento de casos de crianças expostas ao HIV (Declining perinatally acquired HIV in São Paulo, Brazil (2010–2024): Surveillance Strengthening and Case Closure of Infant Exposed to HIV)
- Mais do que apresentar resultados em uma conferência, os pesquisadores levam ao maior encontro mundial sobre HIV experiências construídas no cotidiano dos serviços públicos brasileiros, demonstrando que ciência, assistência e compromisso com os direitos humanos continuam sendo pilares fundamentais para responder aos desafios atuais da epidemia.
* A Agência de Notícias da Aids vai cobri a 26ª Conferência Internacional de Aids com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da Cidade de São Paulo.
Redação da Agência de Notícias da Aids



