Doença segue como desafio à saúde pública, com transmissão ativa em regiões de maior vulnerabilidade social
O Ministério da Saúde divulgou, nesta quarta-feira (28), o Boletim Epidemiológico Especial de Hanseníase, que analisa o perfil da doença no Brasil entre 2015 e 2024. Os dados revelam que, apenas em 2024, o país registrou 22.129 casos novos de hanseníase, com uma taxa de detecção de 10,41 casos por 100 mil habitantes, considerada alta e classificada como prioritária para a atuação dos serviços de saúde.
Ao longo do período analisado, o Brasil notificou 301.475 casos de hanseníase, sendo 79% classificados como casos novos. Apesar de uma redução nos registros — especialmente durante os anos da pandemia de covid-19 — o boletim indica que a doença continua com transmissão ativa, mantendo-se como um relevante problema de saúde pública em diversas regiões do país.
Norte e Centro-Oeste concentram maiores taxas
As regiões Norte e Centro-Oeste apresentaram, de forma consistente, as maiores taxas de detecção ao longo da série histórica. Em 2024, os estados de Mato Grosso e Tocantins lideraram os índices nacionais, reforçando a concentração da doença em áreas com maiores desigualdades socioeconômicas e dificuldades de acesso aos serviços de saúde.
Outro dado que chama atenção é a ocorrência de casos em menores de 15 anos, que representaram 4,1% dos diagnósticos em 2024. Esse indicador é considerado sensível, pois aponta transmissão recente da doença, evidenciando falhas na detecção precoce. Segundo o boletim, o exame de contatos permanece como uma das principais estratégias para interromper a cadeia de transmissão, especialmente em territórios de maior risco e vulnerabilidade.
Vulnerabilidade social e desigualdades raciais
O perfil sociodemográfico dos casos revela uma forte associação da hanseníase com contextos de exclusão social. Em 2024, 72% dos casos novos ocorreram entre pessoas autodeclaradas pretas ou pardas, evidenciando desigualdades raciais no acesso à prevenção, diagnóstico e tratamento. O boletim também aponta uma redução na proporção de pessoas analfabetas entre os casos novos, quando comparado a 2015, indicando avanços graduais no acesso à informação e aos serviços de saúde.
Diagnóstico tardio e abandono do tratamento preocupam
Entre os principais desafios destacados pelo documento está o diagnóstico tardio. Em 2024, 11,5% dos casos novos já apresentavam grau 2 de incapacidade física no momento do diagnóstico, condição que indica danos permanentes e maior impacto na qualidade de vida. O boletim também registra um aumento da proporção de casos multibacilares ao longo da última década, forma mais grave e transmissível da doença.
Além disso, houve queda na proporção de cura nos anos das coortes analisadas e aumento do abandono do tratamento, fatores que comprometem o controle da hanseníase e reforçam a necessidade de fortalecimento da atenção integral às pessoas acometidas.
Estratégias integradas e combate ao estigma
Para a diretora do Departamento de Doenças Transmissíveis, da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, Marília Santini, o enfrentamento da hanseníase exige uma abordagem ampla e articulada. “O controle da doença passa pelo diagnóstico precoce, tratamento oportuno, vigilância de contatos, prevenção de incapacidades físicas e, sobretudo, pelo combate ao estigma e à discriminação”, afirma.
Segundo ela, as ações do Ministério da Saúde estão alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e às diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), com foco na redução da carga da doença e na promoção da equidade em saúde.
Mesmo sendo uma doença curável, a hanseníase segue como um marcador de desigualdade social no Brasil. Os dados do boletim reforçam que, para além dos avanços, o país ainda enfrenta desafios estruturais para eliminar a doença como problema de saúde pública.
Redação da Agência de Notícias da Aids




