24/07/2014 – 04h
Novas tecnologias de prevenção e tratamento, a importância de campanhas direcionadas à populações-chave e a participação do movimento social foram os principais temas discutidos nesta quarta-feira (23), durante reunião da delegação brasileira na 20ª Conferência Internacional de Aids, em Melbourne. Governo e sociedade civil se encontraram no estande do Brasil e fizeram um primeiro balanço sobre o evento.
O Secretário de Vigilância em Saúde, do Ministério da Saúde, Jarbas Barbosa foi o primeiro a falar. “Neste evento temos contato direto com os avanços e novidades. Estou satisfeito com o que tenho visto. Algumas mudanças na luta contra a aids no Brasil estão alinhadas com o que está sendo dito aqui. Diferente da Conferência em Washington, onde a minha impressão era de que tínhamos que acelerar o passo, hoje o debate é sobre como aperfeiçoar as novas técnicas e tirar do papel nossas propostas”, declarou.
Segundo Jarbas, o primeiro passo para um Brasil sem aids é o diagnóstico precoce. "Temos que ampliar a testagem, nenhum brasileiro com vida sexual ativa pode deixar de fazer o teste de HIV”, diz.
Ele continua: “Em 2014, a expectativa do Brasil era ampliar o tratamento antirretroviral para 40 mil novos casos. Até agora, incluímos 35 mil. E vamos caminhar para cumprir a meta e chegar até 100 mil. Se a gente conseguir que 90% das pessoas vivendo com HIV conheçam seu diagnóstico, ter 90% dos que conhecem seu estado sorológico em tratamento e 90% dos que estão se tratando com zero carga viral, podemos sonhar com o Brasil sendo um dos primeiros países a colocar como meta a eliminação da transmissão. Temos muito a caminhar.” Jarbas ouviu por mais de 40 minutos as impressões dos participantes, inclusive a sociedade civil.
.jpg)
A ativista Lourdes Barreto, da Rede Brasileira de Prostitutas, participa do evento pela primeira vez e considera que a sociedade civil do Brasil está bem representada aqui em Melbourne. "Todos os movimentos sociais foram contemplados, estamos mais fortalecidos, e aos 72 anos estou tendo uma oportunidade ímpar de contribuir ainda mais para a construção da política pública. Estamos falando em tratar e testar, mas temos que pensar também em prevenir."
Lourdes elogiou ainda a reaproximação do governo e sociedade civil. "Nesta Conferência, mesmo sem falar inglês, estou tendo apoio para me comunicar, a delegação brasileira tem me ajudado. Pude conhecer a realidade das trabalhadoras do sexo ao redor do mundo. Há países em que a prostituição é proibida e cresce o número de pessoas infectadas.”
Para o ativista Henrique Ávila, coordenador da Rede de Jovens Vivendo com HIV/Aids no Tocantins, o Brasil ainda continua na frente quando o assunto é aids. “Tenho participado de alguns debates e todas as demandas levantadas aqui já são executadas no Brasil”, observou.
Também da Rede de Jovens, o militante Diego Calixto lamentou a falta de campanhas direcionadas às populações especificas. “Os painéis têm sido propositivos, com destaque para a importância do uso de tecnologias de informação para acessar os jovens. As campanhas devem seguir a tendência de aplicativos, games…”, disse Diego.
A militante Keila Simpson, de Salvador, também está satisfeita com o que tem visto aqui em Melbourne. "Essa discussão global sobre a epidemia segue a mesma linha do que está sendo feito no Brasil. Estive na Conferência na Cidade do México e até aqui avançamos muito, mas ainda há o que fazer. Volto para minha base mais fortalecida.”
Keila sente-se privilegiada por participar deste evento. “Imagina uma travesti que já está com quase 50 anos podendo participar de um momento como este, da construção da política pública no Brasil. A política de prevenção para a população trans está sendo fortalecida."
