Camarote Solidário celebra 22ª edição com reflexão sobre direitos humanos e envelhecimento LGBT+: “Direitos não se negociam”

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Neste domingo (22), a Avenida Paulista voltou a ser tomada por cores, alegria e resistência com a Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo. Em meio à celebração, a 22ª edição do Camarote Solidário, promovida pela Agência de Notícias da Aids, reafirma seu papel como espaço de escuta, acolhimento e articulação política. Mais do que uma vista privilegiada da Parada, o camarote é símbolo de solidariedade e de luta pelos direitos das pessoas LGBTQIA+ e de quem vive com HIV.

Para marcar a data, a Agência promoveu uma conversa entre dois nomes centrais da defesa dos direitos humanos no Brasil: a jurista e doutora em Direitos Humanos pela USP, Flávia Piovesan, e o advogado Marcelo Brito Guimarães, especialista em direitos LGBTQIA+. No encontro, os dois refletiram sobre os desafios da diversidade no contexto político atual, o papel do Estado, a criminalização da homossexualidade no mundo e os impactos do envelhecimento na comunidade LGBT+ — tema da Parada de 2025.

“Hoje, mais do que nunca, esse é um tema central para a ordem contemporânea”, afirmou Flávia. “Vivemos uma onda autocratizante, com fortalecimento do discurso de ódio, intolerância e violência. Racismo, sexismo, homofobia e transfobia seguem se manifestando de forma brutal.”

Avanços e retrocessos: o direito de existir

A conversa começou com uma constatação dolorosa: embora avanços importantes tenham sido conquistados nas últimas décadas, retrocessos políticos e sociais ameaçam conquistas básicas da população LGBTQIA+. “A luta por direitos é uma constante. Cada ponto de chegada é um novo ponto de partida”, disse Flávia.

Ela lembrou que, apesar das conquistas recentes, como o reconhecimento de uniões homoafetivas em diversos países, ainda existem 69 países no mundo onde a homossexualidade é criminalizada, principalmente em ex-colônias britânicas do Caribe. A criminalização, além de institucionalizar a violência, envia à sociedade uma mensagem perigosa: a de que violar direitos por causa da identidade ou orientação sexual é aceitável.

“O populismo autoritário, via de regra, traz uma doutrina de superioridade baseada em diferenças”, comentou a jurista. “Quando a diversidade é usada para aniquilar o outro — e não para promover direitos — temos um problema civilizatório.”

Marcelo, por sua vez, resgatou sua experiência pessoal como homem gay e advogado. Em tom emocionado, falou sobre o peso histórico da perseguição estatal à população LGBT+, lembrando que, no Brasil, até 1830, relações homoafetivas eram punidas com a morte pelas ordenações filipinas. “Por mais que o código penal imperial tenha deixado de tipificar a homossexualidade como crime, o Estado sempre deu um jeito de punir comportamentos considerados fora da norma.”

A experiência internacional e os três grandes desafios

Entre 2018 e 2021, Flávia Piovesan ocupou a relatoria sobre os direitos das pessoas LGBTI na Comissão Interamericana de Direitos Humanos, que abrange 35 países das Américas. Segundo ela, o trabalho foi um mergulho em três eixos fundamentais:

  • O combate à violência por identidade de gênero ou orientação sexual,
  • O enfrentamento da discriminação e defesa do direito à igualdade,
  • A transformação cultural como instrumento de cidadania.

“A criminalização da homossexualidade é um obstáculo gravíssimo. Mas há outros dois desafios enormes: a patologização, que ainda persiste em vários países com as chamadas ‘terapias de conversão’, e o preconceito cultural profundo, mesmo onde há avanços legais”, explicou.

Ela lembrou que o Brasil foi pioneiro em retirar a homossexualidade da lista de doenças em 1985, antes mesmo da OMS, graças à atuação do movimento LGBT, especialmente do Grupo Gay da Bahia. Ainda assim, o preconceito permanece incrustado nas estruturas sociais, afetando o direito mais básico de qualquer ser humano: o de ser quem se é.

“O direito de ser — right to be — é o mais essencial. O direito de desenvolver as suas potencialidades com liberdade, autonomia, dignidade”, resumiu.

