
O que é Chemsex? Quais os impactos e riscos associados? Essas e outras perguntas foram respondidas na mesa redonda “Drogas Psicoativas e Sexo”, no XIV Congresso da Sociedade Brasileira de DST, em Florianópolis.
Esta mesa, por Ivone de Paula, psicologa e gerente de Prevenção da Coordenação Estadual de IST/Aids de São Paulo, mergulhou na interseção entre substâncias psicoativas e sexualidade, destacando a prevalência e impacto, especialmente em populações mais vulneráveis, como HSHs (homens que fazem sexo com homens).
Ivone começou sua apresentação discorrendo sobre o contexto do Chemsex (Sexo Químico). De acordo com a especialista, o conceito não se trata de quem usa drogas psicóticas, mas sim daqueles que recorrem ao uso destas substâncias para intensificar suas experiências sexuais, motivadas por questões diversas. Nesse sentido, a palestrante enfatizou que vivemos em uma sociedade que muitas vezes impõe padrões estéticos e pressões sobre o desempenho sexual. ‘‘Muitos indivíduos recorrem devido à timidez, a fim de se soltarem mais e buscar uma experiência sexual mais intensa’’. Além disso, o desejo de atender a esses padrões de desempenho sexual também é uma motivação, conforme exemplificou a especialista.

“Vivemos em umas a sociedade que nos exige muito”, falou. Estes padrões impostos socialmente, segundo a psicóloga, são nocivos podendo causar impactos consideráveis não somente na saúde física, mas também na saúde mental, e podem expor os indivíduos a um risco acrescido às IST/HIV/aids. No entanto, destacou que as pessoas são livres para viverem sua sexualidade, e sugeriu abordagens não moralistas.
A prática que é particularmente comum em festas que se estendem por 3/4 dias, possui uma concentração significativa na população gay e de HSHs. Ivone de Paula ressaltou que o tipo de substância utilizada pode variar consideravelmente de acordo com as especificidades e o contexto de cada país. Ela também observou que algumas dessas substâncias podem ter implicações legais [por serem categorizadas como drogas ilícitas]. Portanto, em seu entendimento, é fundamental que os profissionais de saúde sejam amplamente capacitados no assunto e que acolham os adeptos nos espaços de saúde de forma humanizada. ‘‘Dessa forma, as pessoas se sentirão confortáveis em abrir-se com o profissional, sem o receio de serem denunciadas à polícia’’.
‘‘Hoje em dia, muitos profissionais se esquecem de perguntar se o paciente faz uso de alguma substância’’, afirmou.
‘‘Seria legal se a gente tivesse um protocolo, que nos orientasse para que a gente [profissionais de saúde] soubesse o que fazer quando chega alguém no consultório, seja na atenção básica ou no serviço especializado […] assim como existe, por exemplo, todo um protocolo a ser feito em casos de violência’’, opinou.
Para além, chamou atenção para a qualidade da droga utilizada. ‘’A gente não sabe [o contexto socioeconômico] de cada sujeito, mas provavelmente a qualidade da droga usada [pelos mais pobres] é pior; e quanto mais componentes ela tiver, pior será para a qualidade de vida das pessoas’’, falou ao reforçar que políticas públicas de enfrentamento às desigualdades sociais, estratégias de acolhida e de redução de danos são fundamentais.
A congressista aproveitou o gancho comentando acerca de como aplicativos de namoro e sexo desempenham um papel significativo na facilitação dessas experiências, conectando pessoas com interesses semelhantes. Nesse sentido, destacou que ‘‘é lá que a prevenção e a conscientização [também] tem que estar’’.

A especialista em saúde sexual antes de finalizar sua contribuição, elencou algumas dicas de redução de danos e outros cuidados extras que podem ser adotados para minimizar os riscos relacionados, são eles:
- Oferta de PrEP e PEP (Profilaxia pré e pós-exposição ao HIV)
- Vacinação contra a Hepatite A e B
- Construção de uma rede protetiva de confiança entre laços familiares e/ou de amizade
- Acompanhamento integral em saúde mental
- Promoção do respeito com zero discriminação
”Existem drogas que podem levar à morte, e que o linear entre a dose social e a dose fatal é muito próximo, questão de milímetros”, explicou.
”Temos que trabalhar com questões de redução de danos. Se a gente não abrir os olhos e entender que as substâncias psicoativas são uma questão de saúde pública, e lutarmos por zero discriminação, as pessoas [vão continuar] não tendo acesso à informação e possibilidades”, finalizou.
Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)
A equipe da Agência Aids está cobriu os Congressos com o apoio do Departamento de HIV/ Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e ISTs, do Ministério da Saúde
Dica de entrevista
XIV Congresso da SBDST, X Congresso Brasileiro de Aids e V Congresso Latino Americano de IST/HIV/Aids
Tel.: (41) 3022-1247
CRT DST/Aids de SP



