Pesquisa mostra taxa anual de infecção de apenas 0,1% entre usuários da PrEP injetável; resultados fortalecem evidências sobre adesão, aceitabilidade e potencial para ampliar a prevenção ao HIV
A prevenção do HIV acaba de ganhar mais uma evidência robusta de que os medicamentos de longa duração podem transformar a resposta à epidemia. Um estudo de vida real divulgado pela ViiV Healthcare, representada pela biofarmacêutica multinacional britânica GSK, mostrou que a profilaxia pré-exposição (PrEP) injetável com cabotegravir manteve uma taxa anual de infecção pelo HIV de apenas 0,1%, confirmando que a estratégia permanece altamente eficaz mesmo fora dos ensaios clínicos e ao longo do tempo.
Os resultados representam um dos acompanhamentos mais longos já realizados com usuários da PrEP injetável em condições reais de assistência e reforçam que a combinação entre elevada eficácia e maior adesão pode representar uma mudança importante na prevenção da infecção pelo HIV.
O estudo acompanhou 1.748 pessoas com 18 anos ou mais atendidas em 101 clínicas distribuídas por 23 estados norte-americanos, todas participantes da coorte longitudinal OPERA. Os voluntários receberam pelo menos uma aplicação de cabotegravir entre dezembro de 2021 e junho de 2024. A maioria era composta por homens jovens, com idade mediana de 33 anos, e cerca de 40% haviam apresentado pelo menos uma infecção sexualmente transmissível no ano anterior, caracterizando um grupo com risco elevado de aquisição do HIV.
A incidência observada foi de apenas 0,10 caso por 100 pessoas-ano, um resultado considerado extremamente baixo e compatível com o elevado nível de proteção demonstrado anteriormente nos estudos clínicos que levaram à aprovação do medicamento.
Da eficácia dos estudos para a vida real
Embora os ensaios clínicos randomizados sejam considerados o padrão-ouro para aprovação de novos medicamentos, especialistas ressaltam que os estudos de vida real têm importância estratégica porque mostram como uma tecnologia se comporta na rotina dos serviços de saúde, onde existem atrasos nas consultas, dificuldades de acesso e diferentes perfis de usuários.
Nesse contexto, os novos resultados ajudam a consolidar o papel do cabotegravir como uma das principais ferramentas de prevenção disponíveis atualmente.
O diretor médico da ViiV Healthcare, Jean van Wyk, destacou que o conjunto de evidências apresentado na AIDS 2026 amplia significativamente o conhecimento sobre os medicamentos de longa duração.
“Os dados reforçam a profundidade e a amplitude das evidências que a ViiV Healthcare vem produzindo sobre os medicamentos injetáveis de longa duração para o tratamento e a prevenção do HIV. Com o estudo OPERA, evidências de vida real envolvendo quase 6.800 adultos atendidos na prática clínica mostram que o Cabenuva manteve uma supressão virológica elevada e comparável à terapia oral diária, ajudando-nos a compreender melhor seu desempenho fora dos ensaios clínicos e como ele pode oferecer suporte às pessoas ao longo do tempo. Em conjunto com os dados dos estudos clínicos e os relatos dos próprios pacientes, essas evidências fornecem uma base sólida e confiável para a próxima geração de inovações, desenvolvidas a partir das necessidades das pessoas afetadas pelo HIV e concebidas para gerar impacto em larga escala.”
Embora a declaração faça referência ao tratamento do HIV com Cabenuva, o pacote de estudos apresentado pela empresa também inclui os novos resultados da PrEP com cabotegravir e diferentes pesquisas sobre adesão, experiência dos usuários e novas formulações de longa duração.
O diferencial não é apenas a eficácia, mas a adesão
Os comprimidos diários da PrEP já oferecem proteção extremamente elevada quando utilizados corretamente. O principal desafio, entretanto, continua sendo manter o uso contínuo ao longo dos anos.
É justamente nesse ponto que as formulações de longa duração vêm mudando o cenário.
O cabotegravir é aplicado a cada dois meses, eliminando a necessidade da medicação diária. No Brasil, o medicamento recebeu aprovação regulatória e está disponível na rede privada desde agosto de 2025, enquanto sua incorporação ao Sistema Único de Saúde permanece em análise pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec).
Além da efetividade, novos estudos apresentados na AIDS 2026 mostram que a adesão ao esquema injetável permanece extremamente elevada.
Na análise PrEPFACTS, que reuniu 2.913 usuários, 89% permaneceram protegidos durante pelo menos 90% do período acompanhado, enquanto a maior parte das aplicações ocorreu dentro do intervalo recomendado.
Outro estudo, denominado CAPTIVATE, revelou que 97% das pessoas que já haviam utilizado PrEP oral preferiram migrar para o cabotegravir injetável. Quase todos os participantes afirmaram sentir-se protegidos contra o HIV, menos preocupados com a possibilidade de adquirir a infecção e com maior sensação de controle sobre sua própria saúde.
Menos incômodo, maior aceitação
A conferência também trouxe novos dados comparando a experiência dos usuários com as duas principais tecnologias injetáveis atualmente em desenvolvimento ou já aprovadas para prevenção do HIV: o cabotegravir e o lenacapavir.
O estudo CLARITY demonstrou que os participantes relataram uma experiência mais favorável com o cabotegravir, incluindo menor persistência de reações no local da aplicação, menos nódulos e menor interferência nas atividades diárias seis meses após a injeção. Cerca de 70% classificaram a aplicação do cabotegravir como “muito aceitável” ou “totalmente aceitável”, contra 37% entre aqueles que receberam lenacapavir.
Os pesquisadores destacam que esses aspectos podem influenciar diretamente a continuidade do tratamento preventivo, uma vez que conforto e aceitabilidade são fatores importantes para manter a adesão ao longo do tempo.
Corrida pela prevenção de longa duração
Os novos resultados chegam em um momento de intensa transformação na prevenção do HIV. Além do cabotegravir, o lenacapavir — primeira PrEP administrada apenas duas vezes ao ano — também vem sendo apontado como uma das maiores inovações da última década. O medicamento já foi aprovado pela Anvisa, mas ainda não está disponível no Brasil devido ao alto custo, estimado em mais de US$ 28 mil por pessoa ao ano nos Estados Unidos.
Enquanto isso, a própria ViiV anunciou na AIDS 2026 o início do estudo EXTEND 4M, que avalia uma nova formulação experimental do cabotegravir capaz de ser aplicada apenas três vezes por ano. O objetivo é reduzir ainda mais a necessidade de visitas aos serviços de saúde sem comprometer a proteção contra o HIV.
Ciência avança; acesso continua sendo o maior desafio
Os resultados apresentados na conferência reforçam que a ciência da prevenção do HIV atravessa um momento histórico. Pela primeira vez, diferentes tecnologias de longa duração demonstram potencial para reduzir significativamente as novas infecções.
Entretanto, transformar esse avanço científico em benefício para a população dependerá da capacidade dos sistemas públicos de saúde de incorporar essas tecnologias, garantir financiamento sustentável e ampliar o acesso às populações que mais podem se beneficiar delas.
No Brasil, onde 39.216 novos casos de infecção pelo HIV foram notificados em 2024, especialistas lembram que nenhuma estratégia isolada é suficiente. A prevenção combinada — reunindo PrEP, preservativos, testagem regular e tratamento das pessoas vivendo com HIV — continua sendo a base para reduzir a transmissão do vírus e aproximar o país das metas globais de controle da epidemia.
* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.



