
A 21ª edição do Camarote Solidário teve o prazer de receber em sua transmissão online um dos maiores ativistas do movimento LGBTQIA+ brasileiro: o escritor João Silvério Trevisan. Ele bateu um papo com a Agência Aids, relembrando marcos importantes na história do movimento e os desafios dos primeiros anos daquela que hoje é considerada a maior Parada do mundo: a Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo. Confira a entrevista:
Kéren Morais – Agência Aids: Como foi participar, em 28 de junho de 1997, da primeira Parada do Orgulho LGBT+?

João Silvério Trevisan: Eu estive desde o que talvez seja considerado o marco zero, que nem foi parada de fato, pois não saiu do lugar devido a uma tempestade na Praça Roosevelt. Era um caminhãozinho minúsculo emprestado pelo Sindicato das Costureiras, e nós não saímos do lugar por causa da chuva. Isso foi em 1996/97. Nos sentimos muito desestimulados, mas aconteceu. Nunca mais houve uma chuva como aquela naquele período de junho. Logo depois, eu apenas perdi uma aqui em São Paulo, pois estava em Porto Alegre. A gente tinha uma permanente suspeita de que as pessoas não fossem aparecer, e isso era muito duro. Era um medo imenso, a gente ia para a parada, eu acompanhava muito o pessoal da associação, que são meus amigos até hoje. Era algo de maior importância para mim, que eu considerava um verdadeiro milagre a possibilidade de acontecer.
O que notava também nas primeiras paradas era um medo muito grande de mostrar a cara, não apenas aqui em São Paulo. Me lembro quando estava em Porto Alegre, as mulheres lésbicas abriam a parada com um saco de papel de supermercado na cara, com um buraco nos olhos, na boca e no nariz, para não mostrar o rosto. Isto era muito emblemático ao que estávamos enfrentando, especialmente em uma cidade conservadora como as cidades no Brasil costumam ser. A cultura brasileira é muito conservadora. Nós tínhamos que enfrentar uma situação muito palpável. Havia, por exemplo, skinheads que se infiltraram no meio, rapazes que iam para brigar e frequentemente a gente presenciava, às vezes do alto dos carros viamos rapazes esmurrando as pessoas assim a êxomo. Sem falar dos roubos todos numa aglomeração desse nível, mas o mais interessante é que a cada ano, as pessoas começaram a aparecer sem óculos escuros, ou seja, começaram a dar a cara a bater. E mais ainda, com enorme sorriso. Foi muito emocionante.

Nós estávamos lá, eu com os amigos, olhando para todos os lados para ver se aparecia gente, morrendo de medo que ninguém aparecesse. E, de repente, vi subindo ali uma travesti. Ela vinha mancando, e eu fiquei tão feliz e tão tocado com aquela cena, ela estava usando o que tinha sobrado da fantasia de carnaval. Ela foi andando lá de Pinheiros para participar da parada.
Sempre tinha problema de grana, sempre tinha problema de autorização, tinha a competição dos evangélicos, que resolveram logo depois criar a marcha para Jesus no mesmo local, até o momento em que o Ministério Público decidiu que não podiam ficar duas coisas imensas muito próximas e acabou ficando a Parada. Eles [os evangélicos] ficaram furiosos […]. Quando vou à parada, é inevitável que eu não me emocione, porque eu sei o que é que está acontecendo ali, porque eu sei o que é que aconteceu e por que aconteceu, e por que está acontecendo. As pessoas estão ali para celebrar o amor, aquilo tudo é uma grande parada amorosa e é um momento em que o Brasil deveria olhar para nós e dizer ‘muito obrigado, vocês estão nos ensinando a amar’. Nós estamos ensinando o Brasil a amar. Isso eu nunca tive dúvida, digo e repito quantas vezes eu puder: Não existe nenhum segmento na democracia brasileira que esteja reivindicando o amor, além de nós.
Trevisan, a gente sabe que hoje a parada sacode a mídia. Naquela época, como foi a repercussão na imprensa? Você se recorda?
Mais ou menos. Era uma briga, uma briga, sobretudo, para avaliar a quantidade de pessoas que havia pois, especialmente quando aconteceu a marcha para Jesus, a gente tinha a certeza de que a medição oficial, entre aspas, já era [enviesada]. Então, havia toda essa competição e a mídia tendia a nos destruir. Era muito feio. Inclusive a mídia, supostamente progressista.
Eu me lembro que a Folha de São Paulo brigava questionando a quantidade de pessoas que a gente mencionava […]. Nós tínhamos, eu me lembro que no começo eram os anarco-punks que abriam a parada com as suas motos nos apoiando porque havia sempre ameaça de skinheads. E, enquanto a parada realmente não se impôs como uma presença de importância internacional, como quando ela foi para o Guinness como a maior parada LGBT do mundo, até pouco depois, inclusive, havia essa espécie de olhar muito desconfiado. E é um olhar muito desconfiado que eu, do alto dos meus 80 anos hoje, reconheço muitíssimo bem. É um olhar de descaso, é um olhar de desprezo, é um olhar de quem diz ‘vocês estão querendo demais’. É um olhar muito já marcado de preconceito, que não admite, inclusive, preconceito, porque eram pessoas, muitas delas se julgam progressistas. E consideram, e consideravam, talvez hoje nem tanto, depois de tanta batalha, mas na época consideravam que era uma coisa de importância muito secundária.
