25/02/2014 – 18h50 – atualizada em 26/02/2014 às 18h
A campanha de prevenção à aids anunciada na manhã desta terça-feira (25) pelo Ministério da Saúde desagradou a maioria dos ativistas ouvidos pela Agência Aids especialmente pelo fato de ir ao ar em cima da hora – ela entra na TV e outras mídias nesta quarta-feira (26), quando a folia já pegou fogo em muitas cidades. “Por que isso acontece? Acredito que as campanhas já estão no planejamento anual, no orçamento e no cronograma do governo. Acabamos, a cada ano, não usufruindo do material delas. Isso é dinheiro perdido, ou, pelo menos, pouco aproveitado”, disse a ativista Silvia Almeida, do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas. Veja a opinião de outros militantes:
Mário Scheffer, professor da Faculdade de Medicina da USP e membro do Grupo Pela Vidda-SP: "É uma campanha genérica, banal e pouco eficaz. Esse tipo de mensagem não chega onde a epidemia está concentrada. Parece ter sido concebida sob a censura do ano passado , para agradar os setores conservadores. Outra vez deixa de incluir positivamente os mais vulneráveis. O que move é o interesse politico, eleitoral e não o impacto de saúde pública. Neste momento de avanço assustador da aids entre os jovens gay, esta é uma campanha covarde, desconectada da realidade da epidemia. A veiculação da mesma peça censurada no ano passado seria uma melhor utilização do recurso público."
Salvador Correa, assessor técnico e político da Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA): "Há uma beleza estética na campanha, mas na sua essência, ela é heteronormativa. Por exemplo, usa somente imagens de casais heterossexuais e focaliza o uso da camisinha no homem. Em nenhum momento há a presença da camisinha feminina. Além disso, sugere a associação entre números de parceiros(as) e prevenção ao repetir o estereótipo do homem "galinha" . Portanto, a campanha está baseada em conceitos antigos da prevenção do HIV e distante dos dados epidemiológicos. Outro ponto negativo é esta campanha ser resultado da ausência de diálogo do atual governo com sociedade civil organizada. O que é uma contradição, já que o êxito do programa brasileiro de aids foi construído pelo diálogo entre a sociedade civil e governo. Infelizmente, o que estamos assistindo é cada vez mais a sociedade civil sendo afastada das negociações que envolvem as tomadas de decisão acerca das mudanças nas políticas públicas de saúde no nosso país."
Beto Volpe, ativista e fundador do Grupo Hipupiara: "Pelo que foi apresentado, acho que é interessante a ideia do festa, festinha, festão… Tem cenas da parada gay… Eles fizeram aquilo que eu creio ser o máximo possível, dada as conjunturas político eleitorais. E o uso do humor é fundamental, poucas ferramentas atingem tão profundamente o ser humano. Achei a linguagem boa, universal. É o que se pode fazer em tempos de fundamentalismos."
José Araújo Lima, diretor do Espaço de Prevenção Humanizada (Epah): “Essa campanha é hiperconservadora. Pretende falar com todos e não fala com ninguém. A proposta do Ministério da Saúde é ser cada vez menos ousada e, com isso, a população perde. No fundo, o Ministério não quer criar problemas em ano eleitoral.”
Silvia Almeida, do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas: “A campanha está bonita e alegre. Como será utilizada para outros eventos, creio que vá cumprir o objetivo até mais em outras festas. O que me desagrada é o fato de que, para o Carnaval, ela novamente está sendo lançada em cima da hora. Porque o Ministério da Saúde e o Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais esperam tanto tempo para lançar as campanhas? Essa é uma pergunta que eu gostaria de ver respondida. Principalmente porque, após 30 anos de epidemia, acredito que as campanhas já estão no planejamento anual, no orçamento e no cronograma. Acabamos, a cada ano, não aproveitando o material delas. Isso é dinheiro perdido, ou pelo menos, pouco aproveitado.”
