12/01/2007 – 14h40
Era a sua primeira consulta ginecológica. E o fato foi presenciado por milhões de brasileiros. Na noite desta quinta-feira (11/01), a novela “Páginas da Vida” exibiu uma cena em que a adolescente Gisele (Pérola Faria), de 15 anos, se consulta com a médica ginecologista Selma (Elisa Lucinda). A jovem está preocupada com os riscos de uma gravidez precoce, pois em uma oportunidade o seu parceiro não usou preservativo durante a relação sexual (“a gente deu uma bobeira”, explica a personagem). A médica, após oferecer alguns preservativos para a jovem, ressalta que “a camisinha é muito importante, imprescindível, não tem método que a substitua”. “E você não pode esquecer que além de evitar a gravidez, ela é a única que te proteje das doenças sexualmente transmissíveis”, afirma a personagem interpretada pela atriz Elisa Lucinda. A abordagem foi elogiada por ativistas e especialistas em TV ouvidos pela Agência de Notícias da Aids.
Na opinião da jornalista Leila Reis, crítica de TV do jornal O Estado de São Paulo, para que esse tipo de ação (conhecida como “merchandising social”) funcione, é necessário que os temas sejam tratados com “naturalidade”. “Não pode parecer uma campanha do Ministério da Saúde”, explica. “É um jeito de fazer televisão que mudou muito nos últimos anos. Não tem uma novela que não tenha uma bandeira [algum tema de notória relevância social], especialmente às do Manoel Carlos [autor de “Páginas da Vida”]”, avalia Reis.
A jornalista entende que, “há mais ou menos dez anos”, as redes televisivas, sobretudo a TV Globo, têm “se esforçado para prestar esse serviço para a população”. Leila Reis considera que, principalmente no caso dos programas voltados para os adolescentes, a emissora carioca “tem se portado direitinho”. “A Malhação teve uma época que falava muito disso [merchandising social]”, lembra Reis. Segundo a revista Balanço Social, em 2004, o programa “Malhação” liderou o ranking de inserções sociais da TV Globo com 462 ações. Naquele ano, foram 1.008 iniciativas desse tipo em todos os programas da rede.
“Eu tive uma impressão positiva. Foi uma abordagem amigável”, avalia Luciano Milhomem, mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade de Brasília (UNB), sobre a cena exibida na noite de ontem pela novela global. Ele acredita que a abordagem foi correta porque seria importante “destacar”, sobretudo para os jovens, que o uso da camisinha protege não apenas da Aids, mas da gravidez não planejada ou de qualquer outra doença sexualmente transmissível (DST). Na opinião de Milhomem, a abordagem da novela é, inclusive, uma forma de “driblar o preconceito, pois muita gente abre mão da camisinha porque sabe (ou acha) que não tem HIV e confia no parceiro.”
Contudo, ele lembra que merchandising social pode trazer equívocos, “mesmo quando bem intencionados.” Milhomem explica que, quando o Ministério da Saúde ou “outra organização” pede a inserção de algum tipo de ação social, o merchandising social “geralmente é bem feito porque tem uma supervisão, mas quando parte apenas da Globo, às vezes, acontecem equívocos”. Após tecer elogios, ele crítica duramente a abordagem da novela em relação ao personagem soropositivo, ao menos quando analisada a cena (transmitida no início de dezembro de 2006) em que o médico Diogo (interpretado por Marcos Paulo) diz que o paciente é portador do vírus da Aids sem fazer qualquer tipo de exame (saiba mais sobre a polêmica). “Ali eu já acho que não foi feliz [a abordagem em relação ao personagem soropositivo do folhetim]. Como o Manoel Carlos é vítima também, acredito que ele não fez de propósito”, contemporiza o especialista em TV, lembrando que o autor da novela perdeu um filho vítima da pandemia da Aids.
Beth Franco, psicóloga do Projeto Viver Criança e Adolescente do Grupo de Incentivo a Vida (GIV), achou “interessante” a abordagem da médica. “É uma abordagem diferente do que a gente está acostumada. A questão do direito da sexualidade da jovem. Isso é um pouco mais próximo da realidade”, acredita Franco. A psicóloga avalia o exemplo como importante, pois “atinge um número muito grande de pessoas”.
Léo Nogueira



