Seminário em Brasília debate como pobreza, racismo, falta de saneamento, desigualdades territoriais e mudanças climáticas dificultam a eliminação de doenças e defende integração entre saúde, proteção social, ciência e políticas públicas
Eliminar doenças que persistem há décadas no Brasil exige mais do que diagnóstico, medicamentos e acesso aos serviços de saúde. É preciso enfrentar também pobreza, racismo, falta de saneamento, precariedade das moradias, desigualdades territoriais e outras condições que determinam quem adoece mais e quem encontra maiores dificuldades para acessar prevenção e tratamento.
Essa foi a perspectiva que orientou o 3º Seminário do Programa Brasil Saudável, realizado neste domingo (16), em Brasília. O encontro reuniu representantes do poder público, instituições de ensino e pesquisa, organismos internacionais, entidades da área da saúde e organizações da sociedade civil para discutir estratégias voltadas à eliminação das chamadas doenças determinadas socialmente.
Com moderação técnica do Ministério da Saúde, o seminário colocou no centro do debate uma mudança importante na forma de compreender essas enfermidades: em vez de tratá-las apenas como problemas clínicos ou epidemiológicos, a proposta é enfrentar também as condições sociais, econômicas, ambientais e territoriais que permitem que elas continuem atingindo determinados grupos de maneira desproporcional.
Saúde não começa no consultório
Na abertura do encontro, a secretária adjunta de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde, Marília Santini, destacou que o principal diferencial dessa abordagem é reconhecer que a persistência de determinadas doenças está diretamente relacionada às desigualdades.
“Não o tratamos apenas como uma questão clínica, mas como um desafio social complexo, marcado pela desigualdade. Compreendemos que a solução depende de fatores estruturais, como o acesso à água potável, saneamento básico, melhoria das condições de moradia e aumento da renda. O grande desafio é promover uma mudança de hábitos e de cultura”, afirmou.
A declaração sintetiza uma das principais questões discutidas no seminário: não basta tratar uma pessoa se ela continua vivendo em condições que favorecem o adoecimento ou dificultam o acesso permanente ao cuidado.
A ausência de saneamento, a insegurança alimentar, a dificuldade de transporte, as moradias precárias, a baixa renda, o racismo e diferentes formas de discriminação podem aumentar a exposição a doenças e, ao mesmo tempo, criar obstáculos para que as pessoas consigam diagnóstico precoce, tratamento adequado e acompanhamento pelos serviços de saúde.
Nesse cenário, a eliminação de doenças deixa de ser responsabilidade exclusiva do setor saúde. Passa a depender também de políticas de assistência social, habitação, saneamento, educação, renda, meio ambiente e direitos humanos.
Brasil Saudável propõe olhar para o território, e não apenas para cada doença
Marília Santini lembrou que, historicamente, muitas estratégias e parcerias foram organizadas em torno de doenças específicas, como malária ou tracoma.
O Programa Brasil Saudável busca alterar essa lógica ao ampliar a articulação entre diferentes áreas e concentrar esforços nas condições dos territórios onde essas doenças permanecem.
“Com o Programa Brasil Saudável ampliamos essa rede e passamos a focar na melhoria das condições do território, visando prevenir diversas enfermidades de forma integrada”, explicou.
A mudança significa reconhecer que diferentes doenças podem compartilhar as mesmas raízes sociais. Em um território marcado por pobreza, dificuldade de acesso à água, precariedade habitacional e ausência de serviços públicos, os fatores que favorecem um determinado agravo podem contribuir também para outros problemas de saúde.
Por isso, a pergunta deixa de ser apenas “como eliminar determinada doença?” e passa a incluir outra questão: **quais condições fazem com que ela continue atingindo justamente determinadas pessoas e territórios?**
Racismo e desigualdades também entram na discussão sobre eliminação
A programação do seminário deu espaço significativo ao impacto do racismo e das desigualdades na saúde.
Um dos painéis foi dedicado às diferentes formas de racismo, às iniquidades e ao direito à saúde, reunindo discussões sobre território, violência e exclusão social da população negra, direitos dos povos indígenas e racismo estrutural.
A presença desses temas em uma agenda de eliminação de doenças não é acessória. Ela parte do reconhecimento de que o adoecimento também acompanha desigualdades históricas.
