País-sede aposta em prevenção combinada e acesso universal à saúde, enquanto seleção africana comemora queda histórica nas novas infecções
A bola volta a rolar na Copa do Mundo neste sábado, 4 de julho, quando Canadá e Marrocos se enfrentam às 14h (horário de Brasília) pelo primeiro duelo das oitavas de final.
Em campo, duas seleções que sonham com uma vaga entre as oito melhores da competição. Fora das quatro linhas, os países também acumulam experiências importantes na resposta ao HIV, ainda que em contextos epidemiológicos bastante diferentes.
Anfitrião do torneio pela primeira vez, o Canadá chega embalado pela força de seu sistema público de saúde e por uma estratégia consolidada de prevenção e tratamento do HIV. Já o Marrocos, que chamou a atenção do mundo ao alcançar uma inédita semifinal da Copa de 2022, também registra avanços importantes na área da saúde, com redução consistente das novas infecções e políticas voltadas às populações mais vulneráveis.
Canadá mantém resposta estruturada, mas enfrenta novos desafios
O Canadá reúne uma das respostas ao HIV mais consolidadas do continente americano. Estima-se que cerca de 65 mil pessoas vivam com o vírus no país, embora aproximadamente 11% ainda não tenham recebido o diagnóstico. Em 2022, foram registrados cerca de 1.900 novos casos.
A epidemia permanece concentrada em grupos específicos da população, especialmente entre homens que fazem sexo com homens (HSH), usuários de drogas injetáveis, povos indígenas, pessoas negras e migrantes. Os HSH respondem por pouco mais da metade das infecções já registradas e também concentram aproximadamente 50% dos novos diagnósticos.
Desde os primeiros casos identificados no início da década de 1980, o país investiu em uma estratégia baseada na prevenção combinada, acesso universal aos serviços de saúde e políticas de redução de danos. O fortalecimento da testagem rápida, a distribuição gratuita de preservativos, a ampliação da oferta da profilaxia pré-exposição (PrEP) e programas destinados a pessoas que usam drogas fazem parte desse conjunto de ações.
Os resultados colocam o Canadá próximo das metas globais estabelecidas pelo Unaids. Atualmente, cerca de 89% das pessoas vivendo com HIV conhecem seu diagnóstico; entre elas, 85% recebem tratamento antirretroviral, e 95% das que estão em terapia alcançaram carga viral suprimida, condição que preserva a saúde e impede a transmissão sexual do vírus.
Apesar do cenário positivo, especialistas apontam que o país ainda precisa enfrentar desigualdades no acesso aos serviços de saúde. Comunidades indígenas, moradores de regiões mais afastadas e populações socialmente vulneráveis continuam encontrando barreiras para diagnóstico, prevenção e tratamento. Outro ponto de atenção é o crescimento dos diagnósticos entre mulheres após a pandemia de Covid-19, grupo que hoje representa aproximadamente um quarto das pessoas vivendo com HIV no Canadá.
Marrocos reduz novas infecções e fortalece ações voltadas às populações-chave
O Marrocos chega às oitavas impulsionado pelo protagonismo conquistado no futebol nos últimos anos e também por avanços importantes na resposta à epidemia de HIV.
O país contabiliza aproximadamente 24 mil pessoas vivendo com o vírus e mantém uma prevalência inferior a 0,1% na população geral, uma das mais baixas da região. Em 2024, foram registrados 990 novos casos, o menor número desde o início do monitoramento nacional, resultado de uma redução de 22% nas novas infecções ao longo da última década.
A estratégia marroquina concentra esforços nas chamadas populações-chave, responsáveis pela maior parte da transmissão. Homens que fazem sexo com homens e usuários de drogas injetáveis representam cerca de 67% das novas infecções notificadas no país.
Entre os diferenciais da política pública marroquina está a adoção de programas de redução de danos que incluem o tratamento com metadona para pessoas que fazem uso de opioides. O Marrocos é o único país da região do Oriente Médio e Norte da África a incorporar essa abordagem como parte das ações de enfrentamento ao HIV, reconhecendo a importância do cuidado integral para reduzir novas infecções e ampliar o acesso aos serviços de saúde.
Embora os avanços sejam expressivos, o país ainda trabalha para ampliar a cobertura da testagem, reduzir o estigma e garantir que mais pessoas iniciem o tratamento precocemente, fortalecendo uma resposta baseada em prevenção, assistência e direitos humanos.
Neste sábado, Canadá e Marrocos disputam uma vaga nas quartas de final da Copa do Mundo. Fora dos gramados, os dois países demonstram que estratégias consistentes, investimento em prevenção e ampliação do acesso aos serviços de saúde são fundamentais para avançar no enfrentamento ao HIV, mesmo diante de desafios distintos.
Redação da Agência de Notícias da Aids