Tanto é que a parada é um momento de celebração, mas também um movimento político, ela vai a Paulista todos os anos com um tema específico. Naquele contexto já tinha essa questão do tema?
Sempre foi. A parada sempre foi muito política. Quando eu digo que nós reivindicávamos o nosso amor, era um gesto eminentemente político. Eu me lembro quando algumas pessoas, especialmente progressistas, diziam: ‘Para que isso? Isso daí é um carnaval fora de época.’ Olha que bom que criamos um carnaval fora de época com um motivo muito claro, nós não estamos aqui batendo tambor e batendo os pés no chão. Nós estamos cantando e dançando para celebrar o nosso amor. É um gesto político da maior importância, eu não tenho a menor dúvida. Sempre defendi e vou defender a parada com unhas e dentes, porque é um elemento político importantíssimo. Eu não tenho dúvida que muita coisa a comunidade LGBT conquistou graças à parada. Hoje se nós temos representantes no congresso, isso começou lá na parada quando nós começamos a arrombar os portões dessa sociedade absolutamente homofóbica e heterossexista.
Então, qual é a influência direta da Parada no movimento, em todas as lutas da comunidade LGBTQIA+?
Eu não tenho como medir, mas eu não tenho a menor dúvida de que a Parada foi uma guinada, um divisor de águas. Ela apareceu depois da crise da aids. Imagine você que momento foi esse. Tudo estava desativado, desarticulado, dizimado, além da comunidade estar em pânico cos ataques das áreas mais conservadoras, mais fascistas, que pediam inclusive coisas absurdas.
Havia pedido de colocar em campo de concentração, em fazer castração para evitar que homossexuais transassem, sobretudo homossexuais gays, enfim, coisas que davam muito claramente uma ideia do que é o conservadorismo neste país. Daí repente, a Parada entra em cena, com todas as dificuldades, mas eu, até hoje, não consigo explicar como é que isso aconteceu. A não ser pelos paradoxos da história. A história humana é cheia de paradoxos. A gente sabe que muitas das catástrofes e epidemias, resultam em grandes conquistas posteriores e provavelmente a Parada encontrou esse mesmo caminho, o caminho do paradoxo. Chegamos até aqui, basta! Daqui por diante ninguém nos segura.
Como a Parada do Orgulho LGBT e o movimento gay, mais especificamente, influenciaram na sua obra e no seu ‘fazer artístico’ de modo geral?

Eu acho que não tem escapatória. Eu sou um homossexual ativista, e o meu diálogo com a minha comunidade é constante. É de ida e volta. Então, eu escrevo a partir, inclusive, da minha homossexualidade, sem nenhum problema em me assumir, porque eu já me assumi há muito tempo, tive muitos problemas por conta disso, enfrentei muito preconceito velado ou explícito, mas eu ouso dizer que hoje, não apenas a minha obra, mas a obra de muita gente, homens, mulheres, pessoas trans que estão escrevendo, nós estamos discutindo o Brasil. Ou seja, a Parada, ela incentivou as conquistas de uma comunidade, e as conquistas desta comunidade repercutem nas conquistas da democracia brasileira. Eu ouso dizer, por exemplo, que, as nossas representantes transexuais no Congresso, elas são a coisa mais importante que está acontecendo no Brasil atualmente do ponto de vista político. Você pega uma Erika Hilton, por exemplo, não é a única, nós temos várias outras representantes, a presença dessas mulheres é uma coisa inacreditável. Elas têm uma força, elas têm um raciocínio, têm uma consciência política que está o tempo todo dando um exemplo neste país sobre como funciona uma sociedade democrática de fato. Elas têm esse olhar sobre uma sociedade que deve contemplar as comunidades mais vulneráveis, mais periféricas, mais esquecidas, porque elas vivem isso, porque nós vivemos isso. E nós estamos permanentemente vivendo dentro das nossas sociedades no esquema de exílio. Nós vivemos o exílio dentro de nossas sociedades, dentro do nosso país, porque essas sociedades todas com heteronormatividade, elas estão preparadas para heteronormativos. Elas não estão preparadas para as pessoas que são dissidentes dessa ordem. Então, automaticamente, a gente enquanto LGBT está o tempo todo sofrendo a possibilidade de se sentir fora do seu país. Eu bato imensamente nessa tecla que as pessoas não se dão conta que vivemos numa sociedade que não nos quer. Nós vivemos numa sociedade que não está preparada para nós. Ela não abre caminhos, os caminhos são abertos à força, à foice, por conta de nossa convicção e da convicção de nossos e nossas representantes de que isto aqui é uma democracia. Se é uma democracia, então, com licença, abra um caminho que a Parada vai passar.
