Pesquisadores apresentaram resultados promissores sobre bloqueio do CCR5, imunoterapia com células NK e novas tecnologias para identificar reservatórios virais, reforçando caminhos para futuras estratégias de cura do HIV
A sessão “Desvendando o controle do HIV: genética do hospedeiro, imunidade e o caminho para a cura”, realizada durante a AIDS 2026, reuniu pesquisadores de diferentes países para apresentar avanços na compreensão dos mecanismos que permitem ao HIV persistir mesmo durante a terapia antirretroviral (TARV). O foco foi mostrar como a interação entre fatores do hospedeiro e características do vírus pode abrir novas possibilidades para estratégias de cura.
Na abertura, o pesquisador Dr. Keith Crawford, do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID/NIH), destacou que a proposta da sessão era integrar diferentes áreas da pesquisa.
“Esta sessão explorará como os fatores do hospedeiro e os fatores virais se interconectam para moldar a persistência e a remissão do HIV. Ao integrar conhecimentos provenientes de controladores naturais, controladores pós-tratamento e estudos de transplante ou edição gênica, buscamos identificar interações entre hospedeiro e vírus que possam ser aproveitadas para desenvolver estratégias de cura da próxima geração.”
O infectologista brasileiro Dr. Ricardo Sobhie Diaz, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), reforçou que alcançar a cura exige uma abordagem multidisciplinar.
“No HIV, precisamos eliminar as células infectadas. Para isso, precisamos de uma pesquisa abrangente em imunologia, virologia e genética.”

Bloqueio do CCR5 pode ampliar estratégias de cura
O primeiro palestrante, Dr. Jonah Sacha, da Oregon Health & Science University, revisitou o papel do correceptor CCR5, conhecido por sua importância na entrada do HIV nas células.
Estudos recentes apresentados por Dr. Jonah Sacha sugerem que a ausência do CCR5 não é, isoladamente, a responsável pelos casos de cura observados após transplantes de medula óssea. Os resultados indicam que a eliminação do reservatório viral depende principalmente da resposta imunológica desencadeada pelo transplante.
“Descobrimos que o principal motor da eliminação do reservatório de HIV após um transplante é a imunidade alogênica, o chamado efeito enxerto contra reservatório.”
Os experimentos também mostraram que o bloqueio do CCR5 exerce um papel complementar ao proteger as células do doador durante esse processo.
“O papel da deficiência de CCR5 é muito provavelmente proteger as células T do doador durante o período em que elas estão sendo enxertadas.”
O pesquisador apresentou resultados obtidos com um anticorpo monoclonal capaz de bloquear o CCR5 e mimetizar essa proteção. Em modelo animal, a estratégia foi associada à eliminação do reservatório viral detectável.
“Quatro meses e meio após a interrupção da terapia antirretroviral não houve sinais de rebote viral. Com base em todos os dados analisados, concluímos que é muito provável que tenha ocorrido cura.”
Dr. Sacha anunciou ainda que um estudo clínico está sendo preparado para avaliar essa estratégia em pessoas que necessitam de transplante de células-tronco por leucemia.

Células NK ganham destaque na eliminação do reservatório
A pesquisadora Dra. Priti Kumar, da Yale School of Medicine, apresentou uma estratégia voltada para estimular o sistema imunológico a eliminar células infectadas.
Seu grupo utiliza um composto mimético de CD4 que expõe proteínas do envelope viral, permitindo que anticorpos e células NK reconheçam e destruam células infectadas.
“A GP120 é o único antígeno viral expresso na superfície das células infectadas. Ao induzir uma mudança conformacional, o mimético de CD4 expõe epítopos vulneráveis e permite que anticorpos promovam a eliminação dessas células.”
Os resultados mais expressivos foram obtidos quando a intervenção foi iniciada logo no começo da terapia antirretroviral, reduzindo de forma mais profunda o reservatório viral e permitindo o controle prolongado da infecção mesmo após a suspensão do tratamento.
“A maioria dos camundongos alcançou controle pós-tratamento duradouro. O controle viral persistiu por meses após a interrupção da TARV.”
As análises também mostraram que esse efeito depende de uma ação coordenada do sistema imunológico. Enquanto as células NK são fundamentais para eliminar as células infectadas e reduzir o reservatório viral, a manutenção do controle da infecção após a interrupção da terapia está associada à atuação das células T CD8.
“As respostas das células T CD8 foram necessárias para manter o controle viral, com enriquecimento de células citotóxicas menos exaustas e com características semelhantes às observadas em controladores naturais do HIV.”

