Brasil enfrenta a Noruega em duelo marcado por importantes conquistas na resposta ao HIV

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Seleções se enfrentam neste domingo; fora dos gramados, os dois países acumulam avanços importantes na prevenção e na resposta à epidemia. 

O Brasil entra em campo neste domingo (5), às 17h (horário de Brasília), para enfrentar a Noruega pelas oitavas de final da Copa do Mundo. Favorita dentro das quatro linhas, a seleção brasileira também representa um país que, há décadas, ocupa posição de destaque na resposta global ao HIV.

Do outro lado, a Noruega reúne indicadores entre os melhores da Europa e aposta em políticas de saúde pública, inovação científica e combate ao estigma para manter a epidemia sob controle.

Brasil é referência mundial pelo acesso universal ao tratamento

Com cerca de 1 milhão de pessoas vivendo com HIV, o Brasil mantém uma prevalência estimada de 0,5% entre a população adulta, segundo o mais recente Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde.

O país alcançou resultados expressivos na chamada cascata do cuidado. Aproximadamente 96% das pessoas vivendo com HIV já conhecem seu diagnóstico. Entre elas, cerca de 82% estão em tratamento antirretroviral e 95% das pessoas em terapia apresentam carga viral indetectável, condição que impede a transmissão sexual do vírus.

Em 2024, foram registrados 39.216 novos diagnósticos de HIV, número ligeiramente superior ao do ano anterior. Em contrapartida, os indicadores relacionados à aids seguem em queda. As notificações da doença diminuíram 1,5%, enquanto os óbitos caíram cerca de 13%, atingindo o menor patamar observado em mais de 30 anos.

Apesar dos avanços, a epidemia continua concentrada em populações-chave, como homens que fazem sexo com homens, pessoas trans, profissionais do sexo e usuários de drogas. Também chama atenção o aumento da infecção entre jovens de 15 a 29 anos, principalmente entre homens.

Política pública transformou o enfrentamento da epidemia

Um dos marcos mais importantes da resposta brasileira ocorreu em 1996, quando foi instituído o acesso universal e gratuito aos medicamentos antirretrovirais pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

A medida colocou o Brasil entre os primeiros países em desenvolvimento a oferecer tratamento em larga escala, reduzindo significativamente a mortalidade, as internações e consolidando uma política que passou a servir de referência internacional.

Ao longo dos anos, a estratégia brasileira incorporou novas ferramentas de prevenção, como testagem rápida, distribuição gratuita de preservativos, Profilaxia Pós-Exposição (PEP), Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), ampliação do diagnóstico precoce e ações para eliminar a transmissão vertical do HIV.

A PrEP, considerada uma das principais estratégias de prevenção combinada, segue em expansão. Em 2025, o Brasil ultrapassou a marca de 150 mil usuários cadastrados, crescimento superior a 150% desde 2023.

Outro diferencial da resposta nacional foi a participação ativa da sociedade civil. Desde os primeiros anos da epidemia, movimentos sociais, pesquisadores, profissionais de saúde e pessoas vivendo com HIV tiveram papel decisivo na defesa do acesso ao tratamento, na luta contra a discriminação e na construção de políticas públicas baseadas em direitos humanos.

Esse conjunto de ações resultou em mais uma conquista histórica em 2025, quando o Brasil recebeu da Organização Mundial da Saúde (OMS) a certificação pela eliminação da transmissão vertical do HIV como problema de saúde pública. Atualmente, esse tipo de transmissão representa menos de 2% dos casos registrados no país.

Noruega combina diagnóstico precoce, inovação e prevenção

Na Noruega, estima-se que aproximadamente 5.400 pessoas vivem com HIV. O país apresenta um dos maiores índices de diagnóstico da Europa: cerca de 96,5% das pessoas infectadas sabem que vivem com o vírus.

O levantamento oficial mais recente registrou 332 novos casos em 2023. Embora o número seja superior ao observado em alguns países nórdicos vizinhos, permanece baixo em relação ao tamanho da população.

Homens que fazem sexo com homens concentram aproximadamente 45% das novas infecções. Outra característica da epidemia norueguesa é a predominância de diagnósticos entre pessoas imigrantes, especialmente oriundas de regiões da África e da Ásia afetadas por conflitos e maior circulação do HIV.

Já a transmissão heterossexual dentro do país continua incomum, assim como os casos relacionados ao uso de drogas injetáveis.

Capital integra iniciativa internacional para eliminar a aids

Em 2022, Oslo aderiu à iniciativa Fast-Track Cities, coordenada pelo Unaids, tornando-se uma das capitais comprometidas com a meta global de eliminar a aids como ameaça à saúde pública até 2030.

A participação na rede fortaleceu ações voltadas à ampliação da testagem, à redução do estigma, ao diagnóstico precoce e ao acesso contínuo à prevenção e ao tratamento.

No campo da pesquisa científica, a Noruega ganhou repercussão internacional no início de 2026 com a divulgação do chamado “paciente de Oslo”. O homem, que vivia com HIV desde 2006, entrou em remissão após receber um transplante de medula óssea para tratar um câncer hematológico.

O procedimento utilizou células de um doador com a mutação genética CCR5, associada à resistência ao HIV. Embora o caso represente um importante avanço científico, especialistas ressaltam que esse tipo de transplante envolve riscos elevados e não pode ser considerado uma estratégia de tratamento para a maioria das pessoas vivendo com HIV.

Mudanças na legislação reduziram criminalização

A Noruega também passou por uma importante transformação em sua legislação relacionada ao HIV.

Durante muitos anos, o país figurou entre aqueles com maior número proporcional de processos judiciais envolvendo suposta exposição ou não divulgação da infecção. Entre 1992 e 2017, ao menos 16 pessoas foram processadas, inclusive em situações sem transmissão do vírus.

A revisão do Código Penal, em 2017, restringiu significativamente essas possibilidades. Desde então, pessoas em tratamento eficaz ou que adotem medidas de prevenção, como o uso de preservativos, deixaram de ser enquadradas nessas disposições legais, alinhando a legislação ao conhecimento científico atual sobre transmissão do HIV.

Enquanto Brasil e Noruega disputam uma vaga nas quartas de final da Copa do Mundo, o confronto também reúne dois países que, cada um à sua maneira, investem em estratégias baseadas na ciência, no acesso ao tratamento e na prevenção para avançar no controle da epidemia de HIV.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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