Brilho, resistência e orgulho: Silvia Almeida e Willian Carvalho são eleitos Miss & Mister Pessoa Vivendo com HIV/Aids 2025

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Sob as luzes do Teatro Alfredo Mesquita, na zona norte de São Paulo, um desfile diferente arrebatou o público na noite de 8 de julho: não eram apenas vestidos, sorrisos e poses. Eram histórias inteiras, cicatrizes transformadas em força, vidas que desafiaram o silêncio e decidiram brilhar. Na segunda edição do concurso Miss & Mister Pessoa Vivendo com HIV/aids (PVHA), Silvia Almeida, do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas, e Willian Carvalho, da Associação Civil Anima, foram coroados vencedores, carregando consigo muito mais que faixas: eles representam orgulho, resistência e a beleza de uma luta coletiva.

Idealizado por Nathy Kaspper, ativista trans de Itaquaquecetuba (SP), o Concurso Miss e Mister Pessoa Vivendo com HIV/Aids foi criado para fortalecer a autoestima e combater o estigma que ainda recai sobre quem vive com o vírus. A iniciativa, pioneira no Brasil, reuniu 21 participantes. “Quis mostrar que pessoas com HIV precisam de respeito e equidade. Aqui, a beleza é sobre resistência e inclusão”, destacou.

A edição 2025 foi comandada por Américo Nunes, presidente do Instituto Vida Nova, e pela irreverente Sissi Girl, integrante do Esquadrão das Drags.  O evento foi um verdadeiro espetáculo de empatia, autoestima e afirmação política. A cada entrada na passarela, um manifesto vivo: “eu existo, eu resisto, eu sou digno de ser visto”.

Muito além da beleza: o que se avalia numa noite como essa?

A passarela do Miss & Mister PVHA foi mais que um palco — foi um território político. Os participantes não foram julgados por estética ou elegância, mas por algo muito mais profundo: sua história de vida, a relação com o HIV, a capacidade de inspirar outras pessoas e a desenvoltura em transmitir mensagens de empoderamento, cuidado e cidadania. Cada desfile foi precedido por uma breve biografia dos candidatos, trazendo seus sonhos, inspirações e desejos de mudança. E foi justamente isso que arrebatou a plateia.

Silvia Almeida: 30 anos vivendo com HIV, 64 anos de pura dignidade

Com passos firmes e olhos marejados, Silvia Almeida cruzou a passarela como quem atravessa décadas de preconceito — e chega inteira do outro lado. Há mais de 30 anos vivendo com HIV, Silvia representa uma geração marcada pelo medo, pela perda e pelo silêncio. Mas ela fez uma escolha: resistir.

“Ganhar esse concurso é uma vitória da vida sobre o estigma. Eu não sou só HIV. Eu sou afeto, eu sou história, eu sou luz”, declarou ao ser coroada Miss PVHA 2025. Silvia emocionou os jurados e o público com sua sinceridade e força. Ao falar sobre o que significa vencer, ela respondeu: “É mostrar que envelhecer com HIV é possível. E é lindo.”

Willian Carvalho: juventude que quer transformar o mundo

Aos 37 anos, Willian Carvalho é a voz de uma nova geração que desafia os tabus ainda persistentes em torno do HIV. Ele vive com o vírus há 16 anos, é comunicativo e comprometido com causas sociais e sonha com uma sociedade mais empática — onde o vírus não apague o brilho de ninguém.

“Eu quero mostrar que quem vive com HIV pode — e deve — ocupar todos os espaços. Inclusive este palco”, disse, ao ser anunciado Mister PVHA 2025. Ele encantou o público com sua naturalidade e com a mensagem simples e poderosa: “todos somos campeões, o melhor prêmio é estar aqui”.

Ele contou que seu maior sonho é ver seu karaokê ter muito sucesso. Se inspira na mãe e se pudesse mudar algo, acabaria com a desigualdade social, especialmente a fome. Decidiu participar do concurso porque ama os palcos, a moda e o estilo. “Não se cale, não se esconda, você não está só. É digno de amor e respeito”. Ganhar o concurso significa acreditar em si mesmo e mostrar que nada impede a realização de sonhos.

Um desfile de orgulho e política

Se engana quem pensa que o Miss & Mister PVHA é apenas um concurso de beleza. O tom político esteve presente em cada fala, em cada gesto e em cada corpo que ocupou o palco com dignidade. O evento foi um chamado coletivo pela democracia, pela manutenção das políticas sociais, pelo SUS, pelo respeito à diversidade e à vida.

Falou-se sobre a urgência de combater o preconceito, sobre a importância de cuidar da saúde mental e sobre os retrocessos que ameaçam os direitos conquistados a duras penas. “Negar políticas públicas é também uma forma de nos matar. Lutar contra o estigma é lutar pela democracia”, disse a co-deputada estadual pela Bancada Feminista do Psol, Carol Iara, sob aplausos.

