CAMS: Campanha de Carnaval expõe ruídos entre governo e sociedade civil na comunicação sobre HIV/aids

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Apresentada como principal ação do Ministério da Saúde em 2026, estratégia milionária voltada a jovens domina debate na CAMS e revela falhas de planejamento, participação social e alcance

A campanha de prevenção ao HIV/aids para o Carnaval de 2026, principal aposta recente do Ministério da Saúde na área de comunicação, acabou se tornando o centro de um debate tenso — e revelador — durante a 8ª Reunião da Comissão de Articulação com os Movimentos Sociais (CAMS).

A iniciativa teve como eixo central o incentivo ao uso do preservativo e à chamada prevenção combinada, diante de um cenário de queda na adesão à camisinha no Brasil e no mundo, especialmente entre jovens. Com o mote “Carnaval com prevenção. Antes, durante e depois da folia, é o Governo do Brasil do seu lado”, a ação foi protagonizada pela cantora Gaby Amarantos.

A campanha também reforçou que a prevenção vai além do uso da camisinha, destacando o acesso à testagem, à PrEP (Profilaxia Pré-Exposição), à PEP (Profilaxia Pós-Exposição) e à vacinação contra hepatites e HPV, organizando a mensagem em três momentos — antes, durante e depois do Carnaval — como forma de estimular o cuidado contínuo.

Na execução, a estratégia priorizou jovens de 15 a 29 anos, especialmente em situação de vulnerabilidade, e apostou fortemente nas redes sociais para ampliar o alcance com menor custo. Com investimento de cerca de R$ 20 milhões, a ação combinou conteúdos digitais — distribuídos em plataformas como Instagram, TikTok e YouTube — com intervenções presenciais em grandes centros urbanos durante o período carnavalesco, incluindo vídeos e apresentações com foco na prevenção sexual.

Embora o slogan e a identidade da campanha tenham sido construídos com foco em linguagem jovem e engajamento, foi a lógica de execução — e não apenas o conteúdo — que dominou as discussões na CAMS.

Responsável pela apresentação, Francisco Alves do Nascimento, coordenador-geral de Publicidade e Promoção da Assessoria de Comunicação do Ministério da Saúde, detalhou os bastidores da campanha e o funcionamento da área. “Nós recebemos os briefings da área técnica e, a partir disso, construímos as campanhas”, afirmou, destacando que a publicidade atua a partir das diretrizes das áreas técnicas da pasta.

À frente do setor há cerca de oito meses, ele apresentou a campanha de Carnaval como o maior esforço recente da comunicação institucional. Segundo os dados expostos, a ação alcançou 406 milhões de impressões, 82 milhões de visualizações e cerca de 1 milhão de cliques — números que, para o gestor, indicam não apenas alcance, mas também engajamento. “Não é só ver a mensagem, é buscar mais informação. Isso é o mais importante”, disse.

A escolha pelas redes sociais, explicou, foi estratégica. “Hoje a gente consegue, na rede social, atingir um público maior com um custo muito menor”.

Apesar dos resultados expressivos, o próprio coordenador reconheceu fragilidades importantes no processo de construção da campanha — especialmente no que diz respeito ao tempo e à participação social. Segundo ele, atrasos na liberação orçamentária comprometeram o planejamento. “A gente queria começar a conversar em dezembro, mas o orçamento atrasou e acabou ficando tudo para cima da hora”, relatou.

A consequência foi direta: a campanha foi elaborada sem o diálogo prévio com os movimentos sociais, algo que ele próprio considera essencial. “Essa reunião com os movimentos tem que acontecer antes da gente fazer o briefing”, afirmou.

Em tom de abertura, completou: “Se vocês quiserem conversar com a publicidade, a gente está aberto. Podem mandar sugestões, porque isso é importante para a gente fazer campanhas melhores”.

Críticas à ausência de diálogo e representatividade

Se, por um lado, os números apresentados indicam grande alcance, por outro, a recepção da campanha entre representantes da sociedade civil foi marcada por críticas contundentes — muitas delas relacionadas à forma como essas ações vêm sendo pensadas.

Tathiane Araújo, da Rede Trans, chamou atenção para um problema recorrente: a perda de espaço da sociedade civil na construção das campanhas. “As campanhas estão sendo apresentadas muito em cima da hora, o que impede a gente de contribuir de forma mais profunda”, afirmou.

Para ela, o problema não é apenas de prazo, mas de coerência. Embora as campanhas frequentemente mencionem diversidade, isso não se traduz, na prática, em representatividade efetiva. “Quando a gente olha os dados, quem mais precisa de informação muitas vezes não está representado nas campanhas”, pontuou.

Júlio Moreira, da Associação LGBT+, reforçou a necessidade de mudança no processo. “A gente precisa começar a discutir campanhas com meses de antecedência, para que a sociedade civil participe de fato da construção”, afirmou.

Alcance digital não chega a todos

Outro ponto central do debate foi a estratégia quase exclusiva nas plataformas digitais — vista por muitos como insuficiente diante das desigualdades de acesso à informação no Brasil.

Representantes alertaram que o foco nas redes sociais acaba excluindo populações que não têm acesso regular à internet, especialmente em territórios mais vulneráveis. A ausência de materiais impressos também foi criticada.

“Quem não tem internet não vai acessar esse conteúdo, e os serviços precisam desses materiais para distribuir”, reforçou Tathiane.

Além disso, participantes destacaram a invisibilidade de outras agendas importantes, como a tuberculose, que, apesar de sua relevância epidemiológica, tem tido pouca presença nas campanhas institucionais.

Falta de estratégia contínua preocupa

Para além da campanha de Carnaval, o debate escancarou um problema mais amplo: a ausência de uma política estruturada e contínua de comunicação em saúde.

Segundo os participantes, as campanhas seguem sendo pontuais, concentradas em datas específicas, sem uma estratégia integrada ao longo do ano. Também foi apontada a fragmentação interna dentro do próprio Ministério da Saúde, o que compromete a coerência das mensagens e a efetividade das ações.

Caminhos possíveis

Entre as propostas apresentadas durante a mesa estão a antecipação do planejamento das campanhas, a diversificação dos formatos — incluindo estratégias offline —, o fortalecimento de parcerias com organizações da sociedade civil e a garantia de representatividade real nas peças.

Também foi defendida a construção de uma política de comunicação contínua, capaz de dialogar de forma mais consistente com as diferentes realidades do país.

Ao final, Francisco Alves reiterou sua disposição para o diálogo e reconheceu o papel central dos movimentos sociais nesse processo. “Eu tenho um profundo respeito pelos movimentos. O que eu puder fazer para facilitar a vida de vocês, eu vou fazer”, afirmou.

 

Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)

Estagiária em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

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