Brasil registra alta de 325% nos casos de hepatite A entre 2022 e 2024

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O número de casos de hepatite A voltou a crescer no Brasil entre 2022 e 2024, após uma década de queda. Dados do boletim epidemiológico divulgado nesta terça-feira (8) pelo Ministério da Saúde apontam um aumento de 325% na taxa de incidência da doença no período, saltando de 0,4 para 1,7 casos por 100 mil habitantes. O crescimento é impulsionado principalmente por jovens do sexo masculino e pelas regiões Sul e Sudeste.

Segundo o coordenador-geral de Vigilância das Hepatites Virais, Mario Gonzalez, a reemergência da doença se deve à redução da imunidade prévia entre adultos jovens. “Tínhamos alta prevalência de anticorpos contra a hepatite A porque as pessoas se contaminavam na infância. Hoje, essa geração não tem mais essa proteção”, afirmou durante o lançamento do boletim.

As maiores altas ocorreram nas regiões Sul (3,3 casos/100 mil hab.), Sudeste (2,1) e Centro-Oeste (1,8), que registraram crescimentos de 50%, 57,1% e 350%, respectivamente, em relação a 2023. Em São Paulo, foram notificados 476 casos apenas no primeiro semestre de 2025, contra 266 em igual período do ano anterior.

Entre os grupos etários, os jovens adultos concentram os maiores aumentos. A faixa de 20 a 24 anos teve crescimento de 524,7% (de 77 para 481 casos). Já entre os de 25 a 29 anos, o aumento foi de 510,9% (de 114 para 707 casos), e entre os de 30 a 34 anos, de 506,8% (de 103 para 625). A faixa dos 35 a 39 anos também apresentou alta expressiva: 462,2% (de 82 para 461 casos). Em 2024, a proporção foi de três casos em homens para cada um em mulheres (2.653 contra 885 casos).

A hepatite A é uma infecção viral que provoca inflamação no fígado e, geralmente, está associada a más condições de saneamento, sendo transmitida pela ingestão de água ou alimentos contaminados. No entanto, segundo o Ministério da Saúde, surtos recentes indicam a transmissão sexual como principal via de contaminação entre adultos jovens.

Um exemplo foi registrado em Curitiba, que viveu um surto da doença em 2024. Um inquérito epidemiológico revelou que a maioria dos infectados eram homens entre 20 e 39 anos e que a principal forma de contágio foi sexual. A contenção do surto envolveu a vacinação direcionada a usuários de PrEP (profilaxia pré-exposição ao HIV), uma das estratégias que passou a ser adotada nacionalmente neste ano.

A vacina contra a hepatite A é indicada para crianças a partir de 15 meses e, desde junho, foi estendida a grupos específicos, como homens que fazem sexo com homens e usuários de PrEP. A prevenção também inclui o uso de preservativos e higiene adequada das mãos. Não há vacina para hepatite C.

O boletim também alerta para mudanças no perfil de transmissão das hepatites virais. A hepatite C, por exemplo, apesar de apresentar estabilidade geral nos últimos anos, teve aumento significativo nos casos por transmissão sexual: crescimento de 124% entre 2014 e 2024. Hoje, os casos por essa via são o dobro dos relacionados ao uso de drogas e quatro vezes maiores que os relacionados à transfusão de sangue.

“Nos anos 1990, dizia-se que a hepatite C não era sexualmente transmissível. Hoje sabemos que isso acontece, especialmente entre homens que fazem sexo com homens”, explicou Gonzalez. Estima-se que 80% das pessoas com hepatite C não apresentem sintomas. Entre os sintomáticos, o período de incubação varia de duas a 12 semanas, com sinais como febre, fadiga, náuseas, dor abdominal e icterícia.

Já os casos de hepatite B apresentaram uma redução de 34,6% na última década, com estabilidade nos últimos três anos. A taxa de detecção caiu de 8,1 para 5,3 por 100 mil habitantes entre 2014 e 2024. A doença também pode ser transmitida por via sexual e por contato com sangue contaminado, e costuma ser silenciosa nas fases iniciais.

O Ministério da Saúde reforça a importância da testagem. A recomendação é que todas as pessoas com mais de 20 anos façam pelo menos um teste de hepatite na vida. Em caso de suspeita, é indicado procurar uma Unidade Básica de Saúde para diagnóstico e orientação adequada.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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