Flávia Piovesan em entrevista sobre o Camarote Solidário

Um país que resiste apesar de seus retrocessos

Ao falar sobre o cenário brasileiro, Flávia Piovesan foi direta: “Infelizmente, o nosso parlamento tem maioria conservadora. Por isso, os avanços legislativos são tímidos. O que temos de mais importante vem do Judiciário.”

Entre os marcos lembrados, estão:

  • O reconhecimento das uniões homoafetivas pelo STF, em 2011,
  • A criminalização da homofobia e da transfobia, decidida em 2019,
  • E as decisões que asseguram o direito à identidade de gênero.

“A Suprema Corte atua como poder contramajoritário para proteger direitos fundamentais. Mas essa não deveria ser a única via. O ideal é que tenhamos também avanços normativos, como aconteceu na Argentina e no Uruguai”, disse Flávia.

Marcelo completou: “Na Argentina, quando a legislação mudou, os heterossexuais acordaram no dia seguinte e disseram: ‘Está tudo certo, a gente não perdeu nada. Outras pessoas passaram a ter seus direitos’. É sobre isso: direitos não se negociam, se ampliam.”

Envelhecer sendo LGBT+: tema da Parada 2025

O tema da Parada do Orgulho LGBT+ de 2025 é “O envelhecer LGBT+”, e a conversa entre Marcelo e Flávia também refletiu sobre essa pauta, ainda invisibilizada no debate público.

“Todos nós envelhecemos. Mas o que acontece com as pessoas LGBTs que enfrentam exclusão da família, do trabalho, da escola? Como envelhecer com dignidade quando nos negam até o direito de existir?”, provocou Marcelo.

Flávia, que também já foi relatora regional sobre os direitos das pessoas idosas, destacou a importância de um enfoque interseccional. “Envelhecer sendo LGBT é viver a sobreposição de duas vulnerabilidades. Por isso, precisamos pensar o envelhecimento como um processo pautado por dignidade, autonomia, protagonismo, igualdade e participação.”

Ela ainda questionou a lógica de que 60 anos seja considerado o marco da velhice, diante de uma expectativa de vida que já se aproxima dos 100 anos em alguns países. “Estamos falando de quase metade da vida. Esse tema precisa de visibilidade. E o lema da Parada de 2025 é absolutamente necessário.”

Cultura, cidadania e esperança

A entrevista terminou com uma mensagem de esperança — não uma esperança ingênua, mas com base empírica, como lembrou Flávia. “Há dados que mostram como a inclusão transforma. Um estudo do Banco Mundial estimou que a homofobia custava 1,7% do PIB da Índia. A exclusão gera sofrimento, desigualdade e prejuízo para toda a sociedade.”

Para ela, é impossível pensar em desenvolvimento sustentável sem que a população LGBT+ esteja incluída de forma plena. “O lema da Agenda 2030 é claro: ‘Ninguém fica para trás’.”

Marcelo encerrou a conversa relembrando o legado de projetos históricos e reforçou o papel simbólico do Camarote Solidário: “As cestas doadas para participar do evento vão para instituições que atendem pessoas vivendo com HIV e em situação de vulnerabilidade. Isso é muito mais do que um evento. É um gesto político.”

Marcelo Guimarães em entrevista sobre o Camarote Solidário

Ambos os convidados celebraram a trajetória da jornalista Roseli Tardelli, idealizadora do Camarote e fundadora da Agência de Notícias da Aids, e destacaram a importância de manter espaços de articulação. “Que venham mais conversas, mais encontros, mais camarotes. E que em 2026 estejamos aqui de novo, com ainda mais conquistas a comemorar”, finalizou Marcelo.

A edição 2025 do Camarote Solidário conta com o apoio do Senac São Paulo, Sesc São Paulo, GSK ViiV Healthcare, Gilead, MSD, Janssen, Prefeitura de São Paulo, Coordenadoria Municipal de IST/Aids, Opas, Mopaids e Galeria 2001.

Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)

Estagiário em Jornalismo, na Agência Aids.

Edição: Talita Martins

Dicas de entrevista

Marcelo Guimarães

Instagram: marcelobritoguimaraes

Flávia Piovesan

Instagram: flavia.piovesan

 

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