A enfermeira e militante transexual dos direitos humanos Fernanda Benvenutty, é a representante do Conselho Nacional de Saúde no evento. "Volto para o conselho mais preparada para debater as políticas de aids. Me assustei quando vi que a adesão ao tratamento antirretroviral no Brasil é maior se comparado ao resto do mundo, onde apenas 25% das pessoas com HIV aderem”, contou. Fernanda considera que é “preciso está aqui e ver de perto o que acontece. Assim podemos chegar na base e reproduzir. Vimos de perto que a política do Brasil segue a tendência do mundo, temos que comemorar. Temos agora que acalmar os ânimos e mostrar que numa política sempre há algo o que fazer", acrescentou.
A ativista Laiza Minelli, da rede trans, também comemorou o que tem visto em Melbourne, mas aproveitou a oportunidade para cobrar do Secretário Jarbas uma pesquisa sobre a incidência do HIV na população trans. "Não existem dados sobre essa população, não temos uma política pública para as trans."
De Goiás, veio o ativista Leo Mendes, da Articulação Brasileira de Gays (Artgay). "Claro que a minha expectativa e de todas as pessoas que vivem com HIV que vem para conferências como essa é de que a cura seja anunciada, essa é minha luta até a morte. Ainda tenho esperança que algum cientista há de nos dar essa notícia.”
Representando o Movimento Nacional da Cidadãs Posithivas, Eliana Moura, disse que encontrou em Melbourne a essência do movimento social. "Todos aqui foram solidários comigo, não falo inglês, mas com a boa vontade pude até conhecer histórias de mulheres que vivem com HIV/aids no Cazaquistão. Nunca teria tido a oportunidade de ver de perto a angustia de mulheres vivendo com HIV de outros países se não estivesse aqui".
O médico Nereu Mansano, do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, chamou a atenção para a redução de danos. "Este é um tema fundamental na luta contra aids e precisa ser ampliado no Brasil."
O presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), também é parte da delegação brasileira. "Muitos querem que nós da ABGLT divulgamos uma nota pública sobre o crescimento da aids no Brasil. Só vou escrever algo depois deste evento. Não é possível fazer uma análise política em cima de um numero, há outros elementos. Tenho conversado com outros movimentos para entender um pouco este resultado. Nada melhor do que viver experiências concretas para tomarmos posição", disse.
Depois de ouvir todas as falas, o diretor do Departamento de Aids, Fábio Mesquita, fez um breve balanço sobre as discussões que tem participado. “A primeira coisa que me chama atenção é que de fato a epidemia de diminuído de forma global, mas essa redução não se relaciona com populações-chave, diminui apenas nos lugares onde a epidemia é generalizada. Mas isso não aconteceu aonde tem epidemia concentrada, pelo contrário, há um crescimento. Cresceu nos Estados Unidos, cresceu na Europa, cresceu no Brasil, cresce aqui na Austrália e também na Bélgica – locais onde nunca tiveram epidemia. Isso porque são populações- chave mais afetadas.”
Para Fábio, é necessário focar na luta contra a doença. “Precisamos de políticas especificas. Não é possível conversar com a juventude se não for por aplicativos ou websites. Temos que ter humildade para aprender e usar melhor as mídias sociais. É preciso também incorporar as novas tecnologias, fizemos muito com as tecnologias clássicas – géis, camisinhas, estratégias de redução de danos –, agora temos que avançar, faz diferença”.
Fábio se referiu as tecnologias associadas ao tratamento como prevenção, seja ele profilaxia pós-exposição (pep) ou não. “Temos que incorporar as novas tecnologias nos prontos-socorros. O serviço especializado fecha na sexta a noite e só abre segunda pela manhã. Nesse período você perde a oportunidade de usar pep.”
Talita Martins, de Melbourne (Austrália)
A Agência de Notícias da Aids cobre a Conferência na Austrália com o apoio do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais e do Programa Municipal de DST/Aids de São Paulo