Reservatório viral ativo ainda guarda muitas respostas
A pesquisadora Dra. Nadia Roan, da Universidade da Califórnia em San Francisco (UCSF), concentrou sua apresentação na caracterização do chamado reservatório viral ativo — conjunto de células que continuam produzindo RNA viral apesar da supressão da carga viral.
“Embora a terapia antirretroviral suprima a replicação do HIV, ela não representa uma cura. Quando a terapia é interrompida, o vírus geralmente retorna em poucos meses.”
Para compreender melhor esse reservatório, seu grupo desenvolveu duas novas tecnologias de sequenciamento em célula única: HIV-seq e HIV-Flex.
Para compreender melhor o reservatório viral ativo, a equipe desenvolveu duas novas ferramentas de sequenciamento em célula única, chamadas HIV-seq e HIV-Flex, capazes de identificar células extremamente raras que continuam produzindo RNA do HIV mesmo em pessoas com carga viral suprimida pela terapia antirretroviral. Além de permitir uma caracterização mais detalhada dessas células no sangue, as tecnologias estão sendo aplicadas na análise de tecidos como linfonodos, intestino e trato reprodutivo, onde o vírus também pode persistir.
As análises também revelaram diferenças importantes entre homens e mulheres na composição do reservatório viral. Ao avaliar amostras de pessoas em supressão viral, a pesquisadora observou que, entre as mulheres, a frequência de células que continuam transcrevendo RNA do HIV aumenta com o envelhecimento — um achado que pode estar relacionado ao período pós-menopausa e que reforça a necessidade de considerar as diferenças biológicas entre os sexos nas pesquisas sobre cura.
“As frequências dessas células positivas para RNA do HIV aumentam com a idade nas mulheres, enquanto esse efeito não foi observado nos homens.”
A pesquisadora destacou ainda que o reservatório presente nos tecidos vem se mostrando um dos principais desafios atuais.
“HIV-seq e HIV-Flex permitem detectar com sensibilidade células ativas do reservatório em pessoas sob terapia antirretroviral e agora estamos expandindo essas análises para tecidos como intestino, linfonodos e trato reprodutivo.”

Persistência viral vai além do vírus capaz de se replicar
Encerrando a sessão, Dra. Sherazaan Ismail, da Charité – Universitätsmedizin Berlin, discutiu como proteínas virais e reservatórios considerados “defeituosos” podem continuar influenciando inflamação e ativação imunológica.
Na apresentação de encerramento, Dra. Sherazaan Ismail defendeu que as pesquisas sobre cura do HIV precisam ampliar o foco para além do reservatório capaz de provocar o rebote viral. A pesquisadora argumentou que compreender os fatores que favorecem a formação, a manutenção e a persistência do reservatório é essencial para desenvolver intervenções mais eficazes.
“Os determinantes do reservatório ajudam a identificar o que influencia sua formação e manutenção e podem orientar estratégias de cura.”
Entre os mecanismos discutidos, Dra. Ismail destacou o papel da proteína acessória viral Nef, que interfere na resposta imunológica ao reduzir a expressão de moléculas como o MHC classe I na superfície das células infectadas. Com isso, a apresentação de antígenos às células T citotóxicas é prejudicada, favorecendo a sobrevivência de células infectadas e contribuindo para a manutenção do reservatório viral. A pesquisadora também apresentou evidências de que uma maior atividade da Nef está associada a um reservatório competente para replicação mais persistente.
Outro ponto enfatizado foi que os provírus considerados defeituosos — tradicionalmente vistos como menos relevantes para a pesquisa da cura — podem continuar biologicamente ativos. Embora não sejam capazes de originar novos vírus completos, eles ainda podem produzir proteínas virais, estimular a ativação do sistema imunológico e manter processos inflamatórios associados às comorbidades observadas em pessoas vivendo com HIV.
“Os provírus defeituosos ainda podem expressar proteínas virais. Isso significa que devemos considerar todas as facetas da persistência, porque não é apenas o rebote viral que deve nos preocupar.”
Ao concluir sua apresentação, Dra. Ismail reforçou que reservatórios transcricionalmente ativos provavelmente continuam impulsionando a ativação imune e a inflamação mesmo em pessoas com carga viral suprimida pela terapia antirretroviral, o que pode contribuir para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares, câncer e outras comorbidades. Por isso, defendeu que as futuras estratégias de cura não se limitem à eliminação dos provírus capazes de se replicar, mas também contemplem os mecanismos que sustentam a inflamação persistente.
“Reservatórios ativos são provavelmente impulsionadores da ativação imune e da inflamação apesar da nossa supressão… pode haver necessidade de intervenções que abordem todas essas facetas da persistência e não apenas a erradicação dos reservatórios competentes para replicação.”
Ao final da sessão, ficou evidente que as futuras estratégias de cura deverão combinar diferentes abordagens — desde transplantes e bloqueio do CCR5 até imunoterapia, caracterização detalhada dos reservatórios e controle da inflamação persistente — para enfrentar simultaneamente os múltiplos mecanismos que permitem ao HIV permanecer no organismo mesmo após anos de tratamento.
Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)
Estagiária em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobriu a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.



