Brasil leva para a Copa a história de um país que transformou a luta contra a aids em política de Estado

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Pentacampeão do mundo, referência global em saúde pública e pioneiro no acesso universal ao tratamento, país estreia diante do Marrocos carregando uma trajetória de conquistas dentro e fora dos gramados

Quando a Seleção Brasileira entrar em campo para sua estreia na Copa do Mundo de 2026, carregará muito mais do que a responsabilidade de buscar o hexacampeonato. Levará consigo a história de um país que se tornou símbolo mundial não apenas do futebol, mas também da defesa da vida, dos direitos humanos e do acesso universal à saúde.

A estreia brasileira acontece no dia 13 de junho de 2026, às 19h (horário de Brasília), no MetLife Stadium, em Nova Jersey, nos Estados Unidos, diante da seleção do Marrocos, em partida válida pela primeira rodada do Grupo H da Copa do Mundo.

Ao longo das últimas quatro décadas, o Brasil construiu uma das respostas mais reconhecidas do planeta ao HIV/aids. Enquanto se consolidava como a única seleção a disputar todas as edições da Copa do Mundo e conquistava cinco títulos mundiais, o país também protagonizava uma revolução na saúde pública ao garantir tratamento gratuito para todas as pessoas vivendo com HIV/aids.

A partida, válida pela primeira rodada do Grupo H, reúne duas nações com histórias distintas no enfrentamento da epidemia. De um lado, o Brasil, referência internacional em prevenção, assistência e tratamento. Do outro, o Marrocos, país que vem reduzindo de forma consistente o número de novas infecções e se tornou exemplo regional na política de redução de danos.

Um milhão de pessoas vivem com HIV no Brasil

O Brasil possui atualmente cerca de 1 milhão de pessoas vivendo com HIV, segundo o mais recente Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde. A prevalência estimada entre adultos é de 0,5%.

A resposta brasileira alcançou avanços importantes nos últimos anos. Aproximadamente 96% das pessoas vivendo com HIV conhecem seu estado sorológico. Entre elas, cerca de 82% realizam tratamento antirretroviral e 95% das que estão em terapia atingiram a supressão viral, condição que impede a transmissão sexual do vírus.

Em 2024, o país registrou 39.216 novos diagnósticos de HIV, um leve aumento em comparação aos 38.222 casos contabilizados em 2023. Ao mesmo tempo, os indicadores relacionados à aids continuam apresentando melhora.

Os casos de aids caíram 1,5%, passando de 37,5 mil para 36,9 mil notificações. Já os óbitos relacionados à doença chegaram ao menor patamar em mais de três décadas. Foram aproximadamente 9,1 mil mortes registradas em 2024, uma redução de 13% em relação ao ano anterior.

A epidemia brasileira permanece concentrada em populações-chave, especialmente homens que fazem sexo com homens (HSH), pessoas trans, profissionais do sexo e usuários de drogas. Entre os jovens de 15 a 29 anos, os números seguem preocupando as autoridades sanitárias, sobretudo entre homens.

A decisão histórica que mudou o rumo da epidemia

A resposta brasileira ao HIV tornou-se referência mundial em 1996, quando o país aprovou a lei que garante acesso universal e gratuito aos medicamentos antirretrovirais pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Na época, poucos países em desenvolvimento acreditavam ser possível oferecer tratamento em larga escala. O Brasil contrariou previsões internacionais, reduziu drasticamente a mortalidade, diminuiu internações hospitalares e se transformou em modelo para diversas nações.

Ao longo dos anos, a política brasileira passou a incorporar novas tecnologias e estratégias de prevenção, incluindo testagem rápida, distribuição gratuita de preservativos, ampliação do diagnóstico precoce, Profilaxia Pós-Exposição (PEP), Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) e programas voltados à prevenção da transmissão vertical. Hoje, o SUS oferece gratuitamente toda a linha de cuidado relacionada ao HIV.

Uma das principais ferramentas da prevenção combinada é a PrEP, medicamento utilizado por pessoas HIV negativas para evitar a infecção. Em 2025, o Brasil ultrapassou a marca de 150 mil usuários cadastrados na estratégia preventiva. Desde 2023, o crescimento foi superior a 150%.

Uma conquista construída pela sociedade civil

Desde o início da epidemia, na década de 1980, organizações da sociedade civil, ativistas, pesquisadores, profissionais da saúde e pessoas vivendo com HIV tiveram papel decisivo na construção das políticas públicas que transformaram o país em referência internacional.

Em um período marcado pelo medo, pela desinformação e pelo preconceito, movimentos sociais surgidos em diversas regiões do país passaram a exigir acesso ao tratamento, combate à discriminação e respeito aos direitos humanos. Organizações de luta contra a Aids ajudaram a ampliar a conscientização da população, pressionaram governos por respostas mais eficazes e participaram ativamente da formulação de políticas públicas.

As pessoas vivendo com HIV também ocuparam posição central nesse processo. Ao reivindicarem voz, cidadania e acesso à saúde, contribuíram para mudar a forma como a epidemia era tratada no país, substituindo abordagens baseadas no estigma por políticas fundamentadas na dignidade humana e no direito à vida.

Essa articulação entre governo, movimentos sociais, ciência e sistema público de saúde tornou-se uma das principais marcas da resposta brasileira ao HIV e é frequentemente apontada por organismos internacionais como um dos fatores responsáveis pelos avanços alcançados pelo país nas últimas décadas.

Brasil conquistou certificação da OMS pela eliminação da transmissão vertical

Uma das maiores vitórias recentes da saúde pública brasileira ocorreu em 2025, quando o Brasil recebeu da Organização Mundial da Saúde (OMS) a certificação pela eliminação da transmissão vertical do HIV como problema de saúde pública.

A certificação confirma que o país atingiu os critérios estabelecidos pela OMS para controlar a transmissão do HIV de mãe para filho, um dos maiores desafios históricos da epidemia. Atualmente, a transmissão vertical representa menos de 2% dos casos registrados no país, índice considerado um dos mais baixos da história brasileira.

Marrocos reduz novos casos e se destaca no norte da África

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Sensação da Copa do Mundo de 2022, quando se tornou a primeira seleção africana a alcançar uma semifinal, o Marrocos chega ao Mundial de 2026 vivendo também avanços importantes na resposta ao HIV.

Segundo o Unaids, aproximadamente 24 mil pessoas vivem com HIV no país. Apesar disso, a prevalência permanece abaixo de 0,1% da população. Em 2024, o país registrou 990 novos diagnósticos, o menor número de sua história. As novas infecções diminuíram 22% desde 2013.

Atualmente, cerca de 80% das pessoas vivendo com HIV conhecem seu diagnóstico. Aproximadamente 76% estão em tratamento e 95% das que recebem terapia antirretroviral apresentam supressão viral.

O Marrocos é considerado um dos poucos países da região do Oriente Médio e Norte da África a investir fortemente em políticas de redução de danos. O programa nacional de metadona, destinado principalmente a usuários de drogas injetáveis, tornou-se referência regional.

Muito além do resultado

Quando Brasil e Marrocos entrarem em campo, o mundo verá duas seleções em busca de um sonho esportivo. Mas verá também duas histórias de enfrentamento ao HIV construídas em contextos completamente diferentes.

De um lado, um país que transformou o acesso ao tratamento em política pública e ajudou a redefinir a resposta global à epidemia. Do outro, uma nação que se tornou exemplo regional ao reduzir infecções e ampliar estratégias de prevenção em uma das regiões mais desafiadoras do planeta.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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