Especialista explica como manter o tratamento em dia, reduzir riscos e aproveitar o período com responsabilidade e informação.
O Carnaval é tempo de encontro, celebração e liberdade. Mas, para pessoas vivendo com HIV, a folia também exige atenção redobrada com o tratamento e com a prevenção de outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Em meio à mudança de rotina, viagens, blocos e noites mais longas, manter o cuidado pode ser desafiador, mas está longe de ser impossível.
A infectologista Dra. Mafê Medeiros, em entrevista à Agência Aids, reforça que organização e informação são as principais aliadas para atravessar o período com segurança.

A infectologista Maria Felipe Medeiros | Foto: Acervo pessoal
Medicação na rotina da folia
O primeiro ponto de atenção é o armazenamento correto dos antirretrovirais. Mesmo fora de casa, os comprimidos precisam ser mantidos em condições adequadas.
“As pessoas devem manter os comprimidos da mesma forma que eles estariam dentro da embalagem, mantendo então livre de umidade, de exposição ao sol, e não deixar também contato várias vezes com os dedos. Esses contatos podem fazer com que os remédios percam sua função.”, explica a infectologista.
Para quem vai viajar ou passar o dia nos blocos, é possível adaptar.
“É possível colocar em embalagens menores, mas sempre se atentando a essas questões.”
Já em relação à regularidade, a médica lembra que cada pessoa pode encontrar a estratégia que melhor se encaixa no próprio dia a dia.
“A regularidade vai da rotina de cada pessoa: unir a tomada a uma ação, escovar os dentes, por exemplo, ou deixar o alarme para não esquecer na bebedeira. Melhor que alarme são os aplicativos de ‘to-do’, que você precisa marcar quando concluiu a tarefa.”

E se uma dose for esquecida no meio da programação intensa?
“Se a pessoa esquecer uma dose, não é motivo de grande preocupação. Retorne no dia seguinte e isso não afetará o tratamento. Só não pode deixar de tomar o Carnaval todo…”
Ela também esclarece que pequenas adaptações de horário podem ser feitas.
“Ajustes de horários são possíveis, sim, não há grandes prejuízos ao tratamento.”
Álcool, outras substâncias e tratamento
O consumo de álcool é comum durante o Carnaval, e muitas dúvidas surgem sobre possíveis interações com os antirretrovirais. A especialista faz apenas uma ressalva específica:
“O consumo de álcool não interage diretamente com nenhum antirretroviral atual que é usado no Brasil. Em conjunto com Efavirenz, por exemplo, pode causar efeitos colaterais somados aos que o Efavirenz já apresenta, como confusão mental e sonhos vívidos ou pesadelos. Mas na eficácia, não há interação direta. O mesmo com as substâncias psicoativas.”

Ainda assim, ela recomenda equilíbrio.
“Parcimônia é a palavra.”
Prevenção combinada: responsabilidade que acompanha a folia
Mesmo quando a carga viral está indetectável, o cuidado com a prevenção continua fundamental, especialmente em relação a outras ISTs.
“É importante manter o foco nas demais ISTs. Prevenção combinada sempre é a chave para um Carnaval bom e um pós-Carnaval melhor ainda.”
Durante o período, diferentes infecções podem circular com mais intensidade, e a orientação é sair preparado.
“Todas as ISTs podem ocorrer de forma igual, portanto é importante sempre estar ligade. É sempre bom ir pro bloquinho com um kit prevenção: preservativos internos e externos, lubrificante à base de água e o que mais for possível.”
Ela também diferencia as estratégias disponíveis no Sistema Único de Saúde:
“Para quem não vive com HIV, a PrEP é para quem se previne antes de acontecer e a PEP para depois que já aconteceu.”

A informação, segundo a infectologista, é parte essencial do cuidado coletivo.
Sono, imunidade e escuta do próprio corpo
O Carnaval costuma significar noites mal dormidas e rotina alterada. Isso pode ter impacto temporário na saúde.
“O excesso de festas e privação de sono podem, sim, causar alterações transitórias de imunidade, ainda mais somados com consumo de álcool e outras substâncias, mas nada que seja duradouro.”
O recado final é simples, mas direto.
“Curtir é sempre bom, curtir com responsabilidade é melhor ainda.”
Entre glitter e confete, a mensagem que fica é que viver com HIV não impede ninguém de celebrar. Com planejamento, prevenção combinada e cuidado com o próprio corpo, é possível atravessar o Carnaval com segurança, leveza e informação.
Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)
Estagiário em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
Dicas de entrevista:
Dra. Mafê Medeiros
Instagram: @mafeinfectologista
Leia também aonde encontrar PEP(Profilaxia Pós Exposição) : https://agenciaaids.com.br/noticias/transou-sem-camisinha-no-carnaval-voce-tem-ate-72h-para-iniciar-a-pep-e-se-proteger-contra-o-hiv/



