24/09/2014 – 19h50
Atualizado em 25/09/2014 – 16h
Atualizado em 25/09/2014 – 18h
Os candidatos a presidente da República não têm se preocupado em fazer a defesa do combate à aids, ou, pelo menos, uma simples menção a ela durante suas campanhas. O tema só não foi absolutamente esquecido dos programas de governo porque Aécio Neves, do PSDB, o incluiu no item 21 de sua proposta, da seguinte maneira: “Retomada da prioridade necessária para a manutenção do Programa HIV/Aids, com a qualidade que o tornou mundialmente reconhecido”.
Levando em conta justamente o fato de que o programa brasileiro de combate à aids é referência mundial, decidimos ouvir algumas lideranças no tema sobre a ausência dele da campanha para as eleições 2014. A doença, afinal, também tem ficado de fora dos debates e não só dos programas registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Todos os entrevistados disseram que o fato de um compromisso estar registrado num programa não significa que será cumprido. “Em 2010, Dilma Rousseff e José Serra assinaram uma carta de compromisso do Fórum de Ongs/Aids do Estado de São Paulo (Foaesp) e nada aconteceu”, lembra o professor e pesquisador Jorge Beloqui, ativista do Grupo de Incentivo à Vida (GIV), de São Paulo.
José Araújo Lima, presidente do Espaço de Prevenção e Atenção Humanizada (Epah) , de São Paulo, diz que a aids é apenas mais uma entre inúmeras questões esquecidas pelos candidatos. “A política brasileira nessas eleições tem a marca de ataques pessoais e do conservadorismo”, avalia Araújo. Ele também reclama do fato de Dilma não ter cumprido “com nenhum dos itens” da carta de compromisso assinada nas eleições passadas.
Beloqui destaca que as taxas de incidência de aids hoje são maiores ou iguais as de 1996, entre os homens, e só esse dado já seria preocupante o bastante para chamar a atenção dos políticos e exigir deles compromisso.
Vando Oliveira, coordenador da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids (RNP+) do Ceará, enumera outros dados. “A aids é uma doença que não tem cura, ainda há muitos registros de óbitos em consequência dela, sem contar que o tratamento provoca inúmeros efeitos colaterais”, diz Vando.
Falta, na opinião de Rodrigo Pinheiro, presidente do Foaesp, vontade política para tratar do assunto. “A aids é um problema de saúde pública mas deixou de ser prioridade para os governos. Entre enfrentar a doença, e tudo o que a cerca, e manter as bases aliadas conservadoras que vão lhes dar suporte, talvez os candidatos prefiram não se comprometer. E, assim, vamos regredindo no contexto mundial da aids”, analisa Rodrigo.
Falta de vontade política também foi o motivo apontado por Marcio Villardi, coordenador do Grupo Pella Vida Rio de Janeiro, para a ausência do tema aids da atual campanha. “É um reflexo do que vem acontecendo em todas as esferas do governo”, diz Marcio. “Para você ter uma ideia, divulgamos há umas três semanas, por meio do Fórum de Ongs/Aids do Rio, uma carta de compromissos para os candidatos de nosso estado. O retorno foi quase zero.”
Marcio diz que a candidata a presidente Luciana Genro, do PSOL, acabou assinando a carta porque soube dela por meio dos candidatos a deputado de seu partido, Jean Wyllys (federal) e Marcelo Freixo (estadual). “Fora isso, nem o presidente da Frente Parlamentar de Luta Contra HIV/Aids e Tuberculose do Estado , o deputado Gilberto Palmares (PT), nos deu retorno”, continua Marcio.
“O enfrentamento da aids está ausente da cabeça dos candidatos”, reforça Marcio. “Mesmo com toda a atenção que o movimento social chama para a causa, mesmo depois de a mídia ter divulgado tanto o relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) mostrando aumento de 11% no registro de novos casos nos últimos anos.”
ONGs/Aids
A falta de interesse dos candidatos assustou as Ongs/Aids em todo país. Nessa quinta-feira (25), a Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA) divulgou nota sobre documento enviado a todos os candidatos com a pergunta: "O que planeja fazer para conter a epidemia de aids no país caso eleito?" Segundo a entidade, a única resposta foi a de Aécio Neves, a mesma que ele colocou em seu programa.
Para o diretor-presidente da ABIA, Richard Parker, o baixo interesse dos principais candidatos é muito preocupante. “É fundamental compreender de que maneira o jogo político coloca a questão da aids como central, para ser debatida publicamente. A ausência do enfrentamento deste tema entre a maioria dos presidenciáveis confirma que a sociedade brasileira deve se mobilizar urgentemente para exigir uma resposta efetiva à epidemia.”
Saiba mais
Os programas dos candidatos mais descrevem as políticas públicas e enumeram feitos de seus partidos do que listam propostas concretas para a saúde no geral. Todos fazem a defesa do Sistema Único de Saúde (SUS).
“O SUS é, hoje, a maior rede de saúde pública do mundo e tem cumprido um importante papel na universalização do acesso. Reafirmamos nosso compromisso com seu contínuo fortalecimento e aprimoramento”, destaca o programa de Dilma, que você lê na íntegra aqui.
“O SUS, criado pela Constituição Federal de 1988, completou 25 anos e continua sendo uma das grandes políticas de inclusão social da história do Brasil. Quando gestor federal, o PSDB viabilizou o SUS através de várias ações importantes”, diz o programa de Aécio (aqui)
"O SUS é quase único no mundo em termos de acolhimento e cobertura, resultado de gerações de lutas populares por cidadania. Sua concepção revolucionária e seu compromisso com a universalização do acesso aos serviços de saúde, no entanto, não eximem seus gestores, nas três esferas de governo (federal, estadual e municipal), da tarefa de melhorá-lo”, diz um dos trechos do programa de Marina Silva, do PSB (leia).
Eduardo Jorge (PV) faz o elogio e, ao mesmo tempo, a crítica, unindo saúde e educação, ao dizer que, passados 25 anos da conquista do SUS, o sistema educacional brasileiro não foi capaz de formar o médico especializada na saúde da família (leia).
Veja também:
Luciana Genro ( PSOL): aqui
Eymael (PSDC): aqui
Levy Fidelix (PRTB): aqui
Mauro Iasi (PCB): aqui
Pastor Everaldo (PSC): aqui
Rui Costa Pimenta (PCO): aqui
Zé Maria (PSTU): aqui
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Fátima Cardeal (fatima@agenciaaids.com.br)