Homenagens que curam a alma

Entre os momentos mais emocionantes da noite, o destaque foi a homenagem a Eduardo Barbosa, do CRD Brunna Valin, referência nacional na luta por direitos das pessoas LGBTQIA+ vivendo com HIV. Emocionado, Eduardo afirmou: “Essa coroa é de todos que resistem. A luta é coletiva, e o amor é a nossa arma mais potente.”

O Instituto Cultural Barong, a Associação Civil Anima, o Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas e o Instituto Vida Nova também foram homenageados por incentivar os usuários das ONGs a participarem da iniciativa.

Além disso, em diferentes momentos, o ativista Jorge Eduado, cofundador do Instituto Vida Nova, foi lembrado com carinho. Ele morreu em maio de 2023, mas seu legado foi celebrado em cada detalhe do evento. “Jorge está em cada passo dessa passarela. Ele foi meu companheiro por 34 anos e sua solidariedade e compromisso com as pessoas vivendo com HIV/aids está em cada detalhe do Vida Nova”, declarou Américo Nunes.

Confira um breve perfil dos participantes do Concurso:

Misses que inspiram

Com 29 anos vivendo com HIV e um sorriso que encanta, Ariana Luiza Rosa Wruck é leonina e mãe. Moradora de São Paulo, ela enxerga na dança a sua maior alegria e sonha em ser rica. Inspirada pelos filhos, Ariana deseja um mundo sem violência e sem fome. Entrou no concurso como quem entra em uma brincadeira, mas deixou uma mensagem potente: “Divirtam-se!”. Para ela, mostrar que é possível ser feliz vivendo com HIV é a verdadeira vitória.

Eliane Câmara, de 50 anos, acredita que o amor pode transformar o mundo. Casada, ariana e também de São Paulo, ela aposta na persistência como marca pessoal. Seu maior desejo é a cura, e seu filho é sua principal inspiração. Ao entrar no concurso com o objetivo de vencer, Eliane reforçou: “Sou mais forte que o HIV”. Sua mensagem é simples, mas poderosa: “Ame as pessoas!”.

Com 69 anos e um brilho jovial no olhar, Emília Maria Martins de Oliveira, moradora de Guarulhos, é escorpiana e apaixonada pela vida. Seus passatempos são dançar, cantar, viajar e viver intensamente com amigos. Hebe Camargo é sua inspiração, e seu maior sonho é conhecer a Disney e participar do BBB. “Cada dia é uma nova oportunidade para brilhar”, diz. Ela defende o acesso à saúde e à informação, e vê no concurso uma forma de inspirar outras pessoas.

Gloraci Silva, de 46 anos, sonha em reformar a casa e em levantar a autoestima. Taurina e moradora da capital, ela pedala para esquecer as dores e se inspira na mãe. “A passarela é nossa”, afirma, destacando a importância do cuidado com a saúde mental e física. Para ela, vencer é ser feliz, forte e capaz de enfrentar tudo.

Com 15 anos vivendo com o HIV, Leidionor Maria dos Santos, de 58 anos, é exemplo de acolhimento e paixão pela vida. Se define como comunicativa e responsável. Seu sonho é se aposentar, seu filho é sua motivação e seu lema é: “Sou feliz e procuro curtir a vida”. Acredita que o concurso é um espaço para brilhar e encorajar outras pessoas a fazerem o mesmo.

Leona dos Santos Pinheiro, de 37 anos, é leonina, solteira e carrega na humildade e no respeito suas maiores qualidades. Seu sonho é empreender e sua musa inspiradora é Roberta Close. Ao participar do concurso, quer reafirmar que o HIV não é uma sentença de morte, mas sim um convite ao amor-próprio. “Amor próprio acima de tudo”, diz Leona, que quer transformar dor em potência.

Márcia Renata Carmo de Souza, de 48 anos, vive em Ferraz de Vasconcelos e sonha em criar um espaço de beleza para ajudar outras mulheres. Divorciada e ariana, ela escuta música para se fortalecer e acredita que o preconceito é uma doença social. Sua mensagem é clara: “Viva o hoje. Não se molde para agradar os outros”. Quer mostrar que o HIV não define caráter, mas sim novas possibilidades de ser.

Marta de Jesus dos Santos, libriana de 55 anos, acredita que “sempre vale a pena participar”. Ama dirigir, sonha em ter um carro e se inspira em sua própria trajetória de superação. Para ela, o HIV é um lembrete de que é preciso se cuidar e que a vida vale a pena, sim. Participar do concurso é um marco de autoestima.

Nilcilene da Anunciação Reis, de 30 anos, quer conhecer o Rio e acabar com a desigualdade. Solteira, leonina e com espírito criativo, ama fazer artesanato e se inspira na mãe. Define o HIV como uma barreira que pode ser superada com luta, e considera o concurso uma experiência transformadora.