Populações submetidas ao racismo, à pobreza ou à exclusão social podem estar mais expostas a determinados agravos e, ao mesmo tempo, enfrentar maiores barreiras para acessar diagnóstico, prevenção e tratamento.
É justamente nesse ponto que o princípio da equidade ganha importância. Garantir um sistema universal não significa ignorar as diferenças entre as populações, mas construir respostas capazes de reconhecer que alguns grupos enfrentam obstáculos muito maiores para exercer o mesmo direito à saúde.
Mudanças climáticas ampliam desafios nos territórios
O primeiro painel do seminário, “Saúde nos Trópicos e os desafios contemporâneos para a eliminação das doenças determinadas socialmente no Sul Global”, ampliou a discussão ao incorporar as mudanças climáticas e a proteção dos territórios tradicionais.
Foram debatidas as relações entre transformações ambientais, desigualdades territoriais e persistência de doenças, além das dificuldades para implementar políticas públicas em diferentes regiões.
As mudanças climáticas acrescentam uma nova camada ao problema. Alterações de temperatura, regimes de chuva, eventos extremos e modificações ambientais podem influenciar a circulação de agentes infecciosos e modificar as condições de exposição da população.
Mais uma vez, porém, os impactos não são distribuídos de forma igual. Populações que vivem em áreas com menor infraestrutura, maior vulnerabilidade social ou pouca presença do Estado tendem a ter menos condições de prevenção, adaptação e resposta.
População LGBTQIAPN+ e vulnerabilidades que se sobrepõem
No período da tarde, a programação volta-se para proteção social, convergência de políticas públicas e interseccionalidades.
Entre os temas previstos estão as vulnerabilidades que atravessam territórios e gerações, a intersetorialidade dentro do Sistema Único de Saúde (SUS) e as iniquidades enfrentadas pela população LGBTQIAPN+. O debate parte da compreensão de que as desigualdades raramente aparecem isoladas.
Uma pessoa pode enfrentar, simultaneamente, pobreza, racismo, LGBTfobia, desigualdade de gênero, violência e dificuldade de acesso aos serviços públicos. Quando essas vulnerabilidades se acumulam, também se multiplicam as barreiras à prevenção e ao cuidado.
Incorporar essa perspectiva às políticas de saúde permite compreender por que uma mesma estratégia pode produzir bons resultados para uma parte da população e não conseguir alcançar outra.
Ciência só produz impacto quando chega a quem mais precisa
O último painel do seminário é dedicado à ciência, inovação e implementação territorial e discute como transformar conhecimento científico em respostas concretas nos territórios.
A questão é especialmente relevante em um país com grandes desigualdades regionais. Uma tecnologia pode ser eficaz, um tratamento pode existir e uma política pública pode estar estabelecida nacionalmente, mas isso não significa automaticamente que todos tenham acesso a ela.
Entre a descoberta científica e a transformação da realidade existe uma etapa decisiva: a implementação.
Isso envolve capacidade dos serviços, organização das redes de atenção, formação de profissionais, participação comunitária, financiamento, comunicação e adaptação das estratégias às características de cada território.
Nesse processo, a sociedade civil ocupa papel fundamental. Organizações comunitárias conhecem barreiras, estigmas, violências e dificuldades de acesso que muitas vezes não aparecem plenamente nos indicadores epidemiológicos.
Governo, ciência e sociedade civil
A abertura do seminário reuniu representantes da Rede Brasileira em Pesquisa em Tuberculose (Rede TB), do Conselho Nacional de Saúde (CNS), do Coletivo da Sociedade Civil no Programa Brasil Saudável, da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT), do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS), do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (CONASEMS) e da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).
O encontro foi realizado como atividade prévia ao 61º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, o MedTrop 2026, considerado o maior encontro multidisciplinar sobre doenças infecciosas, parasitárias e saúde pública da América Latina. Cerca de 4 mil pessoas são aguardadas durante a semana.
No encerramento do seminário, está prevista a sistematização das discussões e um debate sobre caminhos para fortalecer a articulação entre ciência, gestão pública e sociedade civil.
Redação da Agência de Notícias da Aids com informações




