Chemsex: é preciso capacitar os profissionais que atendem os praticantes do sexo químico, diz Dr. Fábio Mesquita

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O uso de drogas psicoativas para turbinar as relações sexuais – o chamado chemsex ou sexo aditivado – tem sido cada vez mais frequente. Para debater sobre a prática, o Instituto Multiverso convidou o médico epidemiologista Fábio Mesquita, reconhecido internacionalmente por sua trajetória no combate à Aids e outras infecções sexualmente transmissíveis, para abrir o 2º Seminário Brasileiro Sobre Chemsex, na noite de sexta-feira (5), em São Paulo. Atual secretário de Saúde no Guarujá, o especialista mergulhou na interseção entre substâncias psicoativas e sexualidade, destacando a prevalência e o impacto, especialmente em populações mais vulneráveis.

“O sexo químico, hoje, é um tema global. É uma nova forma de contaminação que está crescendo diante da ascensão de políticas conservadoras pelo mundo inteiro. Entender os motivos que levam à prática é um passo importante na tentativa de diminuir a incidência”, comentou Fábio.

Origem e expansão do chemsex

Chemsex é uma abreviação de chemical sex, que em inglês significa, literalmente, sexo químico. Esse comportamento consiste no uso de drogas – geralmente sintéticas – durante as relações, e surgiu na Europa no fim dos anos 1990.

No Brasil, vem sendo observado o crescimento da prática após a pandemia de Covid-19. Especialistas apontam que o uso de metanfetamina nas relações afeta principalmente homens gays, bissexuais e que fazem sexo com outros homens.

Uma pesquisa online realizada com 2.361 HSH revelou que 38,9% deles utilizaram o chemsex durante a pandemia e que, em 95% dos casos, a prática foi realizada com parceiro casual. O estudo, assinado por nove pesquisadores brasileiros e três portugueses, está disponível na plataforma digital de artigos científicos SciELO.

A busca por transas mais duradouras e desinibidas é o principal motivo que leva as pessoas a aderirem ao chemsex, também comum em filmes pornográficos (seja em produções profissionais ou amadoras). Aumento da vulnerabilidade às infecções sexualmente transmissíveis, alto potencial viciante, possibilidade de overdose e prejuízos à saúde mental são os principais riscos da prática.

Atenção à saúde e desafios no atendimento

Dr. Fábio Mesquita ressaltou que o tipo de substância utilizada pode variar consideravelmente de acordo com as especificidades e o contexto de cada país. Ele também observou que algumas dessas substâncias podem ter implicações legais — por serem categorizadas como drogas ilícitas. Portanto, em seu entendimento, é fundamental que os profissionais de saúde sejam amplamente capacitados no assunto e que acolham os adeptos nos espaços de saúde de forma humanizada.

“Dessa forma, as pessoas se sentirão confortáveis em abrir-se com o profissional, sem o receio de serem denunciadas à polícia. Hoje em dia, os profissionais não perguntam aos pacientes sobre o consumo de alguma substância”, comentou.

Estratégias para vencer o conservadorismo

Para o especialista, falar sobre sexo e uso de drogas de maneira aberta e informativa é fundamental para quebrar estigmas associados a essas práticas. A educação e a elucidação sobre o tema ajudam a desfazer mitos e preconceitos, promovendo uma cultura de cuidado e respeito.

O médico relembrou seu trabalho dentro da Secretaria de Saúde de Santos na década de 1990, quando, em meio à alcunha de “capital da aids”, a cidade criou o primeiro programa municipal da doença no Brasil, tornando-se referência no combate à aids no mundo inteiro.

“Nós criamos políticas inovadoras para a época, como a distribuição gratuita de camisinhas em todas as unidades de saúde, seringas para os usuários de drogas e até uma policlínica voltada aos profissionais do sexo. Isso gerou muita reação por parte da opinião pública. Diziam que estávamos incentivando as pessoas a praticarem sexo e a usarem drogas, mas foi uma política de redução de danos muito eficaz”, relatou.

Dr. Fábio relacionou o contexto da época com o mundo atual e lembrou casos de políticos conservadores que aderiram às ações de redução de danos durante a epidemia de HIV/aids.

“Um dos primeiros programas de redução de danos no Brasil foi feito na Bahia por Antônio Carlos Magalhães, que era um médico e político de direita. Também temos que lembrar que um dos países que melhor lidou com a epidemia de HIV/aids foi a Inglaterra de Margaret Thatcher. Isso mostra que o pragmatismo não está relacionado com ideologia. É uma solução efetiva”, disse.

Redução de danos e comunicação eficaz

Dr. Fábio Mesquita elencou algumas dicas de redução de danos e outros cuidados que podem ser adotados para minimizar os riscos relacionados à prática do chemsex, como as ofertas de PrEP e PEP, e a construção de um canal amplo de comunicação do poder público direcionado às pessoas em situação de vulnerabilidade, entre outros.

“A cidade de São Paulo tem hoje um dos melhores programas de prevenção do Brasil. Quase 50% da PrEP do país está aqui na cidade. Temos que aproveitar isso para ampliar a rede de atendimento. Aprender a trabalhar nas redes sociais e nos aplicativos vai ser essencial. Hoje, é a melhor forma de chegar às pessoas que queremos chegar. Tem que ser um trabalho diferente daquele método clássico do boca-a-boca. Claro que esse método ainda é importante, mas temos que usar o mundo digital para ampliar a nossa rede de comunicação.”

Artur Garcia, especial para a Agência de Notícias da Aids

Dica de entrevista

Instituto Multiverso
Site: www.institutomultiverso.org

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