E qual é o seu olhar para o futuro? Ele é mais otimista ou não? Você acredita que novas lideranças como essas que citou vão nascer e agora a tendência é só melhorar?
Não, eu não sei se usaria a palavra melhorar porque eu não sei o que é melhor, o que é pior. As pessoas me falam: no seu tempo devia ser muito ruim. Era assim, mas não tinha bancada evangélica, por exemplo. Então, eu acho que nós temos um futuro a conquistar e estamos prontos para isso. É o que eu tenho a dizer, que eu acho que se vocês quiserem tomar isso como uma atitude otimista, tudo bem. Eu acho que é uma atitude realista porque eu sei que não vai ser fácil, não é fácil.
Gostaria de compartilhar um pouco sobre sua vivência com HIV?
Sim, eu vivo com HIV e acho que as pessoas HIV positivas têm que estar muito tranquilas com relação às suas vidas, tomar bastante cuidado para as medicações serem observadas rigorosamente e acredito que nas transas tomar o maior cuidado possível para não haver infecção. As possibilidades estão aí. Se nós não estivermos atentos a elas, é um problema de nossa responsabilidade. Nossa sobrevivência é também uma responsabilidade muito subjetiva. Nós dependemos de uma sociedade, mas antes de mais nada, nós somos adultos e adultas e dependemos daquilo que nós acreditamos em nós mesmos. O nosso amor próprio, a nossa autoestima é fundamental para que a gente continue sobrevivendo e acreditando no nosso amor.
E como foi esse processo de tornar pública a sua sorologia? Você gostaria de deixar um recado especialmente para os mais jovens?
Olha, eu acho que cada um tem a sua decisão, cada um sabe como é que a coisa aperta nos seus calos. Há o momento de dizer, cada um e cada uma tem que decidir, mas a verdade é que quanto mais claro isso estiver para as pessoas, melhor. Viver nas cavernas é péssimo, em todos os sentidos. Ou seja, sair do armário, inclusive enquanto HIV positivo, é muito importante.
E o que fazer para relacionar o HIV com as demandas da comunidade LGBT, porém sem estigmas? O que sugere?
Não sei o que te dizer, mas os estigmas têm de ser combatidos. A comunidade ainda é muito preconceituosa com relação a pessoas vivendo com HIV/aids. Eu sofri muito isso, mas é preciso que as pessoas tomem consciência de que se trata de um ato político. Lutarmos contra o preconceito que nós sofremos é lutar também contra o preconceito que nós provocamos.
A parada deste ano traz como tema “Basta Negligência e Retrocesso no Legislativo: Vote Consciente pelos Direitos da População LGBT+”. Qual a sua avaliação e as suas expectativas para a Parada deste ano?
Eu acho perfeito o tema. Não é a primeira vez que se fala, inclusive em eleição, em termos de representatividade maior. Sempre foi um problema muito grande não haver representantes da comunidade no Congresso. Então, acho que o tema da parada é crucial para este ano, como já foi em outros anos. Este projeto político faz todo o sentido e faz parte da própria ideia de uma parada, que já em si mesmo é um ato político.
Nós temos datado que em 2011 foi o ano que a parada mais levou a gente para a rua, somando 4 milhões de pessoas. Você acredita que nós temos um cenário positivo que faz com que a gente supere esse número, este ano?
Eu não gosto de fazer previsões, mas o que eu adoro pensar: vocês nos aguardem. Porque a nossa consciência política está muito afiada. Quando eu entro naquele metrô para ir para a parada e vejo aquela meninada… moro aqui no centro e vejo as menininhas mãos dadas, os meninos com batom pelas ruas, especialmente aos finais de semana e fico muito feliz e emocionado. Porque é isso aí. Eles tomaram em suas mãos o seu destino.
Sobre o Camarote Solidário

O Camarote Solidário existe desde 2002, teve um intervalo de três anos, em 2013 e 2014, quando deu lugar ao Trio Solidário, e em 2020 ano que não aconteceu por conta da pandemia de covid-19. Até 2023, mais de 25 ONGs foram contempladas com as doações. Em sua última edição, o Camarote Solidário arrecadou 5 toneladas de alimentos e 11 instituições foram contempladas.
O Camarote Solidário 2024 tem o apoio do Senac e SESC de São Paulo, das farmacêuticas GSK ViiV Healthcare, Gilead, Abbott, MSD e Janssen, da Coordenadoria Municipal de IST/Aids de São Paulo, da Unesco e da Galeria 2001.
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Serviço
Camarote Solidário da Agência Aids
Quando: 02 de junho
Entre 12 e 18 horas
Evento fechado para convidados
Transmissão ao vivo pelo Youtube, Facebook e TV Agência Aids
Redação da Agência de Notícias da Aids