Cazu Barroz, da Federação dos Bandeirantes do Brasil: “Desde o início do governo Dilma (PT), o que estamos vendo em suas ações contra a aids no Brasil é o desmonte do “melhor programa de aids do mundo”. O governo cortou totalmente a relação com a sociedade civil de luta contra a aids e vem fazendo o que bem entende. Antes de ser eleita, Dilma assinou um documento junto ao Fórum de ONG/Aids de São Paulo, no qual se comprometeu com ações enérgicas contra a doença, mas só ficou na promessa. Todas as campanhas feitas com a participação da sociedade civil foram vetadas pelo governo e há tempos não temos uma mensagem que realmente diga o que a população precisa saber. Quanto à campanha de Carnaval 2014 fiquei indignado ao ver a imagem da galinha num dos vídeos. Ela simplesmente reforça o estima e o preconceito, já que ser galinha em nosso mundo é ser promíscuo, ter vários parceiros. Outra coisa, em nenhum momento o movimento social teve participação na elaboração ou na criação da campanha. A campanha está sem foco, tem muita informação ao mesmo tempo, fala em usar preservativos, fazer teste anti-HIV e se medicar precocemente ao mesmo tempo. Enquanto o governo ignorar a sociedade civil, os resultados de suas campanhas e ações serão desastrosas, pois não terão o ponto de vista e as necessidades de quem vive e convive com aids.”
Rodrigo Pinheiro, presidente do Fórum de ONG/Aids e São Paulo: “Para não se comprometer com bancadas conservadoras em ano eleitoral, o Ministério da Saúde lança uma campanha de prevenção à aids no Carnaval de forma genérica, para população em geral. Sabe-se que no Brasil a epidemia é concentrada — com exceção de Porto Alegre, onde está generalizada. Temos de fazer este enfrentamento junto a algumas populações vulneráveis, levando em conta aspectos peculiares de cada transmissão e os direitos humanos desses grupos. A sociedade civil organizada, por meio do movimento de luta contra a aids e da Articulação Nacional de Luta Contra a Aids (Anaids), não foi chamada a opinar sobre a estratégia de comunicação. Inovação zero. Ponto positivo que a campanha será permanente.”
Arnaldo Barbosa, advogado da ONG Sonho Nosso: “O material disponibilizado tem um aspecto curinga e, nesse sentido, considero estratégico, pois não envolve segmentos específicos. Essa peça me passou a informação básica de outras campanhas, de forma tranquila e até lúdica. Eu gostei da arte, acho que pode ser relembrada em outras ocasiões. Quanto à construção propriamente dita, na nossa instituição temos um olhar diferente, estamos acostumados a trabalhar com adversidades e não será a primeira vez que vamos receber um material pronto para trabalhar. Temos de nos adequar à linguagem de acordo com o público que abordaremos com as peças da campanha. Acho que faltou o aspecto democrático, o conteúdo foi construído sem a participação do movimento social – e isso atribuo aos vendavais constantes sobretudo no Departamento de DST, Aids e Hepaties Virais – mas não podemos dizer que o governo não está preocupado. Cabe a nós colorirmos essa linguagem e fazer bem o papel de levar lá na ponta os insumos e lembrar que o importante é estar de bem com a vida.”
Jurandir Teles, educador e secretário executivo do Fórum Baiano de Ongs Aids: “Essa campanha é muito evasiva. Na realidade, eles estão querendo fazer campanha eleitoral sem brigar com as bancadas conservadoras. O movimento social está sendo excluído. Sobre a campanha ser permanente acredito que deveria ter mais estudos de causa para se manter uma campanha durante 365 dias. Tudo vai mudando, a migração da doença está alastrada, concentrada e generalizada. A cada dia aparecem focos diferentes. O governo deveria ter a compreensão de como dar uma guinada e conter a epidemia. Distribuir só camisinhas e ter recursos para projetos ainda estão aquém do que o movimento quer.”
Marcus Dutra, representante do Centro de Apoio ao Cidadão (CAC) da cidade de Serra e agente de prevenção da Associação Capixaba de Redução de Danos (Acard) da cidade de Vitória ( ES): “O evento de lançamento da campanha atrasou, mas foi legal a transmissão via Twitter pois é uma forma atual e moderna de acompanhar por tópicos relevantes. Considero muito interessante a campanha ser estendida por todo o ano, não se limitando apenas ao Carnaval. Sendo contínua fortalecerá o movimento social e as Ongs. ‘Se tem festa, festaço ou festinha, tem que ter camisinha’ é um slogan chamativo, vai cair na boca do povo, isso é positivo. Espero que as teorias ali contidas realmente aconteçam na realidade, principalmente resultem em melhor atendimento aos portadores do HIV. Finalmente, acredito que faltam protagonistas vulneráveis nas campanhas de prevenção, como os jovens gays, as travestis e transexuais.”
Redação da Agência de Notícias da Aids