Ruthi Jovina da Silva Lima, de 67 anos, sonha com a cura do HIV. Solteira, escorpiana e muito bem-humorada, quer ser feliz e espalhar alegria. Suas inspirações são Tarcísio Meira e Glória Menezes, e sua mensagem é direta: “Se cuidem”. Para Ruthi, vencer é celebrar a vida.

Isaura Estanislau, de 64 anos, sonha em viajar o mundo. Com alma leve e comunicativa, ela revive, através do concurso, um desejo de infância: ser top model. Sua mensagem é tocante: “Não façam como eu. Sigam seus sonhos”. Sobre o HIV, deixa um alerta: “Não esqueçam a medicação”.

Por fim, Isabelli Potter, de 39 anos, é travesti, paraense, resistente e cheia de voz. Comunicadora nata, sonha em entrar na universidade e tem como inspiração Carolina Iara. Para ela, participar do concurso é um grito de empoderamento coletivo: “Viver com HIV não nos define. Somos resistência, beleza e potência”. Ela reforça que prevenção é um ato de amor, defende o uso da camisinha e incentiva o acesso à PrEP, PEP e à informação. Ela, que ficou com a faixa de vice-campeã, disse que vencer é mais do que uma faixa: é provar que sua trajetória importa e inspira.

Misters que representam

Marcos David Guerreiro, de 57 anos, vive com HIV há 29 anos e sonha em ser ator. Viúvo, ele encara o concurso como uma honra. “Não tenha vergonha de quem você é”, afirma, lembrando que é possível dominar o HIV e viver com dignidade. Para ele, vencer seria magnífico.

Já Daniel Henrique, de 41 anos, sonha com o amor e uma viagem a Salvador. Solteiro e discreto, define-se como alguém de caráter. “Ajude o próximo sempre que puder”, aconselha. Para Daniel, o tratamento é fundamental para viver bem, e estar no concurso é reencontrar afetos.

Jonatan Willian Diegues, de 26 anos, é um artista que dança, canta e escreve. Define-se como alguém que usa a arte para transbordar o próximo de amor. Sonha em democratizar o acesso à cultura e disse que participar do concurso é abrir portas e multiplicar possibilidades.

Eleito vice-mister, Felipe Talismã, de 35 anos, tem humor afiado e sonhos intensos. Sonha em desaparecer do Brasil e critica a política que marginaliza os pobres. “Somos humanos, como qualquer um”, diz. Ganhar o concurso seria reafirmar que ainda há vida e esperança.

Adilson Batista, de 61 anos, acredita que ser feliz é o maior objetivo. Malha, dança, cozinha e deseja um mundo sem competição. Vê no concurso uma oportunidade de se conectar e deixar sua mensagem: “Seja você mesmo”.

Altair Donizete, de 54 anos, sonha em terminar sua casa. Se define como trabalhador e responsável. Para ele, estar o concurso é uma alegria, mas também uma forma de afirmar seus direitos e lutar por uma vida melhor.

Jean Carlos Silva, de 31 anos, quer comprar um pedaço de terra no mato e cultivar sonhos. Inspirado por sua criança interior, acredita que o HIV é apenas um detalhe diante das virtudes de cada pessoa. Ganhar o concurso seria se sentir pertencente.

Um desfile de dignidade e esperança

Mais do que um concurso de beleza, o Miss e Mister Pessoa Vivendo com HIV é um manifesto coletivo. Cada passo na passarela é um grito contra o estigma, cada sorriso é uma resposta à exclusão. Em um país onde o preconceito ainda adoece mais do que o próprio vírus, esses participantes mostram que viver com HIV não é ausência de beleza — é, muitas vezes, o que a torna ainda mais luminosa.

Nesta passarela, todos são vencedores. Porque aqui, o que desfila é a vida.

Com apoio de organizações como a Casa Florescer, a Coordenadoria de IST/aids da cidade de São Paulo, movimentos sociais e ativistas históricos da resposta à aids, o concurso se consolidou como um espaço de transformação social. Entre um desfile e outro, artistas fizeram dublagens abrilhantando ainda mais o teatro.

O público saiu tocado. Não apenas pelos trajes brilhantes ou pelas falas marcantes, mas por entender que ali se constrói uma outra narrativa: a de que viver com HIV é também viver com orgulho, com afeto e com direito ao aplauso.

E para quem pensa que o concurso termina ali, um aviso: os eleitos representarão o Instituto Vida Nova em outros eventos, ações públicas e mobilizações. Porque beleza, quando carrega propósito, não cabe num único palco — ela transborda.

Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)

Dica de entrevista

Instituto Vida Nova

Tel.: (11) 2297-1516

